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A vocação matrimonial, celeiro de todas as vocações

A Igreja Católica no Brasil dedica tradicionalmente o mês de agosto às distintas vocações presentes em seu seio. A iniciativa do Mês Vocacional, promovida pela CNBB desde 1981, adotou esse mês por concentrar importantes celebrações vocacionais: a memória de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes, em 4 de agosto; a festa de São Lourenço, padroeiro dos diáconos, em 10 de agosto; e o Dia dos Pais, celebrado sempre no segundo domingo deste mês. Como há poucos dias foi celebrado o Dia dos Pais e como a vocação matrimonial é o celeiro de todas as vocações, vale a pena dedicar algum tempo para refletir sobre seu chamado, sua dignidade e suas obrigações.

Diferentemente do que uma mentalidade secularizada tende a supor, o Matrimônio não é uma simples escolha civil ou um contrato de conveniência entre duas pessoas que se afeiçoam. Trata-se, antes, de uma verdadeira vocação, um chamado que Deus dirige ao homem e à mulher desde a própria criação, quando os constituiu à Sua imagem e semelhança e os destinou a serem “uma só carne” (Gn 2,24). É desse desígnio original que nasce a família, célula fundamental tanto da Igreja quanto da sociedade civil, e é dela que brotam, em grande medida, as demais vocações: poucos sacerdotes, religiosos ou religiosas surgem de lares desestruturados, ao passo que famílias sólidas e cristãs seguem sendo o principal celeiro de vocações à vida consagrada.

O próprio Cristo, ao ser interrogado sobre a licitude do repúdio, remeteu seus interlocutores a esse mesmo desígnio original, reafirmando o caráter divino e indissolúvel da união conjugal: “Assim não mais são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus juntou” (Mc 10,8-9). Nessas palavras está contida toda a doutrina católica sobre o Matrimônio: ele não é uma instituição meramente humana, sujeita ao arbítrio dos cônjuges ou das leis civis, mas obra de Deus, que une os esposos em um vínculo sagrado, exclusivo e perpétuo.

Dessa unidade e indissolubilidade decorrem a abertura à vida e a fidelidade mútua, bens que a Igreja sempre defendeu com firmeza, mesmo quando contrariam os costumes de cada época. Já em 1930, o Papa Pio XI, na encíclica Casti Connubii, ensinava que a fidelidade conjugal se torna mais fácil, agradável e nobre “por outra consideração importantíssima: a do amor conjugal, que penetra todos os deveres da vida familiar e que no matrimônio cristão ocupa como que o primado da nobreza”. Ou seja, longe de ser um peso ou uma limitação à liberdade pessoal, o amor conjugal, quando vivido segundo o plano de Deus, é fonte de santificação e de plenitude tanto para os esposos quanto para os filhos que Ele lhes confia.

É precisamente esse ponto que a cultura contemporânea mais rejeita. O individualismo, a mentalidade contraceptiva e a banalização do divórcio corroem, dia após dia, a compreensão da beleza e da seriedade do compromisso matrimonial. Diante disso, cabe à Igreja e a cada família cristã testemunhar com clareza e coragem que o Matrimônio, longe de ser uma convenção ultrapassada, permanece como caminho ordinário de santidade para a imensa maioria dos batizados, e que sua vivência fiel é sinal profético em um mundo que já não sabe mais amar com totalidade e permanência.

Que os fiéis chamados por Deus ao sacramento do Matrimônio saibam honrar, com amor e coragem, aquilo que Nosso Senhor lhes pede: a doação total de si, a fidelidade inquebrantável e, de modo especial, a generosa abertura à vida, acolhendo os filhos como dom e não como fardo. E que, ao educá-los na fé, esses pais também tenham a humildade e a confiança de instigá-los a descobrir e seguir sua própria vocação, seja ela o próprio Matrimônio, o sacerdócio ou a vida consagrada. É assim, com famílias que geram e apoiam vocações, que a Igreja continuará a florescer neste mês vocacional e em todos os tempos.

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