Famílias e COVID-19: cuidar, com amor e sem medo

Uma indicação recente para que as famílias evitassem a gravidez neste período de pandemia reacendeu o debate sobre o combate à COVID-19 frente à autonomia individual e à prática das próprias convicções pessoais e religiosas. Diante da nova polêmica, O SÃO PAULO apresenta nesta edição uma reportagem especial, com vários artigos sobre esse tema.

Diante das dificuldades enfrentadas pelo Sistema Nacional de Saúde, sobrecarregado pelas vítimas da pandemia, das incertezas sobre as possibilidades de contágio e as consequências da doença, é natural que uma certa apreensão se difunda entre as famílias e os gestores da saúde pública. Essa é, contudo, uma oportunidade para que todos nós cresçamos num justo discernimento cristão diante dos acontecimentos, nem sempre agradáveis, que marcam nossa existência.

A sabedoria cristã nos convida à precaução e ao cuidado com a vida, não ao medo do sofrimento e da morte. São duas posturas diametralmente opostas, ainda que – na confusão moral e existencial que caracteriza nossa sociedade – uma coisa seja frequentemente confundida com a outra.

A precaução e o cuidado, quando bem entendidos, nos levam a uma postura proativa, nos ensinam a amar mais a vida, a descobrir a ternura e a compreender a realidade do nosso próximo. O medo nos paralisa, nos fecha em nós mesmos, gera insegurança, violência e confusão.

Procurar adequar o número de filhos à realidade familiar e planejar os nascimentos para períodos adequados é um cuidado justo a ser tomado pelo casal (cf. Amoris laetitia, AL 222). O Catecismo da Igreja Católica sublinha tanto o valor da fecundidade quanto a possibilidade da “regulação da procriação”, se orientada por uma justa atitude responsável e não pelo egoísmo (CIC 2366-2371). Desde a Humanae Vitae, de São Paulo VI, a Igreja indica que os chamados “métodos naturais” representam a via adequada para essa regulação (HV 16). São João Paulo II mostrou a importância dessa postura para o amor e a comunhão no seio da família (Familiaris consortio, FC 33-35).

Essa é uma postura totalmente diferente do medo que nos fecha à vida e não consegue confiar em Deus e ter uma real esperança. Para quem se deixa determinar pelo medo, o inesperado é sempre ameaçador, nunca uma oportunidade de experimentar os dons de Deus, seu amor e sua ternura por nós.

A pessoa de fé está acostumada com o fato de que a intervenção de Deus acontece frequentemente de forma inesperada, que a vida deve ser planejada à luz dos imprevistos pelos quais Ele se manifesta. A insegurança e o medo são, justamente, a negação dessa possibilidade. Levam a um falso planejamento, que inicialmente supõe que o ser humano pode dar conta do próprio futuro, para depois se frustrar diante dos acontecimentos inesperados que inevitavelmente ocorrem – e a COVID-19, em particular, foi, para a maior parte da população mundial, o maior imprevisto ocorrido em gerações.

Cuidar de nós mesmos, de nossas famílias e de todos aqueles que estão sob nossa responsabilidade, com precaução, mas sem medo, é o caminho justo ao qual todos nós somos chamados nesse tempo de pandemia. Nele, aprendemos a confiar cada vez mais em Deus, a planejar sem nos perdermos nos imprevistos e até mesmo nas catástrofes. Descobrimos, ou redescobrimos, que na família e no mundo, a pessoa se realiza na doação e no amor aberto a todos, não no egoísmo e no individualismo.

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