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A cultura do poder e a fraqueza de Deus

O Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial (2026), alertou para a cultura do poder, que se vai consolidando sempre mais em nossos tempos e na qual “a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão, relegando o bem comum da humanidade ao segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma variável secundária face aos interesses estratégicos” (nº 188).

O Papa aborda a questão em referência à relação entre os povos, na qual acontece claramente um exercício de poder dos fortes sobre os fracos nas guerras, nas relações e interesses comerciais e nas relações políticas de domínio regional e até territorial. A guerra deixou de ser um “recurso extremo” e passou a ser preventiva e de afirmação de interesses, mesmo ao preço de numerosas vidas, destruição e sofrimentos das populações civis. O rearmamento está na ordem do dia, mesmo em países que haviam renunciado aos investimentos no “poderio de morte e destruição” e apostado no desenvolvimento social, na superação da fome, da pobreza, em moradias dignas, na saúde e oportunidades de trabalho.

O rearmamento, no início, quer se justificar como atitude dissuasiva contra potenciais forças agressoras e como proteção da própria população. Mas até esse argumento para se armar havia sido abandonado, porque se confiava mais em outras forças de dissuasão, como os organismos multilaterais e a diplomacia. Infelizmente, porém, esses organismos também estão fragilizados, como a ONU, a OEA, a OTAN, a União Europeia e o Mercosul. Acredita-se menos no poder da aliança com os outros e se volta a apostar no próprio poderio econômico, bélico e militar. A diplomacia acaba ficando ineficaz e difícil, porque a vontade de potência fala mais alto do que o sincero desejo de paz. Caminha-se, então, para um “salve-se quem puder” e, como acontece nessas situações, os fortes e poderosos dominam e os fracos se submetem e sofrem.

Leão XIV segue na sua reflexão: “Assim, a guerra não é só combatida, mas também preparada culturalmente por meio de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo. Quando a memória histórica desvanece e os critérios éticos que protegem os civis e os mais frágeis enfraquecem, torna-se mais fácil apresentar a violência como necessária, inevitável e até ‘limpa’” (nº 192). Nesse contexto, a humanidade caminha para uma cultura violenta do poder, onde a paz não aparece como tarefa a ser assumida, mas como um intervalo precário entre conflitos (ibidem).

Os recursos tecnológicos da inteligência artificial, cada vez mais poderosos e autônomos, são colocados a serviço do poderio bélico, com grave preocupação sobre o efetivo controle desses recursos. Quem estabelece as regras de ação da IA no uso bélico? Será apenas quem detém o controle desse poder extraordinário? Além de afirmar que é preciso estabelecer critérios precisos de discernimento e de indicar alguns critérios éticos que deveriam ser atendidos no uso bélico da IA, o Papa indica: “É necessário estabelecer regras partilhadas, inclusive internacionalmente, que travem a corrida pelo armamento tecnológico e garantam uma especial proteção a civis e infraestruturas essenciais à sobrevivência” (nº 200).

Essa cultura do poder está deixando o mundo muito apreensivo e preocupado e se apresenta como uma verdadeira idolatria. O mesmo Papa Leão XIV observava, dias atrás, em uma de suas falas, que Deus não está nas manifestações de força e prepotência. E isso está plenamente na linha daquilo que aprendemos da Palavra de Deus: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes”, cantava Maria, a humilde serva que foi escolhida para ser a Mãe do Salvador (cf. Lc 1,51-52).

Impressiona sempre a passagem do primeiro livro dos Reis, que fala do grande Elias, profeta do Deus vivo e verdadeiro contra as idolatrias da sua época (cf. 1Rs 19, 9a-13a). A fé e o temor de Deus haviam sido abandonados e o povo corria atrás de ídolos e dos falsos profetas. O rei e os poderosos do povo tinham-se apoiado nas potências estrangeiras, para se sentirem fortes, deixando de confiar no Deus de Israel, que fizera tantas maravilhas em seu favor. E perseguiam Elias, que teve de escapar para não morrer. E se refugiou no Horeb, o “monte de Deus”, tendo um encontro extraordinário com o Todo-Poderoso. 

Primeiro, houve um vendaval imenso, mas Deus não estava no vendaval. Depois, um terremoto violento, que partiu até as rochas, e um fogo devastador. Mas Deus não estava no terremoto, nem no fogo. Furacão, terremoto, fogo, trovão e outras forças cósmicas eram os ídolos do povo. Depois houve uma brisa mansa. E aí sim, Deus manifestou-se a Elias. Deus não está nas manifestações de prepotência, próprias da idolatria. E as idolatrias são enganadoras.

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