Desafios de acessibilidade, de integração comunicativa e de oportunidades profissionais ainda são enfrentados por quem tem esta condição

As barreiras impostas pela falta de inclusão e acessibilidade no mercado de trabalho não foram suficientes para fazer Luiz Augusto, 32, desistir de conquistar uma profissão e mostrar que a surdez não impede o desenvolvimento de suas habilidades nem seu potencial profissional.
Hoje, atuando como assistente de contratos, ele comenta que, apesar dos avanços, o mercado de trabalho ainda precisa ampliar a oferta de recursos que garantam a plena participação de pessoas surdas. Ao longo de sua trajetória, por exemplo, Luiz já enfrentou dificuldades em reuniões e treinamentos pela falta de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ou de outros recursos de comunicação acessível.
NO ANÚNCIO DA VAGA
Fundador da empresa Transmite Libras, Leonardo Rabelo tem 16 anos de experiência como intérprete de Libras em ambientes corporativos. Em sua avaliação, uma das mudanças mais urgentes para que exista uma verdadeira inclusão da comunidade surda nesses ambientes começa ainda no anúncio da vaga. Isso porque as oportunidades são divulgadas em língua portuguesa, o que já cria uma barreira para que a pessoa surda possa se candidatar.
“São poucas as empresas que lembram a necessidade de um intérprete de Libras para fazer essa ponte na comunicação. Depois que o candidato passa pelo exame médico, chega o primeiro dia de trabalho e o treinamento, mas pouquíssimas empresas se recordam de disponibilizar um intérprete. Assim, todas as informações básicas sobre a empresa, o treinamento inicial, o primeiro contato, muitas vezes não são transmitidas na língua do trabalhador surdo. Infelizmente, ainda há muito para melhorar”, lamentou Leonardo.
Além disso, os ambientes nos quais os profissionais poderiam melhorar suas habilidades profissionais também precisam lidar com obstáculos. Leonardo contou ao O SÃO PAULO que, recentemente, foi procurado por uma pessoa surda para ajudá-la na interpretação de um grande evento profissional. Ele a orientou a procurar os organizadores e solicitar a presença de um intérprete. Horas depois, a organizadora do evento avisou que cancelaria a inscrição na atividade, pois não possuía recursos para viabilizar um intérprete de Libras.
Felizmente, porém, há exceções. Leonardo recordou a história de uma empresa especializada na produção de insumos hospitalares que, desde 2021, oferece o serviço de intérprete de Libras em todas as suas reuniões, além de promover treinamentos para os funcionários sobre a Língua Brasileira de Sinais.

SETEMBRO AZUL
Criada para ampliar a reflexão sobre os direitos da comunidade surda no Brasil e reforçar a importância da Libras para a comunicação e a inclu-são social, a campanha Setembro Azul, realizada desde 2012, rememora fatos da história das pessoas surdas.
A escolha da cor azul está relacionada à 2ª Guerra Mundial. Na época, pessoas com deficiência, incluindo pessoas surdas, eram identificadas com uma faixa azul.
O mês também marca o Dia Nacional dos Surdos, celebrado em 26 de setembro. Instituída pela Lei nº 11.796/2008, a data faz referência à fundação do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), em 1857, e ao dia 30 de setembro em que é celebrado o Dia Internacional dos Surdos, alusivo ao Congresso de Milão, ocorrido em 1880.
A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA EM FAVOR DAS PESSOAS SURDAS
A legislação brasileira prevê a participação das pessoas surdas no mercado de trabalho, como consta, por exemplo, na Lei nº 10.436/2002, que reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão.
A inclusão no mercado de trabalho também é respaldada pela Lei nº 8.213/1991, que determina que empresas com 100 ou mais funcionários reservem de 2% a 5% de seus cargos para pessoas com deficiência ou reabilitadas, grupo que inclui as pessoas surdas.
Também a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) assegura à pessoa com deficiência o direito ao trabalho em condições de igualdade de oportunidades, acessibilidade e inclusão, além de proibir práticas discriminatórias.
PERTENCIMENTO
Também para Lucas Delbello Santos, tradutor e intérprete de Libras, uma das principais dificuldades começa justamente por parte de quem deveria contratar esses profissionais. Ele assegura que grande parte das pessoas surdas consegue ingressar nas empresas por meio das vagas destinadas às pessoas com deficiência ou em organizações que já possuem outros funcionários surdos. Entretanto, depois da contratação surgem barreiras que dificultam a permanência e o desenvolvimento profissional de alguém com essa condição.
Outro ponto destacado pelo tradutor é a segregação no ambiente corporativo. Muitos trabalhadores surdos podem se sentir isolados, especialmente quando são os únicos surdos na empresa e não encontram condições adequadas de comunicação e interação com os demais colegas.
“Enquanto a empresa enxergar a contratação da pessoa com deficiência apenas como uma obrigação para cumprir a legislação e evitar penalidades, teremos uma inclusão incompleta. A pessoa com deficiência não pode ser contratada para ocupar uma vaga. Ela precisa ser contratada para pertencer à empresa”, apontou Lucas.
TIPOS DE DEFICIÊNCIA AUDITIVA
Surdez: Perda auditiva profunda, caracterizada pela ausência ou quase ausência de percepção sonora.
Deficiência auditiva: Perda parcial da audição, que pode variar de leve a moderada.
Condutiva: Quando há alterações na condução do som pelo ouvido externo ou médio.
Neurossensorial: Resultado de danos na cóclea ou nos nervos auditivos. Geralmente é permanente e pode estar relacionada a fatores genéticos, envelhecimento, exposição a ruídos intensos ou uso de substâncias ototóxicas.
Mista: Combina características das perdas condutiva e neurossensorial, afetando tanto a condução quanto a percepção dos sons.
Central: Está relacionada a alterações no processamento dos sons pelo cérebro. Pode dificultar a compreensão da fala e a percepção sonora, especialmente em ambientes com muito ruído.
Fonte: Hospital Albert Einstein



