Sempre que as eleições se aproximam, somos tomados por sentimentos contraditórios: esperança, desânimo, comprometimento, raiva, ressentimento… Carregamos no íntimo um desejo de verdade, justiça, beleza, realização pessoal e comunitária; mas constatamos, com escândalo, que a vida política no País não corresponde a esse desejo!
No século XXI, nosso comportamento político é determinado muito mais por respostas instintivas a estímulos nas redes sociais do que pela reflexão racional, o que aprofunda os ressentimentos e a divisão entre nós. O escândalo que sacudiu o Supremo Tribunal Federal no início de setembro, provocando a maior crise da história do tribunal, nos deixa perplexos, oscilando entre a raiva e a desilusão.
O Papa Francisco (cf. Evangelii gaudium, EG 217-237) ensinou que, quando nos sentimos sufocados pela conjuntura (o espaço), devemos trabalhar nos processos que constroem novas conjunturas (o tempo); em vez de nos deixarmos levar pelas ideologias (mesmo quando parecem defender causas justas), devemos mirar a realidade e deixar-nos orientar por ela; dialogar, buscando uma unidade que atenda a todos, sem ceder a posições partidárias.
Costumamos supor que a Igreja contribui para o bem comum quando atrai mais gente para o lado do espec-tro ideológico em que estamos – mas isso é falso. Ela contribui para o bem comum quando facilita que aqueles que realmente querem construí-lo, à direita ou à esquerda, dialoguem e cheguem a consensos justos e operativos. Promover o diálogo construtivo, superando barreiras ideológicas e partidárias, é a maior contribuição que a Igreja pode dar a uma sociedade dividida.
Essa posição pode soar ingênua. Entretanto, a ingenuidade não está em buscar consensos entre os que pensam diferente: está em supor que basta punir os culpados para que o País mude. As denúncias devem ser apuradas com rigor e as responsabilidades estabelecidas – isso é pressuposto, não solução. O que, de fato, supera crises como esta é mudar as regras que tornaram os abusos possíveis: os poderes sem contrapeso, os controles que não funcionam, a falta de transparência que os protegeu. Sem essas reformas, tanto o partidarismo que condena adversários e inocenta correligionários quanto os atalhos autoritários que prometem resolver tudo pela força, nos devolverão ao mesmo lugar – e vimos muitas vezes, nos últimos anos, o justiceiro de ontem tornar-se o vilão de hoje.
Contextos como este são oportunidades para (re)descobrirmos que o encontro com Cristo não é intimista – maravilhoso, mas restrito ao indivíduo. Ele cria um povo que caminha na his-tória, construindo-se como povo e moldando a realidade a partir do amor recebido e testemunhado. Daí nasce um discernimento que nos ajuda a entender o ambiente e a não nos deixarmos manipular – e que vem não de partidarismos ideológicos, mas do reconhecimento das obras que nascem da fé, de uma história de compromisso amoroso com a realidade e com os que sofrem.
Para superar grandes crises políticas ou econômicas, as nações precisam se unir em torno de projetos de longo prazo, nos quais reformas institucionais, mudanças estruturais e ações penais favorecem a justiça e o desenvolvimento humano integral. No caso do STF, por exemplo, simples trocas de nomes não resolverão os problemas: também é preciso mudar as regras. Nas eleições, é fundamental garantir que o futuro governo corrija erros e incorpore acertos, venham de onde vierem. O Brasil não precisa, agora, de um confronto que opõe pessoas bem-intencionadas por critérios partidários, mas da união de todos os que realmente querem o País melhor.




