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O grito

São tantos os gritos da nossa sociedade, daqueles que clamam por pão e por paz; por amor e solidariedade; por justiça e equilíbrio social. São gritos dos pobres, dos marginalizados, dos esquecidos, mas também dos ricos e abastados. O grito é de toda a humanidade. 

São os gritos dos solitários, dos amargurados e desesperançados, que querem ser ouvidos, ou que gritam sem nem mesmo se aperceber. Gritos dos injustiçados, dos sem-teto, dos sem-alimento, dos que têm medo de viver em um mundo no qual uma dezena dos ricos acumulam o equivalente ao que está dividido entre metade da população mundial. 

Sim, tem o “grito”, de quem nem percebe que está gritando, pois, tudo tem e, ao mesmo tempo, de tudo sente falta: sem rumo certo, sem um ideal de vida que oriente e possa conduzir uma vida plena. 

O Papa Leão XIV, recentemente, em sua catequese centrada na experiência de Jesus Crucificado, lembrou que “na cruz, Jesus não morre em silêncio”, mas “deixa a sua vida com um grito” e que “este grito abrange tudo: dor, abandono, fé e oferenda. Não é apenas a voz de um corpo que cede, mas o sinal máximo de uma vida que se entrega.” 

E continua o Papa: “Se o nosso grito for verdadeiro, pode ser o limiar de uma nova luz, de um novo nascimento. Como foi para Jesus: quando tudo parecia terminado, a salvação estava, na verdade, prestes a começar. Se expressada com a confiança e a liberdade dos filhos de Deus, a voz angustiada da nossa humanidade, unida à voz de Cristo, pode tornar-se fonte de esperança para nós e para os que nos rodeiam.” 

O grito “Meus Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” ecoa como a entrega total Dele no ápice da Sua missão. A missão de Jesus é a nossa missão e, portanto, nenhum grito deve ficar sem resposta, como não ficou o grito de Jesus na cruz. Ele gritou o abandono, e no ato entregou Sua vida ao Pai: “Aba, nas tuas mãos entrego meu espírito.” 

É com esta confiança sem medidas que podemos agir para responder, no dia a dia, com as nossas vidas, a cada grito da humanidade: sendo missionários da esperança, da acolhida, do saber escutar, de ter um olhar atento. Ser missionário é estar ao lado de cada pessoa que nos passa ao lado nesta grande cidade de São Paulo. Acolher, acolher sempre, com o coração aberto, é o primeiro passo da missão. Ouvir é uma grande missão. 

Jesus é o crucificado, é o abandonado. Esse abandono que cada um de nós pode sofrer. E Deus, escolheu a dor, o abandono, como elo que liga a toda a humanidade. E nos deu, de imediato, a resposta: confiança no seu Amor. 

A descoberta de Deus Amor e que Ele nos ama imensamente, a cada um, individualmente, com a mesma intensidade do Amor do Criador, é a grande descoberta que podemos fazer em nossas vidas, e responder, com o amor ao próximo, com a maior intensidade que possamos conseguir. 

Com solidariedade, escuta, atenção, podemos acolher os gritos da cidade de São Paulo, e sermos testemunhas de que Deus habita esta cidade. 

Comentários

  1. Obrigado, Luis Pierre!
    Obrigado por lembrar desse momento crucial da nossa salvação. Foi ali na cruz que Cristo nos ensinou que devemos gritar, sim… gritar por todos os que foram silenciados pelas injustiças.
    Obrigado, por me recordar que eu também posso gritar e unir-me a tantos outros que precisam ser ouvidos.

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