Em assembleia, bispos do Brasil analisam diretrizes gerais à luz da Igreja sinodal

Primeira etapa da 59a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada de modo on-line, foi concluída na sexta-feira, 29 de abril, com mensagem ao povo brasileiro

Dez sessões de trabalho, durante cinco dias e com cerca de 40 temas em pauta. Assim foi a rotina dos mais de 300 bispos que participaram, entre 25 e 29 de abril, da primeira etapa da 59a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada de modo on-line. A segunda fase, presencial, ocorrerá em Aparecida (SP), entre 29 de agosto e 2 de setembro.

O tema central da 59a AG é “Igreja Sinodal – Comunhão, Participação e Missão”, em referência ao itinerário proposto pelo Papa Francisco para a Igreja em todo o mundo, com vistas à assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023.

Conforme destacou Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte (MG) e Presidente da CNBB, na coletiva de imprensa do encerramento da assembleia, o tema central busca analisar como as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2019-2023) estão inseridas no caminho atual da Igreja e em quais aspectos precisam ser aprimoradas. 

“Queremos ser uma Igreja que em diálogo com a sociedade, consciente dos apelos e dos desafios atuais – culturais, sociais, econômicos e políticos – anuncie, do melhor modo possível, a beleza e a genuinidade do Evangelho de Jesus Cristo, sabendo que este é o grande tesouro de nossa vida e compartilhá-lo é a nossa missão”, enfatizou Dom Walmor.

Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre e primeiro Vice-presidente da CNBB, comentou que a Assembleia “é sempre um exercício privilegiado da comunhão entre os bispos do Brasil”, os quais devem estimular os fiéis a caminhar “com discernimento, coragem, oração e determinação”.

SINODALIDADE

Dom Leomar Antônio Brustolin, Arcebispo de Santa Maria (RS) e Presidente da Comissão para o Tema Central, destacou que as DGAE 2019-2013 permanecem atuais, mas a sinodalidade remete a um processo de dinamismo, no qual o contexto da Igreja, no pós-pandemia, deve considerar a acolhida e a escuta: “É preciso repensar o valor da comunidade e renovar a mística do processo, pois o caminho não está pronto. Não se trata de um caminho novo, mas um jeito novo de caminhar frente aos sinais dos tempos que estamos enfrentando”.

Em plenárias virtuais, os bispos, reunidos conforme seus regionais e organismos da Igreja no Brasil, refletiram sobre as DGAE (2019-2023) à luz do processo do Sínodo Universal.

De um modo geral, conforme os comunicados de imprensa da CNBB, os prelados indicaram que os pilares da DGAE devem continuar para o próximo quadriênio, uma vez que expressam a realidade da Igreja no Brasil, mas precisam ser atualizados à luz das reflexões do Sínodo de 2023, tais como a questão querigmática, ministerialidade, iniciação à vida cristã, animação bíblica da pastoral, a questão urbana e os novos desafios da realidade em vista de um reencantamento dos fiéis à vida comunitária.

Questionado por jornalistas se a vivência da sinodalidade é um desafio para a Igreja em um país de dimensões continentais, Dom Walmor disse que embora o seja de fato, a CNBB sempre lidou com isso em seus 70 anos de história e que a meta agora é “aperfeiçoar e, particularmente, incluir o povo de Deus nesta participação, no exercício missionário e no desenvolvimento de uma consciência cada vez mais clara e comprometida com os valores do Evangelho”.

Já Dom Joel Portella Amado, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro e Secretário-geral da CNBB, destacou que a grande contribuição que o Brasil pode dar no caminho rumo a uma Igreja sinodal está nas atuais DGAE. “Eu vejo a sinodalidade acontecendo, por exemplo, quando falamos em comunidades eclesiais missionárias, em que a experiência de fé é vivida em comunidade, baseada, acima de tudo, nos relacionamentos humanos primários, cumplicidade de vida, corresponsabilidade, distribuição de serviços, carismas, ministérios e compromissos com a sociedade e o socioambiental”.

Na etapa presencial da 59a AG acontecerá o aprofundamento do tema central e as indicações para as próximas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, a serem publicadas em 2023.

15 ANOS DE APARECIDA

A memória dos 15 anos da realização da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida 2007, também foi tratada nessa assembleia, destacando-se oito pontos Documento de Aparecida que se refletem nas DGAE: conversão pastoral e renovação missionária; a formação do discípulo missionário e a Iniciação à Vida Cristã; a animação bíblica da pastoral; Paróquia, comunidade de comunidades e comunidades eclesiais missionárias; a piedade popular: lugar do encontro com Jesus Cristo; a Igreja a serviço da vida plena; opção renovada pelos adolescentes e jovens; e a família como espaço de vivência dos valores evangélicos.

O Arcebispo de Brasília (DF) e Referencial do Instituto Nacional de Pastoral Padre Alberto Antoniazzi (Inapaz), Dom Paulo Cezar Costa, destacou que o Documento de Aparecida já apontava para uma mudança de época, e que diante dos desafios enfrentados pela Igreja no continente faz um chamado para que todo o cristão católico atue com todas as forças nos processos constantes de renovação missionária e abandone as ultrapassadas estruturas que já não favorecem a transmissão da fé.

Aos jornalistas, Dom Jaime Spengler lembrou que na assembleia os bispos analisaram os avanços e desafios da Igreja no continente apresentados no Documento de Aparecida.  “Não se trata de reavivar o Documento de Aparecida, mas, sim, de abraçá-lo com sempre mais vigor e entusiasmo por aquilo que ele nos inspira e, certamente, essas inspirações têm muito a dizer a todos nós nos dias atuais”, enfatizou.

ESTATUTO DA CNBB E TRADUÇÃO DO MISSAL ROMANO

Os bispos também iniciaram reflexões sobre dois temas a respeito dos quais ainda colocarão para a aprovação na etapa presencial da assembleia, antes de serem enviados para aprovação definitiva da Santa Sé: a revisão do Estatuto da CNBB e a tradução do Missal Romano.

Quanto ao estatuto, os bispos sugeriram revisões de artigos, especialmente quanto à questão dos bispos eméritos, do vínculo que a Conferência possui com alguns organismos, da regulamentação dos regionais, do acordo Brasil-Santa Sé e da estrutura da presidência.

Já em relação à revisão da tradução brasileira do Missal Romano, livro que garante a unidade dos textos litúrgicos da missa, os prelados foram consultados especialmente sobre orações eucarísticas.

MENSAGEM AO POVO BRASILEIRO

No encerramento da Assembleia, na sexta-feira, 29, os bispos publicaram a  tradicional Mensagem ao Povo Brasileiro, na qual destacam a solidariedade para a superação da pandemia, agradecem às famílias e agentes educativos pelo cuidado no campo da Educação e dedicam reflexões sobre a realidade do País, com especial preocupação para o que consideram como uma complexa e sistêmica crise ética, econômica, social e política.

Os bispos exortam os governantes a promover “grandes e urgentes mudanças, em harmonia com os poderes da República, atendo-se aos princípios e aos valores da Constituição de 1988”; alertam para ameaças à democracia e ao processo eleitoral; e conclamam a sociedade brasileira a participar das eleições e “votar com consciência e responsabilidade, escolhendo projetos representados por candidatos e candidatas comprometidos com a defesa integral da vida, defendendo-a em todas as suas etapas, desde a concepção até a morte natural. Que também não negligenciem os direitos humanos e sociais, e nossa casa comum onde a vida se desenvolve”.

Na coletiva de imprensa, Dom Joel Portella ressaltou que ao manter a tradição de publicar esta mensagem, a CNBB demonstra que a Igreja não é autorreferencial nem olha apenas para suas próprias questões: “Temos um compromisso, que decorre da fé, com a realidade do País”, comentou destacando que a mensagem não se limita apenas a listar os problemas do País – sombras -, mas indica que há caminhos para solucioná-los – luzes.  

Já Dom Jaime lembrou que boa parte das reflexões advindas das análises de conjuntura social e eclesial que foram apresentadas aos bispos durante esta etapa da 59o AG estão expressas na mensagem ao povo brasileiro e que continuarão a ser refletidas por toda a Igreja no Brasil ao longo do ano.

OUTROS TEMAS

Ao longo dos cinco dias de assembleia, muitos outros assuntos foram apresentados e debatidos pelos bispos do Brasil. Veja a seguir algumas dessas temáticas:

Eleições: Houve a apresentada a Cartilha de Orientação Política 2022, produzida pela Regional Sul 2 da CNBB. O tema refletido é “a política melhor”, que lembra que fé e política não estão dissociados. Uma das preocupações expressas é com a divulgação de fake news ao longo do processo eleitoral.Também o Conselho Nacional do Laicato no Brasil (CNLB) apresentou aos bispos o caderno “Encantar a política”, que buscará contribuir para a formação da consciência do eleitor brasileiro, por meio de um processo que o leve a uma leitura crítica e para uma cidadania ativa.

CF 2022: O secretário executivo de Campanhas da CNBB, Padre Patriky Samuel Batista, falou sobre os frutos já perceptíveis da Campanha da Fraternidade 2022, que tratou do tema “Fraternidade e Educação”. Muitos bispos destacaram que o tema ressoou para além das igrejas, com reflexões chegando a escolas, universidades e junto aos poderes Executivo e Legislativo. Durante a 59a AG, houve ainda a prestação de contas sobre o Fundo Nacional de Solidariedade, pelo qual se promove a sustentação da Ação Social da Igreja Católica no Brasil.

Proteção de menores: Dom Francisco Carlos Bach, Bispo de Joinville (SC) e presidente do Regional Sul 4 da CNBB e da Comissão Especial para a Proteção da Criança e do Adolescente, apresentou o trabalho dessa comissão especial criada em 2021 com o objetivo de ajudar a Igreja do Brasil a efetivar o pedido do Papa de evitar todas as formas de abuso contra menores na Igreja. A Comissão atua em parceria com o Núcleo Lux Mundi para a constituição dos Serviços de Proteção, seu regulamento e formação de seus membros. Também está sendo realizada uma pesquisa por meio de um formulário enviado a todas as dioceses do Brasil; e elaborado um Manual de Procedimentos que irá contemplar a prevenção, a intervenção em caso de assinalações, a proteção do possível abusado e do denunciado e demais questões que possam envolver esses casos.

Projeto comunhão e partilha: Houve a prestação de contas do Projeto Comunhão e Partilha, que auxilia a manutenção dos estudos de seminaristas de várias partes do Brasil. Em 2021, foram investidos mais de R$ 270 mil, atendendo a 279 seminaristas de 37 dioceses. O fundo é composto a partir da oferta de 1% da renda ordinária fixa por parte de todas as arquidioceses, dioceses e prelazias do Brasil.

Ministério de Catequista: Membros da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB falaram a respeito da instituição do ministério de catequista, pelo Papa Francisco, por meio da carta apostólica Antiquum Ministerium. Os bispos deram sugestões à Comissão em relação aos critérios e o itinerário que poderá ser assumido em cada Igreja particular. A aprovação deve ficar para a etapa presencial, quando também serão votados os ritos litúrgicos relativos ao ministério de catequista.

LGPD: Foi tratada a temática da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), no âmbito de sua aplicabilidade especialmente nas mitras e paróquias. Foi ainda lançado o livro “A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais e seus impactos nas dioceses” pelas Edições CNBB.

Documento de Estudo 114: A Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética apresentou a publicação Estudo nº 114 da CNBB, com o título “E a Palavra habitou entre nós” (Jo 1,14): Animação Bíblica da Pastoral a partir das comunidades eclesiais missionárias”. O Estudo é o resultado do esforço de uma comissão de bispos e assessores, cujo trabalho se inseriu em uma ampla escuta de catequistas, biblistas, pastoralistas e comissões pastorais em âmbito nacional, para estimular a animação bíblica da pastoral e incentivar todas as forças evangelizadoras a fim de que a Palavra de Deus esteja ainda mais na vida das pessoas.

Subsídio doutrinal nº 12: A Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé apresentou o subsídio doutrinal número 12 – “Vida Dom e Compromisso I – Fé cristã e opção preferencial pelos pobres”. O material, elaborado com apoio do grupo de peritos, oferece a reflexão do tema na perspectiva da fé cristológica e com o objetivo de “resgatar o significado da opção pelos pobres em suas raízes bíblicas, patrísticas e teológicas, em sua ressonância com o Magistério da Igreja e a teologia latino-americana”.

GRANDES EVENTOS

Os bispos também tiveram detalhes sobre alguns eventos da Igreja em âmbito nacional e mundial:

– 10ª Assembleia Nacional dos Organismos do Povo de Deus, em Brasília (DF), de 14 a 16 de outubro;

– 3º Ano Vocacional do Brasil, a partir de 19 de novembro, com a proposta de tratar sobre a missão da Igreja, dinamizando as pequenas comunidades eclesiais missionárias. O tema será “Vocação: Graça e Missão”;

– 18º Congresso Eucarístico Nacional, em Recife (PE), de 11 a 15 de novembro, após ser adiado por dois anos em razão da pandemia de COVID-19;

– Ano Jubilar Missionário, que começou em novembro de 2021, e tem como tema “A Igreja em estado permanente de missão”. A proposta é fazer memória da caminhada missionária nacional, mas, sobretudo, projetar a ação missionária como paradigma de toda a obra da Igreja;

– 10o Encontro Mundial das Famílias, entre 22 e 26 de junho, em Roma, com a ida de uma delegação brasileira composta por cinco bispos, um padre e 15 casais da Pastoral Familiar. Ao longo do encontro, atividades acontecerão simultaneamente em dioceses de todo o mundo, à luz do tema central “O Amor na família: vocação e caminho de santidade”.

(com informações da CNBB)

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