O Brasil enfrenta uma “policrise” econômica, ecológica, institucional, moral… política. Podemos descrevê-la de modos diferentes, vê-la como fruto da conjuntura ou de processos muito mais antigos, mas temos de reconhecer sua existência. As escolhas eleitorais de 4 e 25 de outubro determinarão como enfrentar essa policrise. Escolher um ou outro candidato não é irrelevante. Contudo, qualquer proposta de solução que dependa apenas da vontade política do governante, sem sacrifícios da nação, é ilusória.
Em tais contextos, a história mundial e a Doutrina Social da Igreja apontam um mesmo caminho. Sociedades divididas e governos que não aceitam oposição têm muito mais dificuldade para superar as crises – e a superação, quando ocorre, é mais sacrificada e conduz a novas crises mais adiante. O diálogo e a construção de consensos estáveis que apontem um caminho, permitam correções de rota, distribuam os sacrifícios de forma proporcional às condições de cada um, facilitam a superação das crises e criam uma realidade “pós-crise” muito mais adequada para o bem comum.
Muitos querem nos convencer de que esse caminho não é viável, que os consensos são impossíveis, que só existem como conchavos dos poderosos, que é necessário eliminar o adversário. Falsa é a crença nesse suposto realismo político, que nos submete aos caprichos do poderoso da ocasião e nos pede que renunciemos aos ideais do amor cristão em nome de um “mal menor” pragmático. Cabe-nos afirmar a frase de Bento XVI que abre a Caritas in veritate (CV), escrita diante de uma crise econômica generalizada: “A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a Sua vida terrena e sobretudo com a Sua Morte e Ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor – caritas – é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz” (CV 1).
Debates ideológicos não costumam criar consensos; o melhor caminho é o testemunho de quem está efetivamente comprometido com o bem comum. Nesse sentido, as atividades e obras das comunidades católicas são espaços privilegiados – não para uma defesa corporativista, mas para um encontro em que o desejo de bem gera diálogos produtivos. A partir de realizações que, de fato, trazem o bem às pessoas, é possível superar as diferenças partidárias e descobrir políticos realmente comprometidos com o bem comum, não com as disputas de poder. Para isso, não podemos nos deixar cooptar por discursos ideológicos, e estar abertos e buscar o diálogo com todos.
Evidentemente, não se trata do consenso pelo consenso. Precisamos de consensos em torno de: (1) diagnósticos realistas, que reconheçam os problemas objetivos, como o déficit público e a necessidade de programas sociais eficientes, e os erros e acertos de qualquer posição do espectro político; (2) soluções razoáveis, tanto no sentido de atacarem efetivamente os problemas quanto de considerarem as condições políticas para sua implementação; (3) comprometimento moral, para que os esforços e sacrifícios sejam realmente orientados para o bem comum, para que a popula-ção tenha confiança em seus dirigentes e magistrados.
Ajudar a construir consensos virtuosos é a principal missão política dos católicos hoje. A eleição é um passo nessa caminhada: se nos deixarmos levar pela polarização partidária, será um passo em falso; se permanecermos fiéis à Igreja e abertos ao encontro com todos, um passo rumo a um Brasil melhor.



