
Hélio Nobre/Museu Paulista da USP
Quem caminha pelas ruas da Liberdade reconhece facilmente alguns de seus símbolos tradicionais: as lanternas vermelhas que ornamentam as vias, o movimento intenso da tradicional feira de fim de semana, os restaurantes orientais dividindo espaço com lojas de produtos típicos e o constante vai e vem de turistas que dão vida a um dos bairros mais visitados da capital paulista.
À primeira vista, essa parece ser a única história da Liberdade. No entanto, por trás da imagem consolidada como reduto da cultura japonesa, o bairro guarda memórias, personagens e tradições que atravessam séculos e revelam a contribuição de diferentes povos para a construção de sua identidade. É o percurso por essa pluralidade que a exposição “Liberdade: Bairro Plural”, em cartaz no Museu do Ipiranga, convida o público a conhecer.
REABRIR AS PORTAS DA CIDADE

De acordo com Paulo César Garcez, doutor em História Social, diretor do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP) e um dos curadores da exposição, trata-se da primeira mostra dedicada à história da capital paulista desde a reabertura do Museu do Ipiranga, em setembro de 2022.
Para o historiador, a escolha da Liberdade para inaugurar esse novo ciclo de exposições não foi por acaso. Mais do que apresentar a trajetória de um bairro, a mostra convida o visitante a revisitar a própria formação de São Paulo e do Brasil. Um dos exemplos mencionados por ele é a atual Avenida da Liberdade, cuja história está ligada a um caminho indígena, anterior até mesmo à chegada dos portugueses ao País. Foi sobre esses caminhos que, a partir do século XVIII, surgiram as primeiras ruas da cidade. O trecho que hoje corresponde à avenida era uma via estreita, calçada com paralelepípedos e cercada por áreas verdes, praças e lagos.
Garcez explicou ainda que a diversidade cultural que caracteriza a Liberdade também está ligada ao passado da região: “No século XVIII, a Liberdade passou a concentrar vários equipamentos da cidade ligados à dor, ao sofrimento, à tortura e à morte. Isso fez com que, de alguma maneira, essa região tivesse imóveis mais baratos, porque as elites nunca quiseram se concentrar ali. Foi o lugar da forca, destinada à pena capital e às execuções na cidade; do pelourinho, no qual acontecia a tortura pública de pessoas negras; do primeiro hospital da Santa Casa; e do primeiro cemitério da cidade”, recordou.
DIFERENTES MANIFESTAÇÕES DA FÉ

Paulo Garcez destacou ainda que a presença da Igreja Católica é um dos elementos que ajudam a compreender a história da Liberdade. Na exposição, essa trajetória é representada por quatro importantes referências: a Capela dos Aflitos, a Igreja Santa Cruz dos Enforcados, a Paróquia Nossa Senhora dos Remédios e a Paróquia Nossa Senhora da Paz.
A Igreja Santa Cruz dos Enforcados, por exemplo, está diretamente ligada à memória de pessoas executadas nas proximidades da antiga forca, instalada onde hoje é a Praça da Liberdade. O local tornou-se um espaço de manifestação da piedade popular após a execução do militar Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, em 1821. Velas passaram a ser acesas no local e uma cruz foi erguida, dando origem, anos depois, à Capela de Santa Cruz dos Enforcados, substituída, em 1926, pela atual Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados.
Além de ser um dos principais espaços de propagação da fé no bairro, essa igreja mantém o velário aberto à visitação e cerca de sete missas são celebradas semanalmente.
A herança da imigração italiana é representada pela Paróquia Nossa Senhora da Paz, erigida em 24 de abril de 1940. Tendo atualmente como Pároco o Padre Antenor Dalla Vecchia, as missas são celebradas de segunda-feira a sábado, às 19h, e aos domingos, às 9h30 e às 19h. A Paróquia também abriga a Missão Paz, instituição filantrópica scalabriniana dedicada ao acolhimento e apoio a imigrantes e refugiados de mais de 70 nacionalidades.
A Paróquia Nossa Senhora dos Remédios foi erguida ainda no período colonial onde hoje se encontra a Praça João Mendes, próximo aos antigos largos do Pelourinho e da Forca. Com a expansão do local, o templo foi demolido em 1942, e a Paróquia transferida para o bairro do Cambuci, onde mantém uma intensa vida pastoral, com cerca de oito missas semanais, além de diversas atividades voltadas à evangelização e ao serviço da comunidade.
CONHECENDO AS LIBERDADES

Mônica Raisa Schpun, que também assina a curadoria da exposição, explicou que a concepção da mostra começou com caminhadas pelo bairro, em um trabalho de observação, descobertas e diálogo com instituições e comunidades locais.
O trabalho resultou na colaboração de 15 organizações parceiras, que cederam seu acervo e contribuíram para a composição da mostra.
Entre os destaques, Mônica aponta uma maquete instalada no centro do espaço expositivo que retrata as transformações históricas do bairro da Liberdade. Com recursos de narração e projeções gráficas, a instalação conduz o visitante por diferentes períodos da história da região, evidenciando as mudanças urbanas, sociais e culturais que moldaram o bairro, desde as primeiras ruas até a chegada de grupos e instituições que marcaram sua identidade, como o Exército da Salvação.
DESCOBERTAS

Para Nicole Marziale, doutora em Artes e educadora do Museu Paulista, a exposição tem permitido que o público aprofunde as diferentes histórias que contribuíram para a formação da Liberdade ao longo dos séculos.
Foi exatamente essa a experiência do empresário Aroldo Ferreira Lopes, 60, que morou no bairro entre as décadas de 1980 e 1990 e continua frequentando a região. Em entrevista ao O SÃO PAULO, ele contou que três aspectos chamaram especialmente sua atenção: a diversidade de povos que ajudaram a construir a identidade da Liberdade, a história do primeiro cemitério da cidade e o processo que levou o bairro a se tornar uma referência da cultura japonesa em São Paulo.
Apreciador da culinária local, Aroldo afirmou que, após visitar a mostra, pretende percorrer as ruas da Liberdade com um novo olhar, mais atento à riqueza histórica e à diversidade cultural presentes em cada espaço.
A experiência também marcou o professor Leandro Barros, 41, morador da Liberdade há dois anos. Para ele, a exposição amplia a compreensão sobre o território e ajuda a desconstruir a ideia de que a história do bairro se resume à imigração japonesa.
“A exposição evidencia toda a história do bairro e mostra para a população, de um modo geral, como ele realmente se formou. Isso impacta bastante, porque faz a gente entender o que realmente aconteceu naquele lugar e o que, de fato, representa a Liberdade. No fim, você acaba conhecendo melhor o próprio território onde vive”, salientou Leandro.
A exposição “Liberdade: Bairro Plural” está em cartaz até 31 de janeiro de 2027 na Sala de Exposições Temporárias do Museu do Ipiranga. A visitação acontece com entrada gratuita, de terça-feira a domingo, das 10h às 17h.




