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Deslocamento mais longo e calçadas precárias também geram desigualdade educacional

Pesquisadora da USP usou dados das cidades de São Paulo e Belo Horizonte para analisar a acessibilidade às escolas como um fenômeno multidimensional, que passa pela mobilidade urbana

Deslocamento mais longo e calçadas precárias também geram desigualdade educacional - Jornal O São Paulo
Rovena Rosa/Agência Brasil

Uma pesquisa recente apresentada à Escola Politécnica (Poli) da USP demonstra como os problemas de mobilidade urbana também afetam o acesso à educação. Em sua tese de doutorado, intitulada Caminhos para a equidade: uma abordagem multidimensional para a análise da mobilidade e da acessibilidade às escolas, a pesquisadora Bruna Pizzol analisa escolas públicas e privadas de São Paulo e Belo Horizonte, e identifica a precariedade da infraestrutura urbana nos entornos das escolas como um problema que alimenta as desigualdades na acesso à educação. O trabalho, orientado pela professora Mariana Giannotti, do Departamento de Engenharia de Transportes da Poli, foi apresentado em abril.

O estudo surge como uma perspectiva inovadora do assunto: a maior parte da literatura sobre acesso a escolas aborda apenas a quantidade de unidades, sem considerar a qualidade de ensino das instituições. Além disso, ocupa-se majoritariamente de cidades do Norte Global, que não se equiparam aos níveis de desigualdade das grandes cidades latino-americanas.

Bruna conta que seu interesse pela análise de fatores sociais surgiu ainda durante seu mestrado, e que sua inquietação com a desigualdade foi o fio condutor de sua tese. “Eu sempre tive interesse em estudar as desigualdades, mas esse tema das escolas, em especial, me chamava muito a atenção. Eu achava particularmente instigante saber como esses jovens se locomoviam e como era o dia a dia deles em relação ao caminho da escola, quais eram as dificuldades”, conta a pesquisadora.

O trabalho reúne três artigos de Bruna Pizzol, cada um voltado para um questionamento relacionado à temática de acessibilidade em escolas. “Começamos incorporando a qualidade do ensino, que foi o primeiro artigo, e depois uma análise da caminhabilidade, no segundo. Por fim, estudamos as desigualdades cumulativas em relação à acessibilidade, no último artigo, usando também machine learning. Eu acho belo mesclar métodos de machine learning, dos dados, com análises sociais, e isso dá um mix muito bom em que a gente usa ferramentas computacionais para investigar questões reais.”

Como recomendação para as políticas públicas, o estudo indica a necessidade de investimento na qualidade do ensino escolar nas periferias, assim como a priorização de melhorias na infraestrutura pedestre nas áreas onde estão concentrados os pedestres compulsórios.

Calçadas precárias, acesso precário

Entre as informações levantadas na tese, a pesquisadora destaca a desigualdade na distância a ser percorrida diariamente por estudantes em busca de uma boa educação. Bruna explica que “embora as escolas estejam bem distribuídas no território, o tempo de deslocamento a pé até a melhor escola pública que analisamos é dez vezes maior que o deslocamento até a melhor escola particular”.

O estudo avaliou ainda que 65% dos alunos da rede pública vão a pé até a escola, muitos dos quais são “pedestres compulsórios”, ou seja, caminham por não possuírem outra opção de deslocamento. O mesmo indicador representa 23% dos matriculados nas escolas particulares. Em São Paulo, 65,3% das unidades estão localizadas em espaços com calçadas estreitas e precárias. “A distribuição de calçadas espelha a segregação socioespacial da cidade”, afirmou a pesquisadora na apresentação de sua tese.

Alunos sem acesso às melhores escolas da cidade, grupo analisado no terceiro artigo abordado, possuem proporção 44% maior de pessoas pretas, pardas e indígenas, e renda 34% menor em comparação com os estudantes que conseguem frequentar essas escolas. Dessa forma, o estudo propõe que a precarização da acessibilidade às melhores escolas exclui, na prática, populações não brancas e de baixa renda do ensino de qualidade em cidades como as analisadas.

Dentre os desafios enfrentados para a construção da tese, Bruna cita a ausência de dados mais recentes sobre as escolas analisadas em Belo Horizonte, bem como o dever de escolher, dentre diversas variáveis que compõem a acessibilidade, os fatores a serem considerados no estudo. Para este trabalho, a pesquisadora optou por priorizar critérios quantitativos, apesar de entender que fatores como a opinião dos próprios estudantes sobre a segurança dos caminhos e a qualidade do ensino também seriam relevantes para a formulação da tese. “Foi uma escolha, são feitas várias triagens”, explica.

Para estudos futuros, a doutoranda aponta que seria importante investigar também esse fenômeno em outras cidades do Sul Global e incorporar dados que permitam o acompanhamento da evolução temporal dos níveis de acessibilidade. “Como pesquisador, a gente tem essa curiosidade de entender realidades que, muitas vezes, são bastante diferentes das nossas. Existe, em São Paulo, uma realidade de transporte no centro expandido diferente da periferia, assim como outras desigualdades. Existe essa curiosidade de entender melhor o grau dessas disparidades e como outras pessoas vivem, o que poderia ser feito para melhorar a vida dessas pessoas”, diz Bruna.

FONTE: Jornal da USP (Maria Clara Ramos, da comunicação da Poli)

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