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Exposição amplia o olhar sobre o bairro da Liberdade

Exposição amplia o olhar sobre o bairro da Liberdade - Jornal O São Paulo
Exposição ‘Liberdade: Bairro Plural’ está em cartaz no Museu do Ipiranga até janeiro, gratuita, de terça-feira a domingo
Hélio Nobre/Museu Paulista da USP

Quem caminha pelas ruas da Li­berdade reconhece facilmente alguns de seus símbolos tradicionais: as lan­ternas vermelhas que ornamentam as vias, o movimento intenso da tra­dicional feira de fim de semana, os restaurantes orientais dividindo es­paço com lojas de produtos típicos e o constante vai e vem de turistas que dão vida a um dos bairros mais visita­dos da capital paulista.

À primeira vista, essa parece ser a única história da Liberdade. No entanto, por trás da imagem consolidada como reduto da cultura japonesa, o bairro guarda memórias, personagens e tradições que atravessam séculos e revelam a contribuição de diferentes povos para a construção de sua identidade. É o percurso por essa pluralidade que a exposição “Liberdade: Bairro Plural”, em cartaz no Museu do Ipiranga, convida o público a conhecer.

REABRIR AS PORTAS DA CIDADE

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De acordo com Paulo César Gar­cez, doutor em História Social, dire­tor do Museu Paulista da Universi­dade de São Paulo (USP) e um dos curadores da exposição, trata-se da primeira mostra dedicada à história da capital paulista desde a reabertura do Museu do Ipiranga, em setembro de 2022.

Para o historiador, a escolha da Liberdade para inaugurar esse novo ciclo de exposições não foi por acaso. Mais do que apresentar a trajetória de um bairro, a mostra convida o visitan­te a revisitar a própria formação de São Paulo e do Brasil. Um dos exem­plos mencionados por ele é a atual Avenida da Liberdade, cuja história está ligada a um caminho indígena, anterior até mesmo à chegada dos por­tugueses ao País. Foi sobre esses cami­nhos que, a partir do século XVIII, surgiram as primeiras ruas da cidade. O trecho que hoje corresponde à ave­nida era uma via estreita, calçada com paralelepípedos e cercada por áreas verdes, praças e lagos.

Garcez explicou ainda que a di­versidade cultural que caracteriza a Liberdade também está ligada ao pas­sado da região: “No século XVIII, a Liberdade passou a concentrar vários equipamentos da cidade ligados à dor, ao sofrimento, à tortura e à morte. Isso fez com que, de alguma maneira, essa região tivesse imóveis mais bara­tos, porque as elites nunca quiseram se concentrar ali. Foi o lugar da forca, destinada à pena capital e às execu­ções na cidade; do pelourinho, no qual acontecia a tortura pública de pessoas negras; do primeiro hospital da Santa Casa; e do primeiro cemitério da cida­de”, recordou.

DIFERENTES MANIFESTAÇÕES DA FÉ

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Paulo Garcez destacou ainda que a presença da Igreja Católica é um dos elementos que ajudam a compreender a história da Liberdade. Na exposição, essa trajetória é representada por qua­tro importantes referências: a Capela dos Aflitos, a Igreja Santa Cruz dos Enforcados, a Paróquia Nossa Senhora dos Remédios e a Paróquia Nossa Se­nhora da Paz.

A Igreja Santa Cruz dos Enforca­dos, por exemplo, está diretamente ligada à memória de pessoas executa­das nas proximidades da antiga forca, instalada onde hoje é a Praça da Liber­dade. O local tornou-se um espaço de manifestação da piedade popular após a execução do militar Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, em 1821. Velas passaram a ser acesas no local e uma cruz foi erguida, dando origem, anos depois, à Capela de Santa Cruz dos Enforcados, substituída, em 1926, pela atual Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados.

Além de ser um dos principais es­paços de propagação da fé no bairro, essa igreja mantém o velário aberto à visitação e cerca de sete missas são ce­lebradas semanalmente.

A herança da imigração italiana é representada pela Paróquia Nossa Se­nhora da Paz, erigida em 24 de abril de 1940. Tendo atualmente como Pá­roco o Padre Antenor Dalla Vecchia, as missas são celebradas de segunda­-feira a sábado, às 19h, e aos domin­gos, às 9h30 e às 19h. A Paróquia tam­bém abriga a Missão Paz, instituição filantrópica scalabriniana dedicada ao acolhimento e apoio a imigrantes e re­fugiados de mais de 70 nacionalidades.

A Paróquia Nossa Senhora dos Re­médios foi erguida ainda no período colonial onde hoje se encontra a Praça João Mendes, próximo aos antigos lar­gos do Pelourinho e da Forca. Com a expansão do local, o templo foi demo­lido em 1942, e a Paróquia transferida para o bairro do Cambuci, onde man­tém uma intensa vida pastoral, com cerca de oito missas semanais, além de diversas atividades voltadas à evange­lização e ao serviço da comunidade.

CONHECENDO AS LIBERDADES

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Mônica Raisa Schpun, que também assina a curadoria da exposição, expli­cou que a concepção da mostra come­çou com caminhadas pelo bairro, em um trabalho de observação, descober­tas e diálogo com instituições e comu­nidades locais.

O trabalho resultou na colaboração de 15 organizações parceiras, que ce­deram seu acervo e contribuíram para a composição da mostra.

Entre os destaques, Mônica apon­ta uma maquete instalada no centro do espaço expositivo que retrata as transformações históricas do bairro da Liberdade. Com recursos de nar­ração e projeções gráficas, a instala­ção conduz o visitante por diferen­tes períodos da história da região, evidenciando as mudanças urbanas, sociais e culturais que moldaram o bairro, desde as primeiras ruas até a chegada de grupos e instituições que marcaram sua identidade, como o Exército da Salvação.

DESCOBERTAS

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Para Nicole Marziale, doutora em Artes e educadora do Museu Paulista, a exposição tem permitido que o pú­blico aprofunde as diferentes histórias que contribuíram para a formação da Liberdade ao longo dos séculos.

Foi exatamente essa a experiência do empresário Aroldo Ferreira Lo­pes, 60, que morou no bairro entre as décadas de 1980 e 1990 e continua frequentando a região. Em entre­vista ao O SÃO PAULO, ele contou que três aspectos chamaram espe­cialmente sua atenção: a diversidade de povos que ajudaram a construir a identidade da Liberdade, a história do primeiro cemitério da cidade e o processo que levou o bairro a se tor­nar uma referência da cultura japo­nesa em São Paulo.

Apreciador da culinária local, Arol­do afirmou que, após visitar a mostra, pretende percorrer as ruas da Liberda­de com um novo olhar, mais atento à riqueza histórica e à diversidade cultu­ral presentes em cada espaço.

A experiência também marcou o professor Leandro Barros, 41, mora­dor da Liberdade há dois anos. Para ele, a exposição amplia a compreensão sobre o território e ajuda a descons­truir a ideia de que a história do bairro se resume à imigração japonesa.

“A exposição evidencia toda a his­tória do bairro e mostra para a popu­lação, de um modo geral, como ele realmente se formou. Isso impacta bastante, porque faz a gente entender o que realmente aconteceu naquele lu­gar e o que, de fato, representa a Liber­dade. No fim, você acaba conhecendo melhor o próprio território onde vive”, salientou Leandro.

A exposição “Liberdade: Bairro Plural” está em cartaz até 31 de janeiro de 2027 na Sala de Exposições Tempo­rárias do Museu do Ipiranga. A visita­ção acontece com entrada gratuita, de terça-feira a domingo, das 10h às 17h.

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