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As birras sob o ponto de vista da neurociência e da ciência da educação

O desenvolvimento rápido e preciso das pesquisas em neurociência trouxe uma compreensão importante sobre aspectos do comportamento infantil que antes eram compreendidos simplesmente como manipulação ou mau comportamento. Com esses estudos mais avançados, identificou-se estruturas cerebrais que atuam diretamente nesse tipo de comportamento infantil. Hoje sabemos com bastante precisão que crianças na primeira infância têm um neocórtex muito pouco operante. O neocórtex é a parte mais moderna e evoluída do córtex, e o córtex pré-frontal é a parte do neocórtex localizada na área anterior do cérebro (atrás da testa), responsável pelo planejamento, execução de ações, censura, regulação. Ou seja, essa região – importantíssima para que a criança consiga lidar com as frustrações, elaborar situações difíceis e controlar reações – ainda é praticamente inoperante no início da vida. 

Já a região mais primitiva, o sistema límbico, do qual fazem parte as amídalas cerebrais, já está operando em alta funcionalidade, uma vez que iniciou seu funcionamento aos 40 dias de vida gestacional. Essa estrutura é responsável pela sobrevivência e, portanto, necessária desde o início da vida. 

Do ponto de vista neurológico, portanto, a birra infantil acontece quando a parte mais primitiva do cérebro é acionada. A birra, segundo a neurociência, pode ser a manifestação de algumas emoções como o medo e a raiva. 

No site do Instituto NeuroSaber (https://institutoneurosaber.com.br), a psicóloga e diretora de educação e treinamento do Centre for Child Mental Health, Margot Sunderland, afirma que “sem o auxílio da parte superior do cérebro para racionalizar e se acalmar, o resultado é que a criança fica superexcitada, com altos níveis de substâncias químicas associadas ao estresse percorrendo seu corpo e cérebro”. 

Alguns dos fatores que desencadeiam as crises de birra estão relacionados à fome, sono, cansaço e falta de vontade para realizar alguma tarefa. 

Compreender o funcionamento do cérebro infantil é um privilégio e acrescenta um olhar mais preciso sobre esse comportamento tão presente especialmente nos primeiros anos de vida da criança. 

Muito me preocupam, porém, os conselhos e orientações advindos de tal constatação científica. O que muito se divulga, com base nesse conhecimento, é que como as birras são naturais, elas serão superadas de forma igualmente natural. Basta que os pais distraiam suas crianças, acolham e validem seus sentimentos e, assim que o córtex pré-frontal estiver mais funcionante, tudo isso entrará nos eixos. 

Infelizmente, não é assim que acontece e tenho certeza de que neurocientistas mais experientes e envolvidos com a prática do desenvolvimento infantil concordarão comigo. Para que o cérebro se desenvolva de modo adequado, o estímulo do ambiente é fundamental e, exatamente por isso, o manejo que o adulto tiver no momento da birra natural ajudará o pequeno a ter um melhor desenvolvimento do neocórtex e, com isso, uma adequação de seu comportamento com mais facilidade e em um tempo mais adequado. Uma vez que esses pequenos ainda não têm essa área cerebral bem desenvolvida e, portanto, não conseguem regular e dominar suas reações, torna-se fundamental que o adulto faça esse papel de modo ativo, que ordene as emoções da criança, contenha-a fisicamente, se necessário, e que permita que ela enfrente pequenos desconfortos e frustrações sem serem sempre distraídas para algo mais aprazível. 

Muitas orientações que vêm sendo oferecidas aos pais, a partir do entendimento do processo neurológico envolvido nas birras, têm gerado crianças cada vez maiores com pouquíssimo controle inibitório e altíssima dificuldade de lidar com frustrações, e isso precisa ser mudado com urgência. 

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