A Igreja dedica o mês de julho ao Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo. Essa devoção, presente desde os tempos mais remotos do Cristianismo, remonta, de modo especial, ao sacrifício de Nosso Senhor na cruz: por meio de Sua entrega e do derramamento de Seu sangue, a humanidade foi purificada do pecado e as portas do céu foram reabertas a todos que acolherem livremente a salvação. Dessa forma, neste mês os fiéis são convidados a contemplar, meditar e reviver o mistério da Paixão, origem de todas as graças e fonte da redenção humana.
Para além da narração dos sofrimentos, Morte e Ressurreição de Cristo, há na Bíblia outras passagens que aludem à realidade do Preciosíssimo Sangue de Jesus. Na primeira carta de São Pedro, por exemplo, o príncipe dos apóstolos inicia sua carta dirigindo-se aos eleitos para “prestarem obediência a Jesus Cristo e serem aspergidos com o seu sangue” (1Pd 1,2). Na sequência, refere-se justamente que sua redenção teve como preço não coisas corruptíveis como prata e ouro, “mas o precioso sangue de Cristo, o cordeiro sem defeito e sem mancha” (1Pd 1,19).
São muitos os frutos espirituais que podem ser alcançados quando verdadeiramente meditamos sobre esse mistério. Contemplar que Deus, Aquele que tudo criou e tudo sustenta, que de nada precisa de nós, esvaziou-se inteiramente de sua glória, fez-se homem e assumiu livremente os mais profundos sofrimentos por nossa salvação, possibilita-nos, ainda de forma imperfeita e limitada, imaginar o tamanho de seu amor. Vislumbrar caridade tão grande e imerecida deveria ser um motor constante para buscarmos viver santamente e retribuir, mesmo de forma insuficiente, tamanho favor feito por nós.
Todavia, existe, nessa realidade, algo que frequentemente é ignorado por uma grande quantidade de católicos. Se o amor divino nos inspira a correspondê-lo, só somos capazes de efetivamente fazê-lo e alcançar a vida eterna pelos méritos da Paixão de Nosso Senhor. Portanto, sob todos os aspectos que se avalie, o fato permanece o mesmo: entre nossas misérias e a porta dos céus, há um único caminho e ele é marcado inteiramente com o Preciosíssimo Sangue de um Deus crucificado.
A nós, fiéis, nos são concedidos os frutos desse mérito — as graças — principalmente por meio dos sacramentos. Em outras palavras, só podemos ser batizados, receber o perdão nos confessionários ou comungar o Santíssimo Corpo de Cristo, pois Ele derramou seu sangue na cruz. Por isso, em toda Santa Missa, o sacerdote diz que “este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna Aliança”. Esta Aliança é, pois, pautada pela graça, não mais selada com o sangue de animais, mas sim pelo sangue do Cordeiro de Deus.
Essa realidade deveria levar todos a refletir sobre quão bem estamos correspondendo a essa dádiva. Discorrendo sobre esse tema, Padre António Vieira, em um de seus conhecidos sermões, diz justamente que diante da imagem de Cristo crucificado “sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou; diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi. Por ver que Deus me compra com todo o Seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada. Eu valho nada”.
Que neste mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue, portanto, esforcemo-nos para contemplar com renovada atenção o mistério da Paixão de Nosso Senhor, cultivemos com fervor essa santa devoção e agradeçamos o infinito amor nele derramado, permanecendo fiéis a Cristo em todas as circunstâncias de nossas vidas. Somente assim, o sacrifício que Ele ofereceu na cruz produzirá, em cada um de nós, frutos abundantes de conversão, santidade e vida eterna.




