A cada dia, parece aumentar o desafio de diminuir os impactos negativos que as telas e tecnologias em geral exercem sobre o desenvolvimento das crianças e adolescentes.
É verdade que atualmente a tecnologia é parte integrante da nossa vida, do trabalho, da comunicação, e muitos pais pensam que, uma vez que estamos nessa era digital, quanto antes as crianças se familiarizarem com o uso desses recursos, melhor será; afinal, mais cedo ou mais tarde precisarão manejá-los bem. Por outro lado, a neurologia e a própria observação das crianças expostas ao uso exagerado da tecnologia desde cedo apontam para os imensos prejuízos causados por ela: atraso no processo de aquisição de linguagem, quadros de TDAH, irritabilidade exagerada, dependência de telas, dificuldade de lidar com o tédio, ansiedade aumentada etc.
Aqui nasce um dilema: como conduzir esse uso para que não haja prejuízos nem no desenvolvimento da criança nem na habilidade em relação à tecnologia?
Ao longo da história, muitos e muitos instrumentos foram construídos pelos homens e impactaram suas vidas, ora de modo positivo, ora de modo negativo. Portanto, a tecnologia não é o primeiro instrumento a gerar esse dilema. Não podemos nos esquecer, no entanto, de que se trata de um instrumento, ou seja, de algo a ser usado pela pessoa e, portanto, é preciso, em primeiro lugar, formar-se como pessoa, e, depois, aprender as habilidades necessárias para o bom uso.
Pensemos em uma faca: embora seja um instrumento importante para a vida humana e tenha facilitado muito os procedimentos de alimentação, por exemplo, é de conhecimento público que não se oferece a uma criança pequena uma faca para que ela aprenda a usá-la, pois a criança poderá se machucar seriamente, uma vez que não está preparada para o uso de tal instrumento. Antes de manusear uma faca, portanto, a criança precisa desenvolver certa habilidade motora, ter capacidade de compreender os riscos que esse instrumento pode oferecer, ter certo autodomínio, para, assim, os responsáveis concluírem que ela está preparada para iniciar seu manejo, sob supervisão e com alguns passos de prudência: primeiro uma faca quase sem corte e sem ponta, depois, progressivamente, facas mais afiadas.
Como aparentemente as telas e toda a tecnologia que as envolve não ferem o corpo de modo visível, muitos pais não veem mal algum no fato de seus filhos as utilizarem. No entanto, ferem de modo invisível e os impactos vão aparecendo posteriormente no desenvolvimento da criança. É preciso pensarmos que, como qualquer outro instrumento, exige um preparo e requer um tempo de “treinamento”. No caso das tecnologias, esse preparo precisa ser ainda mais profundo, pois já é de conhecimento público que geram cargas dopaminérgicas que podem viciar especialmente cérebros em formação.
Portanto, não podemos nos esquecer: primeiro se faz necessário formar a pessoa, ensiná-la a ser, a conviver, a suportar o tédio, as frustrações, a ganhar musculatura interior, ou seja, aprender a viver de modo analógico, como é próprio da pessoa – mantendo relações reais, explorando o mundo real, aprendendo com o seu manejo – para, depois, introduzi-la, sem preconceitos, mas com muita prudência, ao uso das tecnologias. Nenhum instrumento é em si bom ou mau, mas podemos dele fazer bom ou mau uso. Uma pessoa assim formada fará muito melhor uso das tecnologias. Com sua inteligência e vontade bem formadas, saberá conduzir a utilização das mais modernas tecnologias de modo a tirar delas o melhor proveito. No entanto, se isso não acontecer, correrá grande risco de emburrecer-se com o uso – afinal, algumas pesquisas já mostram que aqueles que têm maior capacidade de leitura, interpretação e análise estão utilizando as inteligências artificiais (IAs) com maior proveito do que os que não foram assim educados.




