Alcançando a felicidade

Uma das maiores dificuldades que se apresentam aos que se esforçam por anunciar aos homens de nosso tempo o Evangelho de Cristo é aquela associação instintiva, no imaginário popular, de toda religião ao “não pode”, às supostas proibições arbitrárias que cerceariam nossa liberdade e impediriam a tranquila fruição da vida…

O enfrentamento desta questão passa por compreender bem o que é, afinal, a liberdade, e qual sua relação com a felicidade. Para o mundo moderno, a liberdade seria a “licença de fazer seja o que for (…) contanto que agrade” (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 17). Como consequência, qualquer lei que condicione o agir é vista como algo negativo, a ser tolerado como um “mal menor”, preferível à anarquia. 

A visão cristã sobre o homem, no entanto, propõe como “liberdade verdadeira” não a mera possibilidade fática de eleger qualquer dado comportamento, senão o processo pelo qual o homem, “libertando-se da escravidão das paixões”, ordena seus desejos e se torna capaz de alcançar o bem (Ibidem). Nesse sentido, dizemos que Pelé e Ayrton Senna gozavam de uma liberdade única no futebol e no automobilismo: conseguiam manipular com maestria a bola e o carro. Mas o que lhes permitiu alcançar esta capacidade foi justamente o terem-se submetido a horas e horas de treinos incansáveis e de estudo das técnicas de jogo e do traçado das pistas. Para nós cristãos, portanto, a lei não é inimiga da liberdade – antes, a lei, como corporificada nos mandamentos, é “a primeira etapa necessária no caminho para a liberdade” já que “a primeira liberdade — escreve Santo Agostinho — consiste em estar isento de crimes” (São João Paulo II, Veritatis splendor, 13).

No ensinamento que transmitiu a seus discípulos, no entanto, Nosso Senhor não se limitou à Antiga Lei. Especialmente no Sermão da Montanha, o Decálogo de Moisés teve, por um lado, sua validade perene confirmada, mas foi também, por outro lado, elevado a um nível superior de perfeição. 

“Mas não havia já leis o bastante?” – alguém poderia perguntar. A melhor resposta, aqui, é prestar atenção à primeira palavra que o novo legislador diz ao abrir a boca: “Bem-aventurados”, “felizes” (cf. Mt 5,1-3). O ensinamento da Igreja acerca da boa vida humana se baseia, de fato, na noção de que “interrogar-se sobre o bem, com efeito, significa dirigir-se em última análise a Deus, plenitude da bondade (…) Aquele que é a fonte da felicidade do homem” (São João Paulo II, Veritatis splendor, 9).

A lógica das diversas Bem-aventuranças, nesse sentido, é libertar o nosso coração de todos os falsos pretendentes ao lugar de Deus, para que, desapegados dos ídolos, possamos enfim saciar nossa sede infinita de bondade com o próprio Bem infinito. Contra o apego das riquezas, Cristo adverte: “Felizes os pobres em espírito”; contra a idolatria das sensações prazerosas (físicas, emocionais e psicológicas), Ele ensina: “Felizes os que choram”; contra o amor desequilibrado do poder, Ele proclama: “Felizes os mansos”; e enfim contra o desejo desordenado de fama e honra, Ele avisa: “Felizes os que sofrem perseguição” (cf. Mt 5,3-10).

Peçamos, então, a Nosso Senhor a graça desta verdadeira liberdade interior, que nos torna capazes de dirigir toda a nossa vontade ao único objetivo de amar a Deus, ainda que a custo de abraçar a cruz. Aí a nossa esperança; aí a nossa felicidade!

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