A liberdade política

O regime democrático não impõe orientações ideológicas. Todos os cidadãos têm a liberdade de escolher periodicamente, nas urnas, seus representantes no Executivo e no Legislativo. Essa liberdade não é recortada pelo fato de alguém ter convicções firmes sobre a dignidade humana, a família e a sociedade. Os católicos têm a mesma liberdade política que todos os demais cidadãos. 

Entre outros aspectos, essa liberdade política implica grave responsabilidade na hora de votar. O voto não é mera obrigação formal. Todos os cidadãos são chamados a zelar pelo bem comum. A vida humana é sempre relacional, é sempre social, é sempre estar e conviver com os outros. Essa dimensão de fraternidade e comunhão é especialmente reforçada pela fé em Deus. Temos um Pai comum, somos todos irmãos. Não cabe a um cristão ser indiferente em relação aos rumos da sociedade: aos rumos da família, do bairro, da cidade, do Estado, do país, do mundo. O que afeta a um, afeta a todos. 

O católico tem plena liberdade de votar em quem quiser: em quem a sua consciência considera que é a melhor opção para os diferentes cargos políticos disputados numa eleição. Não há voto de cabresto. Não há voto por coação moral. O que há é a exigência ética de votar bem, de votar com responsabilidade, de votar sabendo em quem se está votando. Acreditar na vida eterna – saber que a vida aqui na terra é passageira – não diminui a responsabilidade com o presente e o futuro da sociedade. Ao contrário, a fé faz-nos ver a enorme relevância da vida na terra. O modo como vivemos aqui define nosso destino eterno. 

Deus não nos criou para o egoísmo. Criou-nos para o amor e convida-nos continuamente a assumirmos a responsabilidade de cuidar dos demais. A vocação cristã é vocação de serviço. “Eu não vim para ser servido, mas para servir e para entregar a minha vida pela salvação de todos”, disse Jesus Cristo (Mc 10,45). Os deveres cívicos, como o voto, são ocasiões muito especiais de serviço. Servimos votando com liberdade e com responsabilidade. 

Para isso, não basta o desejo de votar bem. O exercício responsável dos direitos políticos não se alcança com mera aspiração positiva, tampouco com o conhecimento da doutrina católica. Certamente, ter a consciência bem formada é requisito necessário – conhecer, por exemplo, a Doutrina Social da Igreja –, mas não é suficiente. 

É preciso conhecer as diversas funções públicas. O voto é sempre para um cargo específico, que tem exigências e atribuições próprias. Há, por óbvio, requisitos comuns para todos os cargos; por exemplo, competência e honestidade. Mas cada função pública requer competências específicas. Um governador tem atribuições muito diferentes das de um presidente da República. Um deputado estadual tem competências muito diferentes das de um deputado federal ou de um senador. Ter esse mapa de atribuições é fundamental para uma escolha responsável, que sempre envolve a ponderação de diversos aspectos. Essa ponderação pessoal é o núcleo da liberdade (e da responsabilidade) política. 

Outro aspecto muito pessoal — diretamente relacionado com o exercício responsável dos direitos políticos — é a compreensão das prioridades concretas em uma sociedade e dos caminhos para sua realização. Não há uma fórmula católica, não há um único caminho político legítimo. Há critérios fundamentais, que orientam o olhar do cristão – como a dignidade da vida humana –, mas isso não exclui o dever de ponderar e escolher entre as diferentes opções. A liberdade política não é mero slogan. Cada um tem o dever de estudar, pensar, ponderar, dialogar e decidir livre e responsavelmente, sem nenhuma coação. Esse estudo deve incluir as questões sociais e políticas (de forma a que cada um elabore o seu diagnóstico sobre essas questões), bem como as propostas dos diferentes candidatos e partidos. 

Não nos curvemos à preguiça ou à indiferença. Eleições são uma ocasião especial de maturidade e de autonomia, de cuidado para com a coletividade, de serviço ao próximo e de amor a Deus. “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). 

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