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Lições de um ano em que o catolicismo esteve no centro da mídia

Há muitos anos, perguntei a um bom amigo, militante político nascido de família agnóstica, sem vínculo religioso, o que ele acreditava que a Igreja deveria fazer pelo bem do povo. “Converter as pessoas”, respondeu. “Vejo que as pessoas precisam de Deus. Se os católicos – que são sérios e bem-intencionados – não responderem a essa necessidade, outros se aproveitarão, com má-intenção, dessa necessidade de Deus vivida pelo povo”, explicou.

Encontrei muitos ateus como ele, de coração sincero, que vivem na soleira da porta, sem entrar na Igreja. Rezo para encontrá-los no céu, pois isso depende da graça de Deus e da liberdade deles. Mas meu tema não é esse, e sim a repercussão midiática que a Igreja vem tendo, desde a morte de Francisco (21 de abril de 2025), com o início do pontificado de Leão XIV. Muitos se perguntavam (e continuam se perguntando): qual o destino do catolicismo “pós-Francisco”?

Não faltou quem visse – com razão – a tentativa de instrumentalizar ideologicamente a Igreja, deturpando os seus ensinamentos. Sem negar este fato e a necessidade de um justo esclarecimento sobre os pontos fundamentais do Magistério, parece-me importante rever esse interesse a partir da declaração do meu amigo ateu. As pessoas têm sede de Deus. Não só: tem sede de uma comunidade que os acolha em nome de Deus. E Ele, em seu grande amor, por meio da Igreja, se dignou a oferecer esta companhia humana, com todas as imperfeições e ambiguidades que isso implica, para que pudéssemos experimentar seu carinho.

Em todas as contradições e ambiguidades do ano que passou, gregos e troianos queriam sempre a concordância da Igreja com suas ideias, queriam se saber acolhidos e amados. É o drama do ser humano: nasceu para ser amado e sofrerá toda vez que não sentir esse amor. Pior ainda nestes tempos, nos quais os “mestres da suspeita” nos ensinaram a duvidar de todo amor humano, uma vez que é sempre ambíguo. A disputa ideológica em torno dos ensinamentos da Igreja não é tanto uma questão de poder, mas de descobrir-se amado. Meu amigo ateu tinha razão: quando a pessoa não encontra o verdadeiro amor que dá sentido à sua vida, se torna alvo fácil do poder e das manipulações ideológicas.

Podemos assumir duas posições diante das não poucas contradições e armadilhas que o catolicismo tem experimentado nestes tempos atuais. Em uma, ocupar-nos-emos com os erros e as possíveis manipulações ideológicas ocorridas. Nosso “outro” será, então, o manipulador e o ideólogo. Nosso caminho passará, inevitavelmente, pela raiva e pela disputa do poder midiático. Na outra postura, contemplaremos a maravilha dessa sede por Deus, que habita o coração mais insuspeito… Teremos, então, um “próximo” que será alguém que procura, nem sempre da forma adequada, pelo seu bem e o bem do mundo. Nosso caminho passará, se formos fiéis, pela comoção dos que contemplam a ternura de Deus, mesmo em meio aos pecados humanos. Muito provavelmente, perderemos o poder midiático – afinal, Deus não reservou o poder nem mesmo para o Filho, destinado à morte na cruz, mas ganharemos a ternura do Pai…

Este ano nos deixa uma grande missão. Alguns dirão que é aquela de corrigir os desvios ideológicos que a mídia e/ou os influenciadores estão criando. Prefiro a hipótese de que a missão é viver e mostrar com mais radicalidade a alegria de conhecer o amor de Deus. Afinal, de que vale ganhar o mundo inteiro, se perdermos a comoção deste amor? O que poderíamos ganhar em troca da nossa alma (cf. Mt 16,26)? Não podemos perder de vista a primeira posição, mas sabendo que o caminho tipicamente cristão é a segunda.

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