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Homeschooling: entre o sucesso pedagógico eo risco das punições judiciais

Famílias tem encontrado dificuldades para que lhes seja assegurado o direito de optar por este modelo educacional, no qual os estudantes não frequentam uma escola, mas que se aplicado devidamente, apresenta excelentes resultados

Homeschooling: entre o sucesso pedagógico eo risco das punições judiciais - Jornal O São Paulo
Sofatutor/Pexels

Levantar-se às 7h, fazer a higiene matinal, tomar o café e ir para a “escola”, que, no caso de Marina, 10, fica a apenas dois cômodos de distância da cozinha. A futura bióloga, como ela se autodefine, integra um grupo de crianças e adolescentes que cumprem sua jornada acadêmica em casa, também chamada de homeschooling.

Essa prática, no entanto, está em um cenário de in­segurança jurídica, pois diante da ausência de uma lei federal, conselhos tutelares e promotorias têm aciona­do os tribunais, com resultados drásticos para dezenas de famílias: sob a acusação de abandono intelectual, os pais enfrentam processos desgastantes que culminam em multas pesadas, ordens de matrícula imediata e, nos casos mais extremos, a ameaça real de perda da guarda dos filhos.

“Essa rigidez do sistema reflete uma mentalidade burocrática que ignora a realidade prática do aprendi­zado”, aponta a advogada Paula Lellis, especialista na temática. “Nesses debates sobre educação, os agentes estatais, juízes e promotores não entram no mérito da qualidade do ensino que está sendo oferecido de fato; eles apenas buscam verificar se a criança está ou não matriculada na escola, como se só isso tivesse valor como educação. As provas de aprendizagem efetiva e de uma boa socialização são completamente descon­sideradas e tratadas como irrelevantes pelos tribunais. Isso é escandaloso”, avalia a advogada.

Apesar dessas dificuldades, o número de adeptos do homeschooling tem crescido cada vez mais no Bra­sil, especialmente após a pandemia de COVID-19. De acordo com a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), há cerca de 75 mil famílias prati­cantes, o que se traduz em aproximadamente 150 mil estudantes nessa modalidade de ensino.

“Sem a regulamentação, não temos um cadastro oficial e, por isso, não há um número específico, mas esta estimativa é muito sólida e próxima da realidade”, explica Diego Vieira, membro da diretoria da Aned e presidente da Associação das Famílias Educadoras de Santa Catarina (Afesc).

DE CASA PARA O TRIBUNAL

Embora a pressão da Justiça seja forte, o cenário não é de derrota absoluta para quem educa em casa. “No Brasil, uma decisão judicial anterior não obriga todos os outros juízes a agirem do mesmo jeito no país inteiro. Os magistrados têm autonomia, e é por isso que vemos uma diversidade de interpretações e, in­clusive, muitos casos de vitória em que a escolha pelo homeschooling foi validada”, pondera Paula Lellis.

Foi o que aconteceu com os pais de Marina, citada no início desta reportagem. Moradores de Maringá (PR), eles foram denunciados em 2024, mas o desfe­cho para a família foi positivo: o caso acabou sendo arquivado após o promotor de Justiça reconhecer que o direito à educação estava sendo plenamente cumpri­do, mesmo por uma via não tradicional.

Apesar da vitória, o fantasma da insegurança ju­rídica continua a assombrar o lar. Ao conversar com a reportagem do O SÃO PAULO, a mãe de Marina pediu para não ser identificada. “Nós temos medo de que uma nova denúncia possa ter outro desfecho, e es­tamos até cogitando mudar de país”, desabafou.

Na contramão do caso paranaense, está uma famí­lia de Jales (SP). A reportagem teve acesso à sentença na íntegra na qual o juiz condenou os pais de detenção em regime semiaberto, obrigando-os a matricular as filhas em uma escola e a prestar serviços comunitários. O juiz do caso classificou como irrele­vante o excelente desempenho pedagógico alcançado pelas estudantes.

Outro caso de grande repercussão ocorreu em Santa Catarina com a família Cichelero. A mãe, Regia­ne, enfrentou uma intensa batalha judicial por educar seu filho de 15 anos em casa. Ela foi condenada a re­matricular o adolescente, sob pena de destituição do poder familiar e multa coercitiva que pode atingir R$ 100 mil. Diante disso, Regiane recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF). “Se continuarmos tendo um não, partiremos para a Corte Internacional de Direitos Humanos”, externou em suas redes sociais.

O ‘MITO’ DA DESSOCIALIZAÇÃO

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Ron Lach/Pexels

Um dos argumentos mais repetidos pelos críticos do ensino domiciliar é a suposta falta de convívio soci-al, o que para Isadora Palanca, autora de três livros so­bre homeschooling, trata-se de um equívoco conceitual.

“Dizer que não há socialização é um mito”, afirma. “A socialização escolar é, na verdade, uma bolha peque­na. Ali, as crianças só interagem com outras crianças da mesma faixa etária e que compartilham, por obriga­ção, os mesmos ambientes; raramente, trocam de ‘pane­linha’ durante o período escolar”, avalia Isadora.

Ela argumenta que o ambiente doméstico e comu­nitário, na verdade, expande horizontes: “As crianças em homeschooling vivem em uma ‘bolha muito maior’ – para brincar com este termo – porque têm acesso a pessoas de diferentes idades. Elas conseguem con­versar e interagir com os mais velhos, convivem em diversos ambientes sociais, fazem amizades sem a li­mitação etária e sem a timidez que o formato do am­biente escolar geralmente provoca”.

De acordo com Diego Vieira, os opositores do homeschooling não trazem dados objetivos, “apenas ata­cam as pesquisas e as famílias, mas não apresentam pro­vas dessa defasagem de socialização de que tanto falam”.

“Em todas as audiências públicas que participei, nós apresentamos dados científicos, estudos e pesqui­sas consolidadas, enquanto os opositores apresenta­ram apenas ‘achismos’”, assegura o membro da Aned.

Paula Lellis enfatiza que essa ausência de critérios científicos é um sinal de que esse embate é puramen­te ideológico: “Existe uma guerra cultural de inter­pretações de mundo que atravessa o debhomeschooling e o torna tão controverso. Certos grupos simplesmente não concordam que a família tenha tanta voz e rejeitam esta autonomia como uma força política”.

DADOS E DESAFIOS

Pesquisas lideradas pelo Dr. Brian D. Ray, presi­dente do National Home Education Research Ins­titute (Nheri) e publicadas no portal do instituto (www.nheri.org), mostram que os alunos educados em casa desempenham, em média, de 15 a 30 pontos per­centuais acima dos estudantes de escolas públicas em testes padronizados. Além disso, as revisões do pesqui­sador indicam que 87% dos estudos científicos valida­dos por comitês de cientistas independentes atestam que o desenvolvimento social, emocional e psicológico das crianças que praticam o homeschooling é significati­vamente superior ao modelo convencional.

O levantamento do instituto aponta que os alu­nos em ensino domiciliar obtêm pontuações acima da média nos testes SAT e ACT, exames nacionais que funcionam como uma espécie de ‘‘Enem ame­ricano’’, avaliando competências em matemática, lei­tura e ciências para o ingresso no ensino superior. Além do destaque acadêmico, esses estudantes parti­cipam significativamente mais de atividades sociais e educacionais fora de casa e com pessoas além de seu núcleo familiar, envolvendo-se rotineiramente em excursões, escotismo, campanhas políticas e traba­lhos voluntários. Uma das publicações no site Nheri aponta que o homeschooling se consolidou como a modalidade de ensino que mais cresce nos Estados Unidos e em outras nações de destaque, como Aus­trália, Canadá, França, Japão e Reino Unido.

Por trás dos números expressivos de sucesso aca­dêmico e desenvolvimento psicológico, no entanto, a rotina real das famílias educadoras exige sacrifícios severos que vão muito além da dedicação pedagógica. Longe de ser uma escolha isenta de problemas, a tran­sição para o ensino domiciliar esbarra em dificuldades financeiras e profissionais explícitas.

Na maioria dos casos, o modelo exige que um dos cônjuges abra mão total ou parcialmente de sua car­reira no mercado de trabalho para se dedicar inte­gralmente à tutela dos filhos, o que reduz o orçamen­to doméstico a uma única fonte de renda, enquanto os custos com materiais didáticos, livros e platafor­mas de ensino passam a ser assumidos inteiramente pelos pais.

REGULAMENTAÇÃO EM DEBATE

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Katerina Holmes/Pexels

Atualmente tramita no Senado o Projeto de Lei nº 1338/2022, pelo qual se pretende pôr fim a esse vácuo jurídico. Embora a proposta tenha ganhado nova roupagem nos últimos anos, sua trajetória começou na Câmara dos Deputados em 2012, acumulando, nestes 14 anos, intensos debates.

Focado em criar uma rede de proteção e fiscalização, o proje­to de lei estabelece que pelo menos um dos pais ou responsáveis legais deve possuir Ensino Superior completo, além da obrigato­riedade de os alunos estarem matriculados e vinculados a uma escola pública ou privada para fins de monitoramento. Além dis­so, prevê-se que o cronograma de estudos domiciliar siga a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), incluindo a submissão dos estudantes a avaliações periódicas e anuais de aprendizagem, sob a supervisão do Conselho Tutelar e mediante a comprova-ção de antecedentes criminais limpos por parte dos pais.

Segundo Diego, embora o cenário político atual do Brasil não permita certezas absolutas, “abre-se uma possibilidade real de que a proposta seja pautada e votada no plenário principal da Casa ainda neste ano”.

Paula Lellis defende, no entanto, que as famílias não preci-sam esperar por uma autorização ou concessão estatal para ocu­par seu espaço: “Assumindo a causa sem se intimidar, as famílias deixam de ser vistas como infratoras e passam a se posicionar como construtoras de um modelo alternativo viável e confiável”.

UMA REDE DE APOIO PARA PAIS EDUCADORES

Para as famílias que decidem trilhar o caminho do ensino do­miciliar, o maior desafio costuma ser vencer a sensação de iso­lamento. Diante disso, Diego Vieira ressalta que a Aned está à disposição para apoiá-las, como um ponto de encontro essencial para a troca de experiências entre pais e uma comunidade ativa de entusiastas e entidades parceiras, capazes de oferecer todo o suporte pedagógico necessário.

A associação disponibiliza materiais em vídeo, conferên­cias gravadas e mentorias sobre homeschooling, cobrindo des­de o planejamento de rotinas domésticas e cronogramas de estudo até a indicação de materiais didáticos. ‘‘Oferecemos também um workshop voltado para a prática segura da moda­lidade, no qual detalhamos toda a realidade jurídica e legisla­tiva atual para que os pais fiquem integralmente informados’’, destaca o diretor.

Há ainda a página no Instagram “Liberdade para Educar” (@liberdadeparaeducar), que atua como um canal dinâmico de orientação prática, acolhimento e atualização constante sobre os rumos do movimento no País.

A PREPARAÇÃO DOS PAIS PARA O HOMESCHOOLING

As experiências bem-su­cedidas de homeschooling mostram que a boa pre-paração dos pais e seu efetivo envolvimento no processo educativo são fundamentais.

De acordo com os guias de apoio aos pais da Asso­ciação Nacional de Educa­ção Domiciliar a estrutu­ração do aprendizado em casa deve se basear em três frentes principais:

Rotina flexível, mas consistente: Criação de cronogramas por turnos ou blocos de disciplinas para proteger o momen­to dos estudos da rotina doméstica;

Ambiente de aprendiza­do adequado: Organiza­ção de um espaço físico dedicado em casa, deixan­do livros, apostilas e por­tfólios sempre acessíveis;

Definição de metas cla­ras: Divisão do conteú­do anual em objetivos mensais ou semanais para monitorar o pro­gresso sem sobrecarre­gar a família.

O PL no 1338/2022, pelo qual se propõe regulamen­tar tal prática, postula que ao menos um dos pais deva ter ensino superior ou tecnológi­co completo; e que ambos não podem possuir antecedentes criminais enquadrados no Es­tatuto da Criança e do Adoles­cente (ECA) e na Lei Maria da Penha.

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