Nos últimos anos, e mais especialmente durante a Copa do Mundo, o Brasil tem visto um crescimento substancial da presença das casas de apostas on-line – as famosas bets – na vida das pessoas. Publicidades infindáveis, crescimento constante de usuários e a banalização do tema se tornaram algo comum. Atualmente, praticamente todos conhecem pelo menos alguém que joga frequentemente ou que já jogou em algum momento. Tamanho é o problema que, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, baseando-se em CPFs únicos, no ano de 2025 havia cerca de 25 milhões de apostadores ativos.
Em termos financeiros, a situação também traz grave preocupação: no ano passado, houve meses cujo pico mensal de volume total apostado ficou na casa dos R$ 20 a 30 bilhões. Isso fez com que o Brasil se tornasse rapidamente o 5º maior mercado de jogos de azar, atrás apenas dos Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia. Nas famílias, isso representa um gasto médio por mês de R$164, porém muito maior para aqueles que possuem algum comportamento problemático ou até mesmo dependência de apostas.
Esses números não deixam margem para outra interpretação: infelizmente, o país vive hoje sob uma epidemia de bets. A magnitude da questão já não pode ser ignorada. Já são milhares de lares destruídos Brasil afora e a cada dia que passa a situação só se agrava. Entretanto, ao mesmo tempo que atordoamo-nos diante do cenário atual, uma outra questão pode ser levantada: por que esse problema se disseminou tão rapidamente? Apostas, sejam elas quais forem, sempre existiram. Contudo, é a primeira vez que esse fenômeno afeta tão profundamente um número tão elevado de indivíduos.
Parte da resposta consiste, de certa forma, na própria natureza das bets. Por mais que o nome indique que se trate de apostas, a primeira impressão que vem à cabeça é a de apostas “normais”, como a de qual time ganhará uma partida. Todavia, isso se trata apenas da ponta do iceberg. Os aplicativos e sites de apostas são, na verdade, verdadeiros cassinos virtuais e, como todo cassino, são extremamente mais viciantes que meros bolões ou apostas simples. O formato dos jogos, os estímulos que causam e sua própria estrutura são feitos para que o jogador queira ficar jogando por tempo indeterminado e despendendo cada vez mais dinheiro.
Para entender o risco devastador dos jogos de azar, basta observar como eles operam sobre a vulnerabilidade humana. Dostoiévski, em seu livro “O jogador”, ilustra perfeitamente esse ponto ao narrar a história de Aleksei Ivánovitch, um jovem que, apesar da origem nobre, formação universitária e com infância familiar tradicional, acaba se perdendo em apostas após se encontrar em uma situação de fragilidade. Ao começar a apostar, ele é rapidamente engolido pelo delírio e dominado por uma “terrível sede de risco”. A lição deixada pelo autor russo é contundente: se o vício nos jogos é capaz de tragar e arruinar de forma tão violenta alguém com alto nível de instrução e um passado bem estruturado, fica evidente o perigo extremo que as apostas representam.
Esse risco torna-se ainda maior quando encontra um ambiente social já marcado por profundas fragilidades – justamente a situação do Brasil. Hoje, as famílias já partem de um nível de vulnerabilidade desde o berço. Das crianças nascidas hoje, 7% são registradas sem sequer o nome do pai na certidão. Além disso, mais de 13% dos lares são de composições familiares monoparentais femininas e, em 2024, mais da metade dos divórcios envolviam casais com filhos menores de idade. Por fim, soma-se a esse cenário um alto nível de endividamento, condições precárias de segurança e muitas famílias sequer com acesso adequado a saneamento básico. Dadas as condições, tornam-se muito mais influenciáveis a começarem a jogar, especialmente dado o investimento que as casas de apostas fazem em propaganda e influenciadores.
Levando em conta a situação corrente do País, é necessário instigar o poder legislativo para criar formas de mitigar os danos do setor. A proibição da propaganda de cigarros, por exemplo, foi feita em um contexto em que o fumo representava um problema social muito menor. Até para conseguir habilitação para conduzir veículos há uma regulamentação mais restritiva, exigindo exames psicotécnicos. A resposta, enfim, não é óbvia. Entretanto, ou algo é feito o quanto antes ou o preço dessa omissão continuará sendo pago pelas famílias brasileiras.



