A solenidade de Pentecostes, celebrada por nós 50 dias após a Páscoa (daí seu nome: penta = cinco), é o coroamento do mistério pascal, revelando a todos os povos o mistério oculto desde os séculos, mas que agora reúne todas as línguas na profissão da única fé. Pentecostes não é um fato do passado, mas o cotidiano da Igreja, pois Ele é o protagonista da missão.
Nesta solenidade, celebramos a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos e Maria Santíssima (cf. At 1,14), reunidos no Cenáculo (cf. At 2,1-13); nele, a Igreja nascente faz a experiência do cumprimento da promessa do Espírito Santo feita por Jesus (cf. At 1,4-5.8; Lc 11,13; Jo 3,5-6; 14, 17.26 etc.); já predita por João Batista (cf. Mt 3,11; Mc 1,8 e Lc 3,16) e pelos profetas (cf. Is 32,15-20; Ez 37,14 e Jl 2,28ss).
Pentecostes, no Antigo Testamento (cf. Ex 23,16; Lv 23,15-21), era uma das três festas de peregrinação ou festas da colheita, celebrada no fim de sete semanas a partir do segundo dia de “pessach” (Páscoa)1, na qual celebrava-se os frutos da colheita, mas principalmente, o momento da revelação do Decálogo a Moisés e aos israelitas, no Monte Sinai2. Nesse dia, nas sinagogas, decoradas com flores e plantas para lembrar que o Sinai, seco e árido, se revestiu de flores e vida no momento da revelação de Deus, se fazia a leitura do Decálogo (Dez Mandamentos) ao povo.3
Na Nova Aliança, porém, Pentecostes toma novo sentido. João Batista e Isaías diziam que o Messias seria portador do Espírito (cf. Is 11,1-3; 42,1-6; Lc 3,16), e Jesus, ungido pelo Espírito em seu batismo, fez a promessa: “Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará um outro Consolador, para estar convosco para sempre, o Espírito da verdade” (Jo 14,16). Ele afirma que o Espírito ensinará todas as coisas e recordará tudo quanto ensinou (cf. Jo 14,26), dará testemunho Dele (Jo 15,26) e guiará para toda a verdade (cf. Jo 16,12s), recebendo do que é Dele (cf. Jo 16,14), isto é, tanto a Palavra – Jesus é a Palavra encarnada – quanto os frutos da redenção operada por Ele na história. Mediante o Mistério Pascal, Jesus se dá ao Pai e é dado pelo Pai aos homens. Jesus se dá de uma maneira nova aos apóstolos e à Igreja, no dom do Espírito, Pessoa-Dom (cf. São João Paulo II. Dominum et vivificantem 23). O Espírito, por sua vez, atualiza e interioriza a obra de Cristo em nós.
Os fatos e imagens descritos nos Atos dos Apóstolos (cf. At 2) levam a cumprimento aquilo que no Antigo Testamento o Pentecostes apontava: a Lei, entregue por Deus a Moisés no Sinai em tábuas de pedra (cf. Ex 19-20), agora é escrita no coração daqueles que adorarão o Pai em espírito e verdade (cf. Jo 4,23); no Sinai, só Moisés possui o espírito profético e só a ele Deus se manifesta, mas agora o Espírito Santo é derramado sobre todos os discípulos e faz neles Sua morada; o Sinai revestiu-se de vida quando o Senhor se manifestou, mas agora o Espírito insufla a vida no Corpo de Cristo, a Igreja, e faz florescer seus dons para que ela seja testemunha do Ressuscitado e sinal do Reino de Deus no mundo.
Com Pentecostes nasce a Igreja missionária. Os discípulos venceram o medo e anunciaram com destemor a Boa-Nova (cf. At 2,14ss). Ao contrário de Babel, em que as línguas se dividiram (cf. Gn 11,5-9) e os povos se dispersaram, em Pentecostes todos compreendem o anúncio das maravilhas de Deus (cf. At 2,3-6) e são chamados a viver em comunhão, como prenúncio da fraternidade plena na Jerusalém celeste, onde Deus, que é amor, será tudo em todos.
Assim como os apóstolos, nós recebemos “a força para anunciar a novidade do Evangelho com ousadia (parresia), em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contracorrente” (EG 259). Ungidos pelo Espírito, que recebemos no Batismo e na Crisma, tornamo-nos testemunhas de Cristo (cf. At 1,8) e a Igreja precisa de evangelizadores com espírito que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo (cf. EG 259). Peçamos a Ele, o Pai dos Pobres, que venha em socorro de nossa fraqueza (cf. Rm 8,26) e distribua seus dons, que são para o bem comum (cf. 1Cor 12,7), a edificação do Corpo de Cristo e o crescimento do Reino de Deus: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor!”
1 Cf. Alan UNTERMAN. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 1992, p. 206 (cf. verbete “Pessach”).
2 Idem, p. 206.
3 Idem, p. 206.




