Na primeira etapa da Viagem Apostólica, Pontífice esteve em Madri, onde falou sobre os problemas que afligem a humanidade, exortou os jovens à esperança cristã e celebrou Corpus Christi com mais de 1,2 milhão de pessoas

O tema da viagem apostólica do Papa Leão XIV à Espanha – “Levantai os olhos” (Jo 4,35) – já sinalizava o que estaria por vir. Em sua chegada a Madri, capital espanhola, o Pontífice encontrou um país sedento de fé. Mais de 1,2 milhão de pessoas foram às ruas para participar da missa de Corpus Christi, no domingo, 7. Em encontro com membros da Arquidiocese de Madri, na segunda-feira, 8, cerca de 70 mil pessoas lotaram o estádio Santiago Bernabéu, do time de futebol Real Madrid.
Jovens o acolheram nas ruas da cidade, gritando “Esta é a juventude do Papa”, despertando em muitos – hoje adultos – nostalgia da visita do Papa Bento XVI, em 2011, durante a Jornada Mundial da Juventude. Esta é a primeira visita de um Papa à Espanha desde então – o Papa Francisco não teve a chance de ir até esse país europeu. A organização da visita, liderada pelo jornalista católico e especialista em Relações Públicas, Yago de la Cierva, foi equivalente à de um grande evento internacional. Toda a imprensa espanhola parou para ouvir o Papa.

Depois de mais de três dias em Madri, o Pontífice seguiu para Barcelona, onde vai inaugurar a torre da Basílica da Sagrada Família e prestará sua homenagem ao arquiteto Antoni Gaudí, cujo processo de beatificação está aberto.
A Espanha que Leão XIV visita é um país economicamente melhor do que aquele de 15 anos atrás, mas que enfrenta ainda muitas disparidades sociais, como, por exemplo, a dificuldade de acolher e integrar imigrantes vindos da África e da Ásia, muitos de religião muçulmana. No quesito religioso, o país está quase dividido ao meio. Se por um lado mais da metade da população se declara católica – embora muitos não frequentem a Igreja –, por outro, mais de 40% do total se define como agnóstica ou “sem religião”.
Nesse contexto, havia dúvidas sobre como seria recebido o primeiro Papa norte-americano, sucessor do apóstolo Pedro e governante supremo da Igreja por pouco mais de um ano. Ainda assim, diante de deputados de direita e de esquerda, no Parlamento espanhol, a acolhida foi unânime: Leão XIV foi aplaudido por mais de sete minutos após discursar. Foi a primeira vez na história que um Papa falou naquela Casa legislativa.

PRESENÇA VIVA DE DEUS NO MUNDO
Também foi a primeira vez que um Papa fez a procissão de Corpus Christi caminhando pelas ruas de Madri. A viagem do Pontífice ao país coincidiu com essa importante solenidade litúrgica. Nessa ocasião, ele lembrou à sociedade espanhola que a religião não é um museu, algo do passado, mas é um instrumento vivo de fé e de esperança para os tempos atuais.
A Igreja é “uma escola que nos ensina a nos ajoelharmos diante de Deus e diante do próximo, pois ninguém pode se ajoelhar diante do Senhor e desprezar o irmão”, observou o Papa. “Estamos reunidos em torno da Eucaristia, o dom da presença viva de Cristo entre nós”, declarou, em sua homilia.

Celebrar a Eucaristia não é apenas uma manifestação exterior, disse ele, mas uma expressão da fé no “Senhor Ressuscitado, que está vivo e continua passando no meio de nós, que se faz pão para nossa fome de vida e visita os rincões do nosso coração e de nossa história, até mesmo os mais escuros”.
Deus, que se faz presente na comunidade, mas acima de tudo no Sacramento, é um sinal vivo da fé. “Jesus caminha pelas ruas, atravessa as praças, visita nossos bairros, habita os lugares do nosso cotidiano”, declarou o Pontífice. “Ele é o Deus próximo que caminha com seu povo, o Senhor da história, consolo dos fracos, luz para as famílias, esperança para os doentes, paz para quem sofre. O Cristo que passa pelas ruas na custódia é o mesmo que se identifica com os pobres, os abatidos, os que estão sozinhos e desamparados.”

A DIGNIDADE PRECEDE A UTILIDADE
Em um dos discursos mais fortes do seu pontificado até agora, e certamente histórico para a Espanha, o Papa Leão XIV fez uma defesa da dignidade e da vida humana em todas as suas fases e condições. “A minha presença entre vocês pretende ser um gesto de proximidade para com a Espanha, no âmbito da cooperação mútua, e uma palavra oferecida a partir do serviço à pessoa humana”, explicou, logo no início de sua fala. Referindo-se a São João Paulo II, lembrou que a Igreja é “especialista em humanidade”.
Leão XIV manifestou apreço pela cultura espanhola e lembrou que a fé católica é um elemento essencial, e fez um alerta: “Toda sociedade verdadeiramente justa se baseia no reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana.” Em poucas palavras, ele resumiu o ensinamento da Igreja sobre o tema: “A grandeza moral de uma nação manifesta-se, sobretudo, em sua capacidade de acompanhar, proteger e amar aquelas vidas que atravessam maior fragilidade”.

“Pode-se considerar plenamente justa uma comunidade que deixa à margem a criança ainda por nascer, o idoso, o doente, aquele que sofre em silêncio ou aquele que depende inteiramente dos cuidados dos outros?”, perguntou. “A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é um objetivo da civilização. Toda vida humana deve ser reconhecida e protegida desde a concepção até o seu fim natural, em todas as circunstâncias de sua existência”, disse ainda. “Quando essa certeza se obscurece, os mais vulneráveis são as primeiras vítimas e a lei perde seu significado mais profundo: servir e proteger cada pessoa.”
O discurso, bastante abrangente, também tocou no delicado tema das migrações. O Santo Padre reafirmou a posição da Igreja de que todo ser humano tem o direito de ser acolhido com dignidade no país para onde migra, mas que também deve ter o direito de permanecer no seu país de origem, e não ser forçado a migrar pela pobreza, por guerras ou desastres ambientais. “A afirmação da dignidade humana não pode permanecer abstrata quando tantas pessoas são obrigadas a deixar tudo para trás em busca de paz, segurança e um futuro. Além disso, o trágico drama migratório interpela hoje a consciência das nações e os fundamentos éticos da ordem internacional”, completou.
DIÁLOGO COM A CULTURA
Além de encontrar membros da Igreja local e ser recebido pelo anfitrião, o Cardeal José Cobo Cano, Arcebispo de Madri, o Papa teve diversos encontros com a família real espanhola, atualmente liderada pelo Rei Felipe VI. Como é praxe, o Pontífice se reúne com autoridades civis e o corpo diplomático do país que o acolhe.
Também foram marcantes os encontros que teve com os jovens, a quem convidou a “não ter medo” de abraçar uma vocação, e ouviu histórias de pessoas em situação de sofrimento.

Em um evento de diálogo com representantes da arte, do empresariado e do esporte, destacou-se a fala do ator internacionalmente reconhecido Antonio Banderas. Nascido em família católica, mas afastado da religião por muitos anos, ele representou grande parte da população espanhola ainda sedenta de fé. Diante do Papa, disse, emocionado: “Estou aqui confessando ter sido vítima do feitiço de Deus.” Para o ator, a “relação entre a Igreja e a arte não foi apenas frutífera”, mas que esta “foi a maior produtora de arte da humanidade”.



