O exercício da autoridade dos pais sobre os filhos é historicamente reconhecido como algo fundamental para todas as famílias, e no caso dos católicos, uma postura compatível com a fé que professam, pois conforme aponta o Catecismo da Igreja Católica, “os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos. Testemunham esta responsabilidade, primeiro pela criação de um lar em que são regra a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado. O lar é um lugar apropriado para a educação das virtudes, a qual requer a aprendizagem da abnegação, de sãos critérios, do autodomínio, condições da verdadeira liberdade. Os pais ensinarão os filhos a subordinar as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais” (CIC 2223).
Em agosto, o Mês da Primeira Infância, aconteceram amplos debates no Brasil sobre os cuidados necessários para o bom desenvolvimento das crianças de 0 a 6 anos, o que também envolve tratar sobre a autoridade dos pais.

Na entrevista a seguir, Simone Ribeiro Cabral Fuzaro (@sifuzaro), fonoaudióloga, mestra em Educação-Distúrbios da Comunicação e máster em Matrimônio e Família, comenta sobre o quanto o aumento da perda da autoridade dos pais tem sido prejudicial para o desenvolvimento das crianças, impactado a harmonia dos lares e prejudicado a convivência social. As respostas da especialista também são parte da reportagem “‘Respeito é bom!’: a autoridade dos pais é benéfica às crianças e a toda a sociedade”, publicada na edição de 2 de setembro do semanário arquidiocesano.
O SÃO PAULO – Desde 2023, por força da lei federal no 14.617, agosto é também o Mês da Primeira Infância, tendo entre seus objetivos, proporcionar um “amplo conhecimento sobre o significado da primeira infância [referente às crianças de 0 a 6 anos] à família, à sociedade, aos órgãos do poder público, aos meios de comunicação social, aos setores empresarial e acadêmico, entre outros” (art 1º,I). A partir da experiência da senhora como educadora, quais os aspectos fundamentais devem ser considerados no processo educativo e na relação entre pais e filhos na Primeira Infância?
Simone Ribeiro Cabral Fuzaro – A Primeira Infância é, realmente, uma etapa muitíssimo importante da vida. Nela estão sendo construídas as bases do caráter, toda a arquitetura cerebral e os vínculos estão se fortalecendo. Nessa etapa da vida, a criança está em franco desenvolvimento, por isso a estimulação adequada é muito importante. Rotina, hábitos saudáveis de sono, alimentação, higiene, estímulos adequados para o desenvolvimento neuromotor e uma relação de segurança e obediência em relação aos pais são aspectos que devem receber especial atenção.
O Catecismo da Igreja Católica é inequívoco ao afirmar que “os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos” (n. 2223). Entretanto, parece haver uma crescente tendência de os pais repassarem esta responsabilidade já na Primeira Infância a outros familiares – como os avós –, à escola e até mesmo às telas. Para a criança, o quanto isso acaba sendo ruim?
Quando os pais assumem o protagonismo da formação dos filhos e delegam cuidados a terceiros por algum período do dia, não vejo tanto prejuízo. O problema acontece quando se delega a educação, a formação a terceiros. Formar uma pessoa significa transmitir valores, princípios que serão as bases que formarão o caráter. Quando os pais não fazem isso, o mundo o fará. A criança poderá se tornar alguém com comportamentos e valores completamente diferentes daqueles que a família vive.
Para além disso, temos a triste realidade de crianças serem delegadas às telas e, aí sim, as consequências são nefastas. Muitas crianças pequenas se tornam dependentes das telas, sofrendo enormes prejuízos cognitivos, afetivos, intelectuais e comportamentais decorrentes deste uso. Outros tantos problemas vêm sendo relatados em pesquisas, como a dificuldade de autorregulação, de atenção, a baixíssima capacidade de suportar frustrações, além de casos de ‘estupro virtual’, uma vez que crianças acabam tendo acesso às plataformas nas quais essas práticas acontecem.
Exatamente por isso, as crianças necessitam tanto da presença de pais atentos, amorosos e comprometidos com a formação delas. Eles precisam assumir o protagonismo nessa missão de modo que a rede de apoio, quando necessária, seja realmente um apoio e não a responsável pelo processo.

Também tem sido muito comum que crianças de 4, 5, 6 anos apresentem uma postura questionadora a respeito daquilo que os pais determinam que devam fazer. Em muitos de seus artigos publicados no jornal O SÃO PAULO, a senhora relata situações em que pais que acabam cedendo a tais comportamentos ou dando “autonomia” para que a criança decida sobre coisas que a eles caberiam. A recorrência de tal prática pode levar à perda da autoridade dos pais perante os filhos?
Eu diria que estamos diante de uma crise mundial de autoridade que já atingiu as famílias há muitas décadas. Hoje, é raro encontrar pais que saibam exercer a autoridade sobre os filhos. Exatamente por isso, as crianças acabam assumindo uma postura mais questionadora e opositora na relação com os pais e àquilo que eles orientam. É importante dizer, porém, que formar os filhos na virtude da obediência não significa formar pessoas que não sabem questionar, ao contrário, saberão fazê-lo, quando necessário, com critérios mais claros. O que acontece hoje é um ato de transgressão e não de questionamento, afinal, estão tendo oportunidades que não são adequadas à capacidade que têm.
Falta aos pais segurança, clareza e firmeza para orientarem e conduzirem as crianças no processo de crescimento. Hoje em dia, os pais perguntam em vez de determinar, propõem em vez de ordenar e acabam deixando as crianças sobrecarregadas, pois elas precisam decidir sobre situações que não têm a menor capacidade para tal. Aliás, crianças não estão preparadas para decisão alguma; elas precisam que pessoas maduras, adultas, responsáveis, decidam o melhor para elas e, com o tempo, as ensinem critérios para boas decisões.
Temos, então, uma falta de autoridade dos pais, deixando as crianças crescerem caóticas, sem direção e, portanto, abandonadas a seus próprios impulsos imaturos. Crianças que xingam e batem nos adultos, crianças que determinam como a casa vai funcionar, o horário que vão dormir, o que vão comer… é triste ver essa realidade e saber que ela está criando pessoas inseguras, enfraquecidas, guiadas por desejos, enfim, apequenadas, afinal não chegam a alcançar a realização de seu potencial humano.

Como essa crescente perda de autoridade dos pais tem reverberado na escola e em outros ambientes da vida em sociedade?
De modo bastante desastroso. Nas escolas, encontramos professores completamente reféns das crianças e suas malcriações. Na medida em que não aprendem a identificar autoridade nos pais, acabam por não a identificar também nos professores e, quando o professor consegue de algum modo exercer sua autoridade, é bem possível que seja questionado pelos pais que podem achar que seu filho está sendo injustamente corrigido ou conduzido na escola. Atendo muitas escolas e essas queixas são recorrentes: há muito desrespeito à figura do professor por parte dos alunos. Os pais normalmente entram em defesa dos filhos quando o professor aponta algum aspecto que não vai bem. Além disso, há uma perda enorme de tempo para organizar as crianças ao início de cada atividade, em razão de elas não ouvirem e obedecerem aos comandos simples. Também existe uma quantidade imensa de laudos que impactam na ação do professor junto ao grupo e, muitas vezes, esses laudos são “questionáveis”. Também fica fácil observarmos o impacto social dessa falta de autoridade dos pais na formação das crianças – restaurantes, missas, espaços públicos estão cada vez mais caóticos pela dificuldade crescente de as crianças adequarem minimamente seu comportamento ao ambiente. Os pais já não conseguem mais conter as crianças por muito tempo – há uma crença coletiva de que a criança precisa estar livre para mexer em tudo o tempo todo, falar alto, ser “livre” para ser criança. Ninguém percebe que ela já é capaz de mais; que colocar pequenos limites e metas compatíveis com o ambiente é um estímulo fundamental para que desenvolva suas funções executivas e o senso de coletividade. É a sementinha plantada no início da vida para que ela se torne capaz de olhar para o outro, para o ambiente, para as demais pessoas e se regular.

Diante dos dilemas no itinerário educativo, muitos pais recorrem a conteúdos de internet ou a dicas de influencers sobre como educar bem os filhos. O quanto isso pode ser ainda mais prejudicial para a perda de autoridade dos pais? Quais cuidados devem ter antes de seguirem tais recomendações?
Vejo isso como um dos grandes problemas para as mães modernas. Existe muito conteúdo atualmente. Tantos conteúdos bem estruturados, pautados em uma visão antropológica definida e coerente, quanto conteúdos incipientes, com pouca fundamentação. Se os pais não têm claro o que querem para os filhos, em que valores e princípios querem formá-los, acabam engolindo uma gama absurda de conteúdos e ficam cada vez mais confusos sobre o que é bom ou não fazer, como se deve ou não conduzir a educação dos pequenos.
Sempre aconselho as pessoas a identificarem a formação e os princípios de quem escolhem seguir. Mães católicas, por exemplo, precisam ter cuidado ao consumir conteúdos de pessoas que não têm fé ou mesmo que acreditam que a religião somente atrasa a vida das pessoas, afinal, é óbvio que tais ensinamentos não levam em conta valores que são importantes para a família católica. Também não pode ser critério somente a fé, pois muitas mães católicas, sem uma formação em educação, podem orientar coisas que nem sempre serão as mais adequadas. Por isso, todo cuidado é necessário. O importante é ouvir, refletir e analisar bem os conteúdos apresentados. Fazer uma seleção criteriosa tendo em vista: ‘Essa ação que está sendo orientada vai me ajudar a educar meu filho como eu quero educá-lo?’ Assim como não devemos delegar a formação dos filhos aos avós, babás ou telas também não é adequado delegarmos a influencers. Tudo deve passar pelo crivo de quem são os responsáveis: os pais.




