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Ninguém se converte sozinho

A conversão de São Paulo costuma ser evocada como um acontecimento fulgurante: uma luz, uma queda, uma voz que interrompe o curso de uma vida. A cena impressiona e, talvez por isso, favoreça uma leitura autossuficiente, como se a fé cristã nascesse de um choque interior, súbito e definitivo. São Lucas, porém, não escreve para impressionar. Escreve para formar. E, ao fazê-lo, desloca com precisão o centro da narrativa. 

O ponto decisivo não está apenas na luz, mas na palavra que a acompanha: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” A pergunta é direta, pessoal, repetida — e teologicamente desconcertante. Jesus Cristo não diz: por que persegues os meus; diz simplesmente: “Me”. Antes mesmo de receberem um nome, os discípulos já estão ontologicamente unidos a Ele. Desde o início, perseguir os fiéis é perseguir o próprio Cristo. 

Convém deter-se em quem é Saulo nesse momento. Lucas não o apresenta como um homem confuso ou malformado. Fariseu disciplinado, intelectualmente sólido, vivia com coerência aquilo que professava. Essa formação não é desqualificada; é respeitada. É aí que surge o limite. Quando a inteligência se basta, já não reconhece o que a ultrapassa. A graça não destrói essa formação; desloca-a. 

O encontro no caminho é real, mas não conclusivo. A luz derruba, mas não esclarece. A revelação fere, mas não forma. Lucas introduz então um tempo desconcertante: cegueira, jejum, silêncio — e oração. Três dias. Nenhuma análise psicológica. Apenas suspensão. A conversão não produz imediatamente clareza; produz dependência. Saulo, que conduzia, precisa agora ser conduzido. 

É nesse ponto que a observação de André Frossard, escritor francês, convertido ao Cristianismo de modo abrupto e definitivo, ilumina o relato com precisão singular. A conversão cristã — escreve ele — não é a história de um homem que encontra Deus, mas de um homem que descobre que Deus já o encontrou. Não se trata de iniciativa humana, mas de captura. O convertido apenas percebe que chegou atrasado a um encontro já marcado. 

Talvez seja isso que mais resista à mentalidade contemporânea: a conversão cristã não confirma a autonomia do sujeito; fere-a, obrigando-o a receber de outro o que não pode dar a si mesmo. 

Essa conversão, contudo, não se basta. Ao contrário. A experiência pessoal exige agora interpretação, forma e pertença. É então que Lucas introduz Ananias — não como detalhe narrativo, mas como eixo teológico. Pouco sabemos sobre ele. Nada se diz de sua origem ou posição. Sabemos apenas o essencial: era um discípulo em Damasco. Cristo o chama pelo nome, sinal inequívoco de familiaridade, de uma vida enraizada na escuta. 

Ananias não repete as palavras de Cristo; ele as interpreta. Ao dizer: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me”, transforma uma experiência privada em acontecimento eclesial. Ao chamá-lo “irmão”, sua palavra antecipa o que ainda não ocorreu. A cura vem depois. O Espírito vem depois. Antes de tudo, há mediação. 

Lucas insiste no ponto com sobriedade quase seca: as escamas caem não por causa da luz de Damasco, mas pela imposição das mãos. O Espírito não é comunicado pela voz ouvida no caminho, mas pelo batismo. A conversão só se completa quando passa por outro. Não há atalho. Não há Cristianismo solitário. 

Depois disso, Ananias desaparece. Não acompanha Paulo, não reivindica memória, não permanece visível. Sua missão era sustentar o início — e retirar-se. Mais tarde, será Barnabé, homem de prestígio e confiança entre os primeiros cristãos, quem assumirá a tarefa decisiva de apresentar Paulo à Igreja e garantir sua integração efetiva na comunidade. Lucas conserva esses nomes justamente por isso: para lembrar que Deus confia o decisivo à fidelidade discreta, àqueles cuja autoridade nasce menos da palavra do que da confiança que inspiram. 

No fim, Atos dos Apóstolos sugere com sobriedade algo que atravessa os séculos sem se desgastar: ninguém se converte sozinho. Talvez seja aí que o texto nos devolva a pergunta. Seríamos hoje capazes de ser um Ananias? E, se fôssemos, a quem Cristo nos enviaria — um familiar, um amigo, um colega de trabalho, ou alguém que, desde já, preferiríamos manter à distância? É nesse ponto, longe dos clarões, que a conversão deixa de ser episódio e se torna caminho. 

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