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Quando a desordem se instaura

Vejo com bastante preocupação o crescimento exponencial da desordem no seio da família. 

É bem verdade que se olharmos rapidamente para a infância ao longo dos séculos, encontraremos poucos relatos sobre essa fase da vida na Antiguidade e uma visão de criança como miniatura de adultos na Idade Média. Sendo a taxa de mortalidade infantil altíssima naquele momento, as famílias pouco se apegavam às suas crianças já que havia chances elevadas de as perderem. Não havia grande conhecimento sobre as características próprias da infância e, desse modo, crianças eram, logo que possível, introduzidas no ritmo de vida adulto, prestando serviços e vivendo sob um regime familiar patriarcal exigente. Já aos 7 anos, a maioria tinha obrigações reais: trabalhar no campo, cuidar dos irmãos, aprender um ofício, enfim, o tempo de infância era reduzido e mal compreendido. 

Essa realidade foi se modificando ao longo da história, e a Igreja teve papel importante na mudança de visão sobre a infância, uma vez que no Evangelho, o próprio Cristo tratava a pequenez das crianças como modelo de pureza e pré-requisito para o céu. Consolidou-se a prática do batismo infantil, surgiram os colégios e a infância foi ganhando, gradativamente, uma outra forma de ser vista. 

Atualmente, sabemos com clareza a importância da infância na formação da pessoa e temos conhecimento de sobra sobre o desenvolvimento infantil em todos os seus aspectos. Ocorre que, fugindo de um cenário realmente triste e inadequado, no qual crianças não eram sequer compreendidas em suas necessidades básicas de desenvolvimento, viemos parar em um verdadeiro Reinado da Infância. Se antes tínhamos crianças que temiam seus pais, que tremiam somente de imaginar os castigos que receberiam diante de artes que cometessem, que talvez fossem tratadas com rispidez, sendo xingadas por erros naturais da idade, hoje temos pais que temem os filhos, que recebem ordens deles, que são xingados, agredidos com tapas e pontapés por crianças pequenas que nem sequer têm noção da gravidade do que estão fazendo. 

Ouço diariamente relatos de pais e mães que temem os escândalos das crianças diante das frustrações e por isso, as evitam de todo modo. Que levam pontapés dos pequenos quando dizem um não e, calmamente, explicam que isso é errado e o comportamento se repete e repete. Que têm pratos e talheres arremessados, caso os filhos não possam escolher o que querem comer… É comum constatarmos juntos, em mentoria, que os pais se sentem impotentes e inseguros diante desses pequenos seres que tanto precisam da segurança e limites dos adultos que são por eles responsáveis. 

Adultos de “vilões” da infância tornaram-se réus dela e o pior: crianças sem direção tornam-se déspotas, pequenos reizinhos que impõem ao mundo seus desejos imaturos, seus comportamentos inadequados, tornando-se rapidamente “mal-vindos” em diferentes ambientes, uma vez que não conseguem se adequar minimamente a eles. É evidente que os pequenos, novamente, assim como há séculos, são as maiores vítimas de tudo isso – se antes eram vítimas de atitudes autoritárias e desmedidas de adultos que ignoravam a realidade da infância, hoje são vítimas de atitudes permissivas e atabalhoadas de adultos inseguros e confusos graças ao excesso de informações e conhecimentos que são oferecidos de modo incoerente e confuso.  

Perdeu-se a hierarquia – pais não se posicionam como os adultos da espécie, aqueles responsáveis por orientar e conduzir os pequenos pelo caminho de aprender a SER PESSOA, de aprender a viver.  Ao contrário, levam essa missão como se ela fosse se realizar por osmose – “deixe crescer que se tornará uma pessoa de bem”. Isso é um enorme engano. 

É urgente resgatarmos a ordem: pais ocupando seu lugar necessário e intransferível de serem verdadeiras autoridades na vida dos filhos, e filhos exercendo o seu direito de serem crianças e, por isso mesmo, cuidados, protegidos de seus impulsos, ensinados a chegarem ao máximo de seu potencial.

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