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A civilização do amor na era digital: Magnifica humanitas, a mensagem da Igreja em um mundo desorientado

No século XXI, a humanidade atravessa uma verdadeira ‘policrise’: a aceleração tecnológica, as desigualdades crescentes, as ameaças à dignidade humana e as transformações impostas pela inteligência artificial desafiam a todos, sem exceção. Neste cenário inquietante, a Igreja é reconhecida cada vez mais como uma referência ética, sinal de amor e esperança. Magnifica humanitas, a encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial (IA), apresenta um itinerário cristão que não dá respostas, mas orienta fiéis e pessoas de boa vontade para adotarem uma postura justa e construtiva diante dos desafios e das maravilhas de nosso tempo – sem medos fóbicos e sem fascínios ilusórios.

A civilização do amor na era digital: Magnifica humanitas, a mensagem da Igreja em um mundo desorientado - Jornal O São Paulo
Arte: Sergio Ricciuto Conte

A magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade em que Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar no qual a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada […] Ali onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que ‘‘o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente’’ (Gaudium et spes, GS 22). Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até a plenitude (Magnifica humanitas, MH 1).

Está cada vez mais evidente quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão transformando o nosso mundo. A técnica não deve ser considerada, em si mesma, como antagônica em relação à pessoa  [… Hoje, no entanto] cabe-nos enfrentar, com lucidez e responsabilidade, os desafios do nosso tempo. É necessário adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e de conter os efeitos nocivos do poder tecnológico. Mas a questão não se esgota na regulamentação. Como alertou o Papa Francisco, devemos perguntar-nos, com realismo, quem detém hoje este poder e para que fins o orienta: ‘‘Não podemos ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos […] dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder econômico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do gênero humano e do mundo inteiro’’ (Laudato si’, LS 104). Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos governos. O poder tecnológico assume uma identidade inédita, predominantemente ‘‘privada’’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum (MH 4).

Para responder a estas questões e discernir como viver com responsabilidade a era da inteligência artificial, gostaria de evocar duas imagens bíblicas: a da edificação da torre de Babel (cf. Gn 11,1-9) e a da reconstrução das muralhas de Jerusalém (cf. Ne 2-6). No livro do Gênesis […], Babel revela o limite de qualquer construção, ainda que grandiosa, surgida da absolutização do humano e da sua pretensão de autossuficiência, do sacrifício da dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus. O livro de Neemias, por sua vez, começa em um momento de grande vulnerabilidade na história do antigo Israel. Após o exílio babilônico, uma parte do povo regressa a Jerusalém, mas a cidade continua devastada, com as muralhas ainda em ruínas […] Neemias não impõe soluções vindas do alto: convoca as famílias, confia a cada uma delas uma parte da muralha para reconstruir, ouve os receios, coordena os esforços, enfrenta as oposições. O relato mostra como a cidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas por meio da responsabilidade partilhada por todo o povo. É uma obra que tem Deus no centro e que reconstrói as relações antes mesmo das pedras (MH 7-8).

À luz destas duas imagens, o Espírito Santo interpela-nos hoje sobre a nossa relação com a técnica e com a revolução digital em curso […] A primeira escolha não é entre um ‘‘sim’’ ou um ‘‘não’’ à tecnologia, […] mas entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna (MH 9).

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