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No metrô, um rosto 

Oito segundos. É o que dura cada rosto. 

Nos vagões do metrô de São Paulo, telas digitais alternam anúncios de consumo com imagens de pessoas desaparecidas. Uma criança. Uma mulher de 43 anos, desaparecida há seis anos. Um jovem cujo paradeiro ninguém conhece. Um idoso que saiu de casa e não voltou. Depois, dentifrícios, financiamentos, promessas de conforto… 

Alguém decidiu inserir esses rostos no fluxo publicitário. A intenção é meritória, mas o efeito excede a intenção. Ao justapor consumo e desaparecimento, a tela expõe um limite que nenhuma tecnologia supera: há perdas que não se compensam, não se substituem, não se esquecem. 

Quase ninguém olha. No horário de pico, os passageiros se recolhem – fones de ouvido, olhos em telas pessoais. As razões são muitas, e não cabe julgá-las. O que importa é que os rostos continuam ali, e que alguém, em algum lugar, sustenta uma ausência que o tempo não dissolve: acumula. 

E, então, a pergunta: o que se faz com o que se viu? 

A resposta contemporânea é conhecida. Melhorar sistemas de busca, pressionar autoridades. Tudo necessário. Nada suficiente. Há, porém, uma fidelidade que o pragmatismo não alcança: a de recusar que aquele rosto se torne mais uma informação descartável. 

É aqui que o católico desconcerta o mundo secular. Ele reza. Não se trata de magia nem de evasão. A oração não é alternativa à ação. É uma forma de atenção que a ação, sozinha, não sustenta. Quem reza por um desconhecido cujo rosto viu durante oito segundos recusa-se a deixá-lo cair, também ele, no esquecimento. É um gesto gratuito, no sentido mais radical do termo. 

E é precisamente essa gratuidade que incomoda. Em uma civilização que mede cada gesto pelo seu rendimento, a oração aparece como desperdício. O que se ganha rezando por alguém que talvez já esteja morto? A pergunta revela mais sobre quem a formula do que sobre quem reza. Supõe que só merece atenção o que produz resultado. E é essa suposição que permite desviar o olhar sem remorso. 

O cristão opera em outra lógica. A dignidade de cada rosto não é convenção social nem abstração piedosa. Precede o cálculo. A parábola da ovelha perdida não é uma história para crianças. É a afirmação escandalosa de que a ordem do mundo pode ser interrompida pela ausência de um único ser. 

E essa dignidade não cessa nem com a morte. Como recordou Francesco Patton nas meditações da Via Crucis da última Sexta-feira Santa, até o corpo de um morto conserva a dignidade da pessoa; nem mesmo o de um criminoso pode ser ocultado ou privado de sepultura. Se isso vale para os mortos, quanto mais para aqueles cujos rostos passam diante de nós nas telas do metrô. 

É por isso que, em um vagão lotado, alguém reza em voz baixa uma Ave-Maria por um rosto que jamais viu. Dirige-se a uma Mãe que percorreu Jerusalém à procura do Filho e lhe pede: rogai por nós. Nesse rogai, há uma confiança radical: quem conheceu a busca não abandona os que ainda buscam. A oração deixa de ser abstração. Torna-se companhia na dor. 

Não é preciso aceitar a premissa teológica para reconhecer o que ela produz: a capacidade de sustentar a atenção diante do sofrimento que a pura razão tende a esgotar. A compaixão sem transcendência é real, mas frágil. A oração, porque se apoia em algo que não depende de quem a pronuncia, resiste onde a boa vontade cede. 

Não é sentimentalismo. Não é superstição. É a forma mais radical de dizer: este rosto importa. E, às vezes, diante de um rosto que passou por oito segundos, o que cabe não é explicar mais, nem sentir mais, mas rezar. Uma Ave-Maria, em voz baixa, por alguém cujo nome agora sabemos, mas cuja vida não conhecemos, e cuja falta alguém sofre. 

Oito segundos. Depois disso, já não será possível dizer que não se viu. 

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