
A mãe avisa que já está na hora de dormir, mas o filho ignora. No dia seguinte, no almoço, a criança diz que não vai comer porque não gosta de um alimento específico. Horas depois, recusa-se a arrumar a bagunça que deixou na sala. E se os pais insistem sobre o que deve ser feito, não raro surgem as birras e até xingamentos.
Comportamentos assim têm sido cada vez mais frequentes, até mesmo em crianças que ainda estão na primeira infância, aquelas com até 6 anos.
“Estamos diante de uma crise mundial de autoridade que já atingiu as famílias há muitas décadas. Hoje, é raro encontrar pais que saibam exercer a sua autoridade sobre os filhos. Exatamente por isso, as crianças acabam assumindo uma postura mais questionadora e opositora na relação com os pais e aquilo que eles orientam. É importante dizer, porém, que formar os filhos na virtude da obediência não significa formar pessoas que não sabem questionar; ao contrário, saberão fazê-lo, quando necessário, com critérios mais claros”, destaca, ao O SÃO PAULO, Simone Ribeiro Cabral Fuzaro (@sifuzaro), fonoaudióloga, mestra em Educação-Distúrbios da Comunicação e máster em Matrimônio e Família.
A INSUBSTITUÍVEL MISSÃO DOS PAIS
Para os pais católicos, exercer bem a autoridade sobre os filhos é uma postura condizente com a fé que professam. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) é inequívoco ao afirmar que os pais “são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos. Testemunham esta responsabilidade, primeiro pela criação de um lar em que são regra a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado. O lar é um lugar apropriado para a educação das virtudes, a qual requer a aprendizagem da abnegação, de sãos critérios, do autodomínio, condições da verdadeira liberdade. Os pais ensinarão os filhos a subordinar as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais” (CIC 2223).
Na exortação apostólica Familiaris Consortio (FC), São João Paulo II aponta que os pais devem exercer “sua autoridade irrenunciável como um ‘ministério’ verdadeiro e pessoal, ou seja, como um serviço ordenado ao bem humano e cris-tão dos filhos, ordenado particularmente a proporcionar-lhes uma liberdade verdadeiramente responsável” (FC 21).
O Papa Francisco, na exortação apostólica Amoris laetitia (AL), alerta, porém, que cada vez mais a autoridade dos pais “é olhada com suspeita e os adultos são duramente postos em discussão. Eles próprios abandonam as certezas e, por isso, não dão orientações seguras e bem fundamentadas aos seus filhos. Não é saudável que sejam invertidas as funções entre pais e filhos: prejudica o processo adequado de amadurecimento que as crianças precisam fazer e nega-lhes um amor capaz de orientá-las e que as ajude a maturar” (AL 176).
NEM A TERCEIROS, NEM ÀS TELAS
Simone Fuzaro ressalta que os pais não devem delegar esta responsabilidade a terceiros: “Formar uma pessoa significa transmitir valores, princípios que serão as bases que formarão o caráter. Quando os pais não fazem isso, o mundo fará. A criança poderá se tornar alguém com comportamentos e valores completamente diferentes daqueles que a família vive”.
Ainda segundo a especialista, quando os pais repassam essa responsabilidade para as telas, “as consequências são nefastas”, pois muitas crianças se tornam dependentes delas e, assim, sofrem prejuízos cognitivos, afetivos, intelectuais e comportamentais. “Outros tantos problemas vêm sendo relatados em pesquisas, como a dificuldade de autorregulação, de atenção, a baixíssima capacidade de suportar frustrações, além de casos de ‘estupro virtual’, uma vez que crianças acabam tendo acesso a plataformas em que essas práticas acontecem”.

OS RISCOS DA ‘AUTONOMIA’ INFANTIL
Simone Fuzaro assegura que cada vez mais falta aos pais “segurança, clareza e firmeza para orientarem e conduzirem as crianças”.
“Hoje em dia, os pais perguntam em vez de determinar, propõem em vez de ordenar e acabam deixando as crianças sobrecarregadas, pois elas precisam decidir sobre situações que não têm a menor capacidade para tal. Elas não estão preparadas para decisão alguma; precisam que pessoas maduras, adultas, responsáveis decidam o melhor para elas e, com o tempo, as ensinem critérios para boas decisões”.
Ainda de acordo com a máster em Matrimônio e Família, a falta de autoridade dos pais faz com que as crian-ças cresçam sem direção e entregues a seus próprios impulsos imaturos, e, por consequência, poderão se tornar “pessoas inseguras, enfraquecidas, guiadas por desejos, enfim, apequenadas, pois não chegam a alcançar a realização de seu potencial humano”.
PREJUÍZOS A TODA A SOCIEDADE
A mestra em Educação-Distúrbios da Comunicação recorda, ainda, que a falta de autoridade dos pais tem impactos não apenas no ambiente doméstico.
“Nas escolas, encontramos professores completamente reféns das crianças e suas malcriações. Na medida em que não aprendem a identificar autoridade nos pais, acabam por não identificá-la também nos professores e, quando o professor consegue de algum modo exercer sua autoridade, é bem possível que seja questionado pelos pais que podem achar que seu filho está sendo injustamente corrigido ou conduzido na escola”, lamenta.
Ainda segundo Simone, “restaurantes, missas, espaços públicos estão cada vez mais caóticos pela dificuldade crescente de as crianças adequarem minimamente seu comportamento ao ambiente. Os pais já não conseguem mais conter a criança por muito tempo – há uma crença coletiva de que ela precisa estar livre para mexer em tudo o tempo todo, falar alto, ser ‘livre’ para ser criança. Ninguém percebe que ela já é capaz de mais, que colocar pequenos limites e metas compatíveis com o ambiente é um estímulo fundamental para que desenvolva suas funções executivas e o senso de coletividade”.
OS ‘CONSELHOS DE INTERNET’ PODEM AJUDAR?
Instaurado o descontrole comportamental dos filhos, não é raro que os pais busquem em sites e nas redes sociais de influencers respostas sobre o que fazer.
“Se os pais não têm claro o que querem para os filhos, em que valores e princípios querem formá-los, acabam engolindo uma gama absurda de conteúdos e ficam cada vez mais confusos sobre o que é bom ou não fazer, como se deve ou não conduzir a educação dos pequenos”, alerta Simone Fuzaro.
“Eu sempre aconselho as pessoas a identificarem a formação e os princípios de quem escolhem seguir. Mães católicas, por exemplo, precisam ter cuidado ao consumir conteúdos de quem não tem fé ou mesmo de quem acredita que a religião somente atrasa a vida das pessoas; afinal, neste caso, é óbvio que tais ensinamentos não levam em conta valores que são importantes para a família católica. Porém, não pode ser critério somente a fé, pois muitas mães católicas, sem uma formação em educação, podem orientar coisas que nem sempre serão as mais adequadas”.
A especialista recomenda, por fim, que os pais ouçam, reflitam e analisem tais conteúdos, tendo em conta uma pergunta primordial: “Esta ação que está sendo orientada vai me ajudar a educar meu filho da maneira como eu quero educá-lo?”




