Pastoral da Pessoa Idosa promove iniciativas de conscientização, acolhimento e prevenção. Saiba como identificar os diferentes tipos de violência sofridos pelos idosos e os canais para denunciá-las

Envelhecer com dignidade é um direito – e a Igreja não pode se calar diante de quem sofre dentro de casa, muitas vezes pelas mãos de quem deveria amar. É este o chamado do Junho Violeta, mês de conscientização e enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, que tem amplo apoio da Pastoral da Pessoa Idosa (PPI).
O Brasil tem envelhecido em ritmo acelerado. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com 60 anos ou mais saltou de cerca de 22 milhões, em 2012, para os atuais 35,2 milhões. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que haja aproximadamente 1,1 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais, e que se chegará a 1,4 bilhão em 2030 e a 2,1 bilhões em 2050.
Paralelamente à maior longevidade da população, crescem dados alarmantes: o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania indica que, de janeiro de 2024 a abril de 2026, foram registradas mais de 1,6 milhão de denúncias de violência contra idosos pelo canal Disque 100. Apenas nos primeiros quatro meses de 2026, foram contabilizadas aproximadamente 250 mil denúncias, ante 209 mil no mesmo período do ano passado, aumento de quase 19%. Um outro dado, da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, publicado em 2024, aponta que a maioria das vítimas são mulheres (58,6%), com filhos e filhas sendo os principais agressores (29,5%), e que o local mais comum das agressões é a própria residência da vítima (71,5%).
ROSTO TERNO DE DEUS

Presente em mais de 2 mil municípios, a PPI – organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – mobiliza milhares de líderes voluntários em ações de prevenção, acolhimento e denúncia.
O Junho Violeta tem como marco o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho. O tema deste ano, “Marcas? Só as do tempo, não as de dor”, é um convite para que cada comunidade se torne espaço de acolhimento e valorização da vida, reconhecendo no idoso não apenas a passagem do tempo, mas a riqueza de uma história construída ao longo dos anos.
“Nós, da Pastoral da Pessoa Idosa, somos a presença de Deus que entra na casa dos mais vulnerabilizados. Percebemos vários tipos de violências; não só a física, mas também a econômica, a psicológica. Precisamos articular ações em rede. Precisamos nos preparar como Igreja, família, comunidade e Estado para garantir que a dignidade da pessoa idosa seja sempre respeitada. Envelhecer com dignidade é um direito de todos. A PPI é o rosto terno de Deus que promove a vida, a dignidade e a sabedoria para as pessoas idosas”, afirma a coordenadora nacional da PPI, Dione Menz, psicóloga, enfermeira e doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
GESTO CONCRETO DE EVANGELIZAÇÃO E CUIDADO

Fundada em 5 de novembro de 2004 pela doutora Zilda Arns Neumann, a Pastoral da Pessoa Idosa conta hoje com mais de 20 mil líderes voluntários capacitados, que acompanham cerca de 100 mil idosos por meio de visitas domiciliares mensais. Está presente em todas as regiões episcopais da Arquidiocese de São Paulo e em diversas dioceses paulistas, somando 3.350 líderes voluntários.
Para Wania de Araújo Coelho, coordenadora estadual da PPI, a visita domiciliar é, antes de tudo, um gesto de amor. “O líder voluntário, por meio da visita domiciliar, realiza um ato de amor ao próximo. Ele deve agir com muita cautela, discrição e responsabilidade, buscando sempre a orientação de profissionais e dos serviços competentes”, explica.
Wania ressalta que a Pastoral não substitui os serviços públicos, mas atua como ponte entre os idosos e a rede de proteção existente. “Por meio da visita domiciliar, levamos os afetos de Jesus”.
Em 2022, o Papa Francisco dedicou uma série de catequeses às pessoas idosas, destacando-as como “memória viva de um povo” (23 de fevereiro), e lembrando que “a velhice é uma vocação” (16 de março).
Na mensagem para o VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, que será celebrado em 26 de julho, o Papa Leão XIV assegura a proximidade do Senhor aos idosos – “Eu nunca te esquecerei” (Is 49,15) é o título do texto – e estimula a todos, em especial os mais jovens, “a retomarem o bom hábito de visitar os seus avós, os idosos da família e aqueles que não recebem nenhuma visita” (leia mais na página 12).
VIOLÊNCIAS QUE NEM SEMPRE DEIXAM MARCAS

O Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) determina que nenhuma pessoa com 60 anos ou mais pode ser submetida a qualquer tipo de violência. Entretanto, segundo André Fini Terçarolli, advogado criminalista, mestre em Direito Processual Penal e pós-graduado em Direito Penal Econômico, a agressão física é apenas a face mais visível de um problema muito maior.
“As formas mais recorrentes são negligência, abandono, violência psicológica, violência patrimonial ou financeira, violência física, discriminação e, em casos mais graves, violência sexual”, explica.
Sobre os sinais de violência psicológica sofrida pelo idoso, o advogado aponta como mais comuns o “medo, tristeza constante, isolamento, mudança brusca de comportamento, ansiedade ou submissão excessiva diante de um familiar ou cuidador específico”.
Quanto à violência patrimonial, Terçarolli menciona “empréstimos sem autorização, uso indevido de aposentadorias e pensões, retenção de cartões bancários e pressão para assinatura de documentos”.
Já a negligência, segundo o advogado, se revela “em falta de higiene, desnutrição, ausência de medicamentos, abandono de tratamentos ou permanência em ambientes inadequados”.
“O Estatuto da Pessoa Idosa assegura direito à vida, saúde, alimentação, dignidade, respeito, liberdade, convivência familiar e comunitária, previdência, assistência social, habitação, transporte, cultura, lazer e prioridade no atendimento. Envelhecer com dignidade é direito fundamental”, reforça Terçarolli.
TIPOS DE VIOLÊNCIA CONTRA A PESSOA IDOSA NO BRASIL
✓ Violência Física: uso da força que cause dor, lesão ou sofrimento.
✓ Violência Psicológica ou Moral: humilhações, ameaças, isolamento social.
✓ Violência Financeira ou Patrimonial: apropriação indevida de aposentadoria, bens ou cartões bancários.
✓ Negligência: omissão de cuidados básicos de saúde, alimentação e higiene.
✓ Abandono: desamparo por quem tem o dever legal de cuidado.
✓ Violência Institucional: maus-tratos em serviços públicos ou privados.
✓ Discriminação/Etarismo: restrição de direitos em razão da idade.
CANAIS DE DENÚNCIA
O principal canal nacional é o Disque 100, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana e feriados, e encaminha as denúncias aos órgãos competentes. Denúncias também podem ser feitas à:
✓ Polícia Militar (190), em situações de emergência;
✓ Delegacias de Polícia;
✓ Ministério Público;
✓ Defensoria Pública;
✓ Conselhos Municipais da Pessoa Idosa;
✓ Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas);
✓ Centros de Referência de Assistência Social (Cras);
✓ Serviços de saúde.Segundo o advogado criminalista André Fini Terçarolli, qualquer cidadão pode denunciar, mesmo de forma anônima, e não é necessário ter prova completa: “Havendo suspeita fundada, o correto é comunicar para que os órgãos competentes façam a apuração”




