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A força da comunidade

Passado um semestre praticamente inteiro de convivência com o novo coronavírus e as mudanças na dinâmica social impostas pela pandemia em todo o mundo, ainda restam dúvidas sobre quando se encontrará uma vacina, se o isolamento social ajudou a conter a evolução de casos no Brasil ou somente postergou sua ocorrência, e como será a sociedade no pós-pandemia. Algumas certezas, porém, este tempo já deixou: ninguém tem prévia imunidade ao vírus e as condições sociais em que vivem as pessoas influem diretamente na velocidade da propagação do novo coronavírus.

Em todo o mundo, territórios com grande adensamento populacional e déficit de políticas públicas lideram as estatísticas de infectados e mortos pelo novo coronavírus. No entanto, em lugares onde a comunidade local se organizou, congregando a expertise de diferentes agentes sociais, e tendo o poder público como subsidiário das ações, ou seja, auxiliando os grupos nas tarefas que ultrapassem sua capacidade, sem substituí-los ou torná-los dependentes do Estado – como bem postula o princípio cristão da subsidiariedade –, o controle da pandemia tem se mostrado mais eficaz.

Em Mumbai, na Índia, por exemplo, está localizada a favela de Dharavi, a de maior densidade populacional na Ásia, com 800 mil pessoas, em conglomerados de casebres nos quais, por vezes, até 80 pessoas compartilham um mesmo banheiro. Do contato das lideranças comunitárias com as autoridades, foi definida uma estratégia para o monitoramento clínico de todos os moradores, com a aplicação de teste para a COVID-19 naqueles que apresentassem alguns dos sintomas da doença e o efetivo isolamento social dos infectados em escolas e ginásios, que foram transformados em centros de quarentena. O resultado é que, do início de maio a meados de junho, o número de casos diários caiu de 60 para 20, enquanto no restante do país os indicadores quadruplicaram.

Na capital paulista, há comunidades tão adensadas quanto a de Dharavi. Paraisópolis, na zona Sul, é uma delas, com mais de 100 mil habitantes em um território de aproximadamente 10 km². Diante da chegada da COVID-19, uma rede de solidariedade e cuidado entre os moradores foi formada, com atenção à saúde e garantia de assistência social e econômica aos mais vulneráveis, a partir de doações de pessoas físicas e campanhas de financiamento coletivo na internet. Além disso, a comunidade pediu ao poder público autorização para transformar duas escolas em centros de acolhida provisórios para as pessoas com os sintomas da doença. O resultado é que, em um dos locais mais adensados da América Latina, os índices de mortalidade por COVID-19 são menores que a média geral da capital paulista, como é mostrado nesta edição do O SÃO PAULO. “Estende a tua mão ao pobre” (Eclo 7,32), conclama o Papa Francisco na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, a ser celebrado em 15 de novembro, na qual o Pontífice indica que “estender a mão é um sinal que apela imediatamente à proximidade, à solidariedade, ao amor”. Que as mãos que se uniram nas comunidades, ainda que distantes, ao longo desta pandemia, permaneçam entrelaçadas para a reconstrução do mundo pós-COVID-19.

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