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O semeador, a semente e o terreno

Uma das parábolas mais conhecidas de Jesus é a do semeador, que sai pelo campo espalhando a semente (cf. Mt 13,1-23). O semeador faz seu trabalho na esperança de colher frutos; a semente é boa mas cai em terrenos diversos e o efeito da semeadura também é diferente, a depender do terreno que a recebe: chão duro da estrada, ou terreno pedregoso, ou cheio de ervas daninhas e espinhos, ou terra boa. Nem é preciso interpretar muito, pois Jesus mesmo explica seu sentido aos seus discípulos.

No contexto relatado no Evangelho segundo São Mateus, Jesus está à beira do Mar da Galileia, cercado de muita gente; tanta, que ele entra num barco para falar melhor à multidão, que se apinha na praia. Muitos ouvem, mas nem todos do mesmo modo. Jesus sabe que suas palavras não produzirão fruto do mesmo modo em todos os corações. A expressão de Jesus no final do relato da parábola diz muito: “Quem tem ouvidos, ouça” (v.9). É um convite para que cada um reflita e veja que tipo de terreno é. A parábola envolve cada um dos ouvintes, que acabam sentindo-se parte dela.

Os focos da parábola são três: O semeador, a semente e o terreno que recebe a semente. Mesmo que, à primeira vista, o terreno fique mais destacado, o foco central é a semente, que é a palavra de Deus. Jesus é o divino semeador, que espalha essa semente preciosa com generosidade sobre os diversos terrenos. Ele mesmo também é o Verbo-Palavra de Deus vinda ao mundo para ser a luz dos homens e para atrair a todos para a luz e a vida de Deus (cf. Jo 1,9-12). Deus envia sua Palavra ao mundo, não para desperdiçá-la, mas para que ela frutifique, conforme a bela profecia de Isaías: “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem terem fecundado a terra e dado a semente ao semeador, assim acontece com a palavra que sai de minha boca: Não voltará a mim vazia, mas realizará tudo o que é de minha vontade” (cf. Is 55,10-11).

Jesus é muito realista ao descrever os tipos de terreno que não frutificam. Não é culpa do semeador, que espalha a semente em todos os terrenos. Também não é culpa da semente, que é boa e tem o poder de frutificar. É a condição do terreno, que acolhe a semente. Há corações fechados pela descrença, por preconceitos, pela soberba. E aí, é como o chão duro da estrada, no qual a melhor das sementes não germina. Há quem tenha certa abertura à palavra de Deus, mas é superficial e inconstante, não perseverando no acolhimento da palavra de Deus e não chegando a dar frutos. E há corações que acolhem a palavra de Deus, mas estão cheios de vícios e apegos ao pecado, que sufocam qualquer bom propósito e desejo. E há corações abertos e disponíveis, que acolhem bem a palavra de Deus e a fazem frutificar por uma vida virtuosa e santa.

Ao contar a parábola do semeador, Jesus convida a sermos como o terreno bom, onde a palavra do Reino de Deus pode produzir frutos abundantes. Ninguém é terreno inteiramente ruim, nem inteiramente bom. Todos precisam fazer o agricultor zeloso, que prepara bem o terreno antes de semear e, depois da semeadura, cultiva as plantas, cuidando que as plantinhas boas cresçam bem e não sejam sufocadas pelas ervas daninhas, deixando de produzir os frutos tão desejados. Em outras palavras, temos necessidade de constante conversão para melhorar o terreno da semeadura de Deus, que somos nós. Não é por nada que os profetas, muitas, vezes, antes de anunciarem a mensagem de Deus ao povo, convidavam com insistência: “Ouve Israel, o Senhor, teu Deus, vai falar!” É preciso ter vontade de ouvir e acolher a mensagem. Outros chamavam à conversão com veemência: “Volta, Israel, ao Senhor, teu Deus, porque estavas caído no teu pecado!” (Os 14,2). E também Jesus inicia a pregação do Evangelho chamando à conversão: “Convertei-vos, o Reino de Deus está próximo!” (cf. Mc 1,15) muito à sincera conversão pessoal, comunitária e social. Segundo o ditado popular, “não adianta falar a quem não quer ouvir”. Sem conversão, a palavra de Deus fica sem efeito em nós. Muitas crises pessoais e eclesiais poderiam ser evitadas com apego menor a nós mesmos e maior abertura à palavra de Deus. É preciso crer na força e no poder da palavra de Deus. Pela força e ação do Espírito Santo, ela é capaz de mudar os diversos tipos de terreno, dispondo-os a produzirem frutos abundantes.  

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