O que sai do coração

Estamos bem próximos de comemorar os 50 anos do Mês da Bíblia no Brasil, tempo precioso em que os cristãos tiveram a oportunidade de conhecer melhor a Palavra, e, conhecendo-a, vivê-la com mais fidelidade. Tendo conhecimento de como a Igreja interpreta a Bíblia, evitaremos possíveis desvios, sobretudo de uma leitura fundamentalista, que pode abrir uma janela perigosa a iniciativas que vão na contramão do que a Palavra nos quer ensinar. Jesus se deparou com pessoas – fariseus e doutores da Lei – que “abandonaram os mandamentos de Deus para seguir a tradição dos homens”. Eram exigentes quanto ao cumprimento de rituais de pureza exterior e tolerantes com as maldades que brotavam do coração.

Vimos que Jesus abençoou cinco pães e dois peixes e alimentou uma multidão. Depois, ensinou que Ele é o Pão Vivo que desceu do céu. Agora, Ele se depara com um grupo de pessoas que implica com a maneira de comer os pães, ou seja, com a possível sujeira que deixa as mãos impuras. Uma preocupação exagerada com uma infinidade de pequenos ritos exteriores que, não sendo observada, deixava a pessoa impura. Diante de tais exigências, Jesus dá uma nova direção, um novo sentido para o que chamam de impureza: impuro não é o alimento que nutre o corpo, mas as maldades que brotam de dentro das pessoas e envenenam a convivência humana. O Papa Francisco insiste nisso, dizendo que corremos o risco de perder a alegria do Evangelho que “enche o coração e a vida inteira daquele que se encontra com Jesus”, tornando-nos pessoas com expressiva rigidez, exigentes quanto ao cumprimento de certas normas e rituais ligados a um passado que não tem mais sentido, perturbando a convivência das comunidades. Diante disso, é preciso questionar que tipo de impureza está nas mãos de quem tem o pão: impura é a mão de quem jogou pão no lixo e não o repartiu, mão de quem conseguiu pão de modo desonesto, mão de quem conseguiu pão explorando as pessoas. São tantas as impurezas e, por isso, uma multidão que vive sem pão.

O Salmo 14 tem uma bela orientação para colocar em prática a Palavra de Deus. O texto nos leva a pensar que os romeiros, chegando para as festas a Jerusalém, perguntam aos que estavam às portas do templo: “Quais as condições para que eu entre no templo nestes dias festivos?”. Como resposta, nada de práticas rituais, mas um modo autêntico de conduzir a vida. Pode entrar no templo “quem caminha sem pecado e prática a justiça, quem pensa a verdade no seu íntimo, não solta em calúnias sua língua, não prejudica o seu irmão, não cobre de insultos o seu vizinho, não dá valor ao homem ímpio, honra os que respeitam o Senhor, cumpre o que prometeu, não explora e não aceita suborno contra o inocente”. Não pediram nada para Deus, mas para o próximo, lembrando que a verdadeira religião é criar relações de fraternidade, respeito e justiça entre as pessoas. É como se Deus estivesse falando: “Você quer ser meu hóspede, meu amigo? Acolha o outro, seja amigo dele e sirva-o quando ele precisar”.

Este ensinamento nós também encontramos nos escritos de São Tiago, que nos mostra que o mandamento de Deus não consiste em proibições, castigos, ritualismo, mas é como uma luz que acende em nossas vidas para iluminar nossas decisões, possibilitando conduzir a vida de modo equilibrado, não sendo meros ouvintes, mas praticantes da Palavra. E, sendo assim, a religião pura e sem mancha é “assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não deixar se contaminar pelo mundo”.  

O certo é que o farisaísmo não acabou com os fariseus e ainda hoje continua armando ciladas, propondo um jeito de viver a fé que não corresponde ao que a Palavra e a Igreja nos ensinam.  Façamos como a Virgem Maria, que guardou no coração a Palavra e gerou o mais belo fruto, seu Filho e nosso Salvador, Jesus de Nazaré. 

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