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Negociar com criança: mais um dos enganos vividos pelos pais modernos

Estamos, certamente, vivendo uma das maiores crises de autoridade de todos os tempos. Cada um quer ser sua própria autoridade, como se a existência de uma hierarquia fosse algo muito nocivo e deletério para a sociedade. Pensar que existe alguém que tem alguma hierarquia sobre mim me faz menos livre e necessariamente menos feliz, assim acreditam as últimas gerações. 

Ninguém mais visualiza a hierarquia e a autoridade que ela supõe como um bem, como uma possibilidade de aprender com quem tem uma visão mais ampla e maior experiência no assunto; com quem tem maior conhecimento e sabedoria sobre algo. Todos se julgam capazes de caminhar com suas próprias pernas, sem submissão àqueles que podem iluminar o caminho. 

Isso está tão impregnado em nosso cotidiano e no imaginário das três últimas gerações que o que mais temo hoje são pais completamente tomados pela ideia de que educar os filhos pressupõe respeitar suas “opiniões, desejos e sentimentos” desde muito cedo. 

A linguagem encontra-se tão corrompida que já não conseguimos mais entender o significado da palavra “respeito” nas diferentes circunstâncias em que se apresenta. Exatamente por isso, quero propor uma reflexão necessária: respeitar uma criança é respeitar sua “opinião” ou entender que ela, em sua imaturidade e total dependência, não é capaz de “opinar”, e que o que ela emite são desejos imaturos que a movem ao prazer imediato? 

Estamos tão perdidos em palavras bonitas, no entanto, mal-usadas, que não temos mais a capacidade de identificar com clareza o que é respeito ou não. Estou certa de que respeitar uma criança na primeira infância é poupá-la de preocupações e decisões para as quais não está preparada. Portanto, negociar com elas me parece uma verdadeira crueldade. Além de ser um desrespeito à condição da criança, é, também, um modo de os pais, sem perceberem, abdicarem de sua responsabilidade de conduzir e orientar aqueles que ainda não estão aptos a se governarem. 

Como negociar com alguém que não tem a menor capacidade de identificar o bem e o mal nas diversas situações cotidianas? Como um adulto pode negociar prazos, afazeres e alimentação com crianças que não têm a mínima noção de nada disso? 

Muitos pais me dizem com convicção: “Mas se eu não negociar com ela, não aprenderá a negociar quando for preciso. Será alguém que se submeterá à vontade dos outros”. 

Não se enganem: isso é uma ilusão. O que acontece, na verdade, é que essa negociação toda com a criança a deixa insegura, ansiosa e sobrecarregada. Também fere a sua postura de autoridade – aquela que, por experiência, sabe o que é o melhor e está capacitada a conduzir a criança nessa direção, sendo a vontade auxiliar dela que ainda não tem sua vontade e nem intelecto em ato. Quando o adulto cumpre bem sua função, estará formando os necessários critérios de que a criança tanto precisa aprender para poder negociar com fundamento quando chegar a hora. Adulto negociar com criança supõe renunciar a critérios sólidos, por desejos desordenados. 

Por enquanto, na infância, as crianças treinam a negociação entre elas: negociar brinquedos, brincadeiras, papéis nas diferentes brincadeiras infantis, jogos e toda a gama de assuntos para as quais estão em pé de igualdade para negociar. Afinal, negociar pressupõe capacidades similares de analisar, argumentar, apresentar critérios convincentes e, se isso acontece entre um adulto e uma criança, cuidado, pois é sinal de que o adulto está precisando, com urgência, rever suas posições e critérios para escolher; afinal, está abrindo mão deles somente pelo querer imaturo de uma criança que não tem capacidade de sustentar uma argumentação coerente e bem fundamentada. 

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