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Brincar ‘é coisa séria’ para o desenvolvimento da criança

No mês da primeira infância, O SÃO PAULO mostra que as brincadeiras tradicionais contribuem para a evolução infantil e que é fundamental resgatá-las em meio a tantas tecnologias

Brincar ‘é coisa séria’ para o desenvolvimento da criança - Jornal O São Paulo
Tamilles sempre programa atividades lúdicas para o filho, Miguel
Arquivo Pessoal

A casa da influenciadora digital Tamilles Lima foi o primeiro parque de diversões explorado pelo filho, Miguel Ângelo, 4 anos. Entre as brincadeiras de que ele mais gosta estão aquelas que propõem o desafio de descobrir se determinado objeto se manterá boiando dentro da água e as que o convidam a adivinhar o que está escondido dentro de uma caixa.

As atividades propostas pela mãe não têm apenas o objetivo de entreter o menino, mas, sobretudo, de contribuir para o seu desenvolvimento ainda na primeira infância.

Com uma rotina de atividades estabelecida, Tamilles busca estimular o desenvolvimento do filho diante de cada nova necessidade. Ao O SÃO PAULO, ela contou que, por volta dos 2 anos de idade, Miguel apresentava um pequeno atraso na fala. Com a realização de atividades voltadas a esse sentido, ele teve melhora em poucas semanas.

Outro aspecto destacado pela influenciadora é que, graças às brincadeiras, o filho ingressou na escola já sabendo falar e escrever o alfabeto e os números. Também conhecia todas as formas geométricas e as cores, inclusive em inglês, além de já saber escrever o próprio nome.

“Sempre digo que crianças aprendem melhor brincando. Não é preciso ter brinquedos caros. Quando brincamos com nossos filhos, ajudamos no aprendizado, fortalecemos o vínculo entre nós e contribuímos para o desenvolvimento da criativi-dade, da comunicação e das habilidades sociais. Brincar é um gesto de amor”, salientou Tamilles.

CUIDADOS COM A PRIMEIRA INFÂNCIA

Instituído pela Lei Federal nº 14.617/2023, o Mês da Primeira Infância, também chamado de Agosto Verde, convida a sociedade brasileira a refletir sobre a importância da atenção integral a gestantes, bebês, crianças até os 6 anos de idade e suas famílias.

Uma das estratégias para garantir o desenvolvimento infantil desde os primeiros anos de vida está na valorização das mais diferentes formas de brincar. Segundo Gabriela Moura, profissional de Educação Física e especialista em Desenvolvimento Infantil, “a brincadeira é o jeito que a criança conhece o mundo”.

“É brincando de faz de conta, por exemplo, que a criança aprende a ser criativa, estimula a imaginação, aprende a resolver problemas e, ao mesmo tempo, aprende a nomear e controlar as próprias emoções. Indo mais além, quando a criança brinca com outro par, ela começa a desenvolver habilidades sociais, como dividir, esperar a vez, conversar, negociar e até resolver pequenos conflitos. Brincar é natural, não precisa de roteiro ou brinquedos caros, apenas paciência, liberdade de imaginação e espaço para a criatividade fluir”, apontou a especialista.

MAIS BRINCAR, MENOS TELAS

Refletir sobre o brincar em uma era marcada cada vez mais pelo uso da tecnologia exige, conforme explicado por Gabriela, entender que a tela, por si só, não é a grande vilã, mas que a preocupação surge quando o aparelho começa a ocupar o espaço de experiências essenciais para o desenvolvimento da criança.

“O maior erro das famílias é delegar a infância dos filhos a um aparelho tecnológico só para terem mais tempo para si. Quando o tempo de tela é excessivo, principalmente nos primeiros anos de vida, é possível observar impactos na linguagem, na atenção, no sono, na criatividade e até nas habilidades sociais, porque a criança acaba tendo menos oportunidades de viver experiências reais com a família”, frisou Gabriela.

O ideal, de acordo com a profissional, não é proibir as telas, mas usá-las de modo consciente: estabelecer limites, escolher conteúdos de qualidade, evitar o uso durante as refeições e antes de dormir e, principalmente, garantir que a criança tenha bastante tempo para brincar, correr, explorar o mundo e conviver com outras pessoas.

USAR O TEMPO E A CRIATIVIDADE

Mãe do pequeno José, de 1 ano, Gabriela é responsável pelo programa de desenvolvimento infantil Movimy (@movimy_). Ela orienta que mesmo diante de uma intensa rotina, os pais reservem ao menos de 15 a 20 minutos por dia para brincar com os filhos, dando uma atenção de verdade a eles.

Outro aspecto lembrado pela especialista é que o adulto não precisa comandar a brincadeira o tempo to-do. Muitas vezes, segundo ela, o melhor que se pode fazer é observar, incentivar e deixar que a criança explore todas as possibilidades: “Não subestimem o poder do brincar. Muitas vezes, os pais ficam preocupados em ofere-cer o melhor brinquedo, a melhor atividade ou a melhor escola, mas esquecem que o mais importante é oferecer tempo, presença e oportunidades para a criança explorar o mundo”.

Ela recomenda aos pais simples atividades que fazem toda a diferença:

✓ Sentem-se no chão com seus filhos;
✓ Leiam uma história;
✓ Realizem uma brincadeira de faz de conta; 
✓ Passeiem no parque;
✓ Deixem a criança explorar as coisas e contar sobre o dia dela. 

“Esses momentos simples, que mui-tas vezes parecem pequenos, são justamente os que deixam as maiores marcas no desenvolvimento e nas memórias afetivas da infância”, destacou a especialista. 

BRINCADEIRAS QUE CABEM NO DIA A DIA

Por acreditar que brincar é uma das principais formas de a criança aprender, a psicóloga Hyrla Pinheiro, mãe de Otto, de 1 ano e 8 meses, decidiu incluir experiências lúdicas no dia a dia do filho. Entre as atividades mais realizadas estão aquelas que estimulam os sentidos e a coordenação motora. Graças a essas experiências, ela conta que o menino desenvolveu uma capacidade de concentração e persistência considerada acima da média para a idade.

Brincar ‘é coisa séria’ para o desenvolvimento da criança - Jornal O São Paulo
Hyrla incentiva que o pequeno Otto tenha contato com livros

O maior desafio para a psicóloga, porém, é conciliar o trabalho no consultório, a maternidade, os cuidados da casa e ainda encontrar tempo para brincar com o filho. Para tornar isso possível, ela aprendeu a incluir os momentos com o filho na rotina.

“Enquanto cozinho, ele faz uma atividade. Enquanto organizo alguma coisa, ele participa. Isso tira um peso enorme da maternidade e faz com que o brincar aconteça de forma muito mais leve”.

Segundo Hyrla, estimular uma criança não significa passar o dia inventando atividades mirabolantes ou comprando brinquedos, mas oferecer a ela pequenas experiências do cotidiano, o que demanda dos pais presença, interação e deixar a criança experienciar.

“A infância passa muito rápido. E, no futuro, dificilmente nossos filhos vão lembrar do brinquedo mais caro que tiveram. Mas é bem provável que se lembrem de como se sentiram enquanto brincavam com quem amavam. Acho que esse é um investimento que vale muito a pena”, concluiu Hayla.

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