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Ama mais quem dá a vida por um amigo

Numa conversa, um amigo afirmou não ver ajuda alguma da Igreja Católica aos milhares de afligidos pela pandemia de COVID-19. Ele insistia, durante a discussão, que a Igreja se limitava a não atrapalhar, retomando atividades, evitando aglomerações. No entanto, não verificou, nos quatro meses iniciais, qualquer outra ação significativa. Nenhuma doação em dinheiro ou investimento. Querido amigo, gostaria de pedir-lhe um minuto de seu precioso tempo para, juntos, fazermos uma pequena análise que ajude a opinar melhor sobre o tema.

Em primeiro lugar, existe uma infinidade de entidades católicas que estão se dedicando a ajudar as pessoas em dificuldade neste tempo de pandemia e quarentena – principalmente as pessoas mais pobres. A Igreja no Brasil, por exemplo, por meio de sua ampla rede de fiéis, vem se mobilizando mediante a coleta de alimentos, roupas, calçados, medicamentos e oferecimento de abrigo e apoio espiritual para mais de meio milhão de pessoas. Na Região Norte, em resposta a uma provocação do Papa Francisco, bispos e religiosos apoiam o atendimento à saúde de ribeirinhos, superando 45 mil atendimentos!

Arte: Sergio Ricciuto Conte
Arte: Sergio Ricciuto Conte

Além disso, como ocorreu em outras pandemias ou situações emergenciais ao longo da história, nesta pandemia há, fundamentalmente, três tipos de pessoas que arriscam a própria vida para ficar junto com os doentes. Percebi esse fato revisitando, por exemplo, o que ocorreu com a epidemia de ebola, no continente africano. Esses tipos de pessoas são: parentes, médicos e/ou agentes da saúde, religiosos.

Os primeiros, ligados por laços de sangue e afeto, às vezes conscientes dos riscos, outras vezes não, decidem ficar junto com os doentes até o último momento. Os segundos, ligados por obrigações profissionais, escolhem manter-se próximos – ou são obrigados a isso –, ofertando seus conhecimentos, habilidades e trabalhos para favorecer o restabelecimento da saúde ou proporcionar uma morte digna aos doentes. Por fim, os religiosos, e aqui podemos acrescentar os voluntários não ligados a qualquer igreja, mas a ONGs nacionais ou internacionais, que, deliberadamente, ainda que com variados graus de consciência, entregam seu tempo para acompanhar, auxiliar, mobilizar, dar conforto emocional e existencial aos enfermos durante a doença.

Ora, não é verdade que “ama mais quem dá a vida por um amigo”? (Jo 15,13). A atual pandemia trouxe a angustiante situação, em vários países e circunstâncias, de parentes não terem sequer o direito de visitar ou acompanhar as exéquias de seus familiares. Por outro lado, reconhecemos o heroísmo dos profissionais da saúde, especialmente enfermeiros e técnicos, que passam horas ao lado dos enfermos, conscientes dos riscos que essa superexposição pode acarretar à sua saúde, além das consequências em suas próprias famílias. Não é assombroso, portanto, reconhecer que, não fosse por obrigação profissional, ou tendo a possibilidade de continuar o trabalho em melhores condições, tais profissionais escolhessem não se expor ou arriscar a vida!

A Igreja, como organismo vivo, terá desempenhos distintos em cada região. Além das iniciativas concretas já listadas, contudo, durante os quatro meses de pandemia da COVID-19, dezenas de religiosos e religiosas perderam suas vidas, muitos deles ainda em pleno exercício de suas funções clericais. Como ocorreu outras vezes na história, leigos e religiosos entregam a vida pelos doentes. É certo que muito ainda se pode e se deve fazer. Talvez, porém, não seja a quantidade que determine o valor do ato, senão seu significado de amor e entrega verdadeiros.

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