Charles de Foucauld: um santo contemporâneo

O sacerdote e missionário francês Charles de Foucauld será proclamado santo; assassinado em 1916, ele viveu em nosso tempo

Charles de Foucauld, imagem de arquivo (Acervo: Vatican News)

Nascido em Estrasburgo, na França, no dia 15 de setembro de 1858, Charles de Foucauld foi sacerdote e missionário, “irmão universal”, como ele mesmo se definia.

O “irmão Charles de Jesus” está prestes a ser canonizado após Papa Francisco reconhecer um milagre atribuído à sua intercessão.

O futuro santo tem como origem um lar católico e abastado. Aos 6 anos, ficou órfão de pai e mãe, por isso, ele e a irmã foram cuidados e educados pelo avô materno, o coronel Beaudet de Morlet.

Dentre suas características, a timidez se destacava. Ele era também inteligente e nutria paixão pela leitura. Chegou, inclusive, a estudar com os jesuítas nas cidades de Nancy e em Paris.

Na adolescência, entre os 15 e 16 anos, se distanciou da fé, passando anos imerso na vida mundana. Aos 20 anos, a exemplo do avô, deu início à carreira militar em Saint-Cyr (principal academia militar francesa), onde permaneceu por apenas seis meses, pois foi expulso por má conduta.

Embora demostrasse paixão pelos estudos e também grande força de vontade e capacidade inata de superação, ele era muito boêmio. Chegou a ter uma jovem como amante, a quem ele apresentava como sua legítima esposa.

Posteriormente, Foucauld teve uma segunda experiência militar, na qual foi enviado ao sul da Argélia, continente africano, para apaziguar uma rebelião entre os habitantes. No entanto, ao retornar para a França, depois de quatro anos, renunciou, passando a viajar para explorar países e conhecer pessoas.

De volta ao Cristianismo

Entre 1883 e 1884, durante uma viagem perigosa para os cristãos ao Marrocos, no norte da África, Charles de Foucauld, se passando por religioso judeu, experimentou uma profunda conversão após testemunhar a religiosidade dos muçulmanos.

Esse contato conduziu Foucauld a questionamentos sobre Deus, dentre eles, a pergunta “Deus existe?”. Ele ficou impressionado com a devoção islâmica e como os muçulmanos levavam a sério sua religião enquanto ele tinha desperdiçado a vida e o dinheiro com aventuras.

Além de Marrocos, percorreu parte de outros dois países do continente africano, como a Argélia e Tunísia. Realizou, também, importantes trabalhos cartográficos, como a obra Reconnaissance au Maroc (Reconhecimento em Marrocos na tradução livre) que lhe rendeu a medalha de ouro da Sociedade Francesa de Geografia, em 1885, no auge dos seus 27 anos.

Ao retornar à França, o beato teve a chama da espiritualidade acendida ao compreender a fé cristã de sua família.

Em 1886, entrou em contato com o Padre Huvelin, de Paris, com quem pretendia debater sobre religião. Ao encontrar o sacerdote, se confessou e comungou, voltando ao Cristianismo em outubro daquele ano, aos 28 anos de idade.

A descoberta da vocação

Firme nos ensinamentos da Igreja Católica, em 1888, ouvindo o conselho do Padre Huvelin, embarcou, em peregrinação, à Terra Santa para aprofundar sua fé.

Em Nazaré, ao conhecer os lugares onde Cristo viveu, descobriu sua vocação. E assim, quis se tornar monge, imitando Jesus ao se dedicar a uma vida em oração e no silêncio.

Ainda sob a orientação do Padre Huvelin, ingressou na Trapa, Ordem de vida austera nascida, na França do século XVI, e aprovada pelo Papa Leão XIII, no século XIX. Durante sete anos, morou em diferentes mosteiros trapistas.

Em 1897, optando por viver uma vida simples, pobre, recolhida, orante e trabalhadora como foi a de Jesus em Nazaré, retirou-se em oração e adoração junto às monjas Clarissas de Nazaré. Despertou, então, em Foucauld, o desejo de ser eremita (monge solitário) e contou com a aprovação do Padre Huvelin.

Charles de Foucauld (Acervo: Vatican News)

Ordenação e atuação

Charles de Foucauld, após ter se preparado no mosteiro de Notre-Dame des Neiges, foi ordenado sacerdote em 1901, aos 43 anos. Embora sua ordenação tenha sido para a Diocese de Viviers, na França, obteve licença para morar na África, onde se dedicou ao trabalho missionário baseado no diálogo com o Islã e na luta contra a escravidão.

Logo que foi ordenado, seguiu como missionário à Argélia, onde se estabeleceu entre os nativos Beni Abbes, pobre entre os mais pobres. Depois, foi transferido para o coração do deserto do Saara se situando entre a população Tuareg, na aldeia de Tamanrasset.  Por lá, além de evangelizar os povos do deserto, comprava escravos para libertá-los.

O “irmão Charles de Jesus” escreveu diversos livros sobre a cultura dos tuaregues e de outros povos saarauís. Como eremita-sacerdote, buscou evangelizar por meio do exemplo e da caridade. Além de ler e meditar, ainda traduzia os Evangelhos para o idioma dos tuaregues da região.

Em 1909, Padre Charles constituiu a União de Irmãos e Irmãs do Sagrado Coração, com a missão de evangelizar as colônias francesas no continente africano. Sua missão foi reconhecida pelos povos berberes, maioria no noroeste da África, como provedora de sentimentos amigáveis ​​em relação aos franceses.

Morte e beatificação

Padre Charles de Foucauld morreu aos 58 anos, em 1º de dezembro de 1916, em Tamanrasset, região do Saara, na Argélia. Ele foi assassinado por um bando de saqueadores de passagem. Em 13 de novembro de 2005, o Papa Bento XVI o beatificou.

Ao longo de sua vida como sacerdote e missionário, Charles de Foucauld se manteve fiel à Igreja na obediência ao Bispo e ao Padre Huvelin, seu diretor espiritual. Sua memória é celebrada em 1º de dezembro.

Por todo o mundo e em muitas ramificações, se encontram filhos e filhas espirituais de Charles de Foucauld que tentam seguir seu exemplo de fé, oração, trabalho, estudo, simplicidade, caridade e muito amor à Igreja. Do seu carisma, surgiram dez congregações religiosas e oito associações de vida espiritual.

Pronunciamentos de 3 papas recentes sobre Charles de Foucauld

Em 2001, ano do centenário de ordenação sacerdotal de Charles de Foucauld, o São João Paulo II escreveu ao Dom François Blondel, bispo de Viviers: “Enquanto dou graças pelo testemunho do Padre Charles de Foucauld, encorajo todas as pessoas que hoje se inspiram no seu carisma a continuar o seu apostolado numa unidade cada vez maior entre os diferentes Institutos, e a seguir, com generosidade e audácia, a sua mensagem e o seu exemplo” (Carta de 8 de Abril de 1905, ao Abade Caron, 49).

Anos depois, em 2007, Papa Bento XVI afirmava aos Bispos da Conferência Episcopal do Norte da África que “o encontro fraterno dos homens e das mulheres entre os quais viveis é um dos temas que vos apraz desenvolver para expressar a missão da Igreja na vossa região. Nesta perspectiva, encorajo-vos vivamente a guiar os fiéis para um encontro autêntico com o Senhor” […] (cf. Ad gentes, 11).

“Para esta finalidade, como a viveu intensamente o Padre Charles de Foucauld, que as vossas Igrejas diocesanas tiveram a alegria de ver beatificado há alguns meses, possa a Eucaristia ser o centro da vida das vossas comunidades” (9/6/2007, online), acrescentou Bento XVI.

O Papa Francisco tem se referido com frequência com grande apreço e devoção ao Beato Charles de Foucauld. Na encíclica Fratelli tutti, n. 286-287, voltou a relembrar o eremita do Saara ao escrever: “quero terminar lembrando uma outra pessoa de profunda fé, que, a partir da sua intensa experiência de Deus, realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos. Refiro-me ao Beato Charles de Foucauld. O seu ideal duma entrega total a Deus encaminhou-o para uma identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano”, disse o Santo Padre.

“Naquele contexto, afloravam os seus desejos de sentir todo o ser humano como um irmão, e pedia a um amigo: ‘Peça a Deus que eu seja realmente o irmão de todos’. Enfim queria ser ‘o irmão universal’. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos. Que Deus inspire este ideal a cada um de nós”, afirmou Francisco.

(Com informações de acidigital, ACI Prensa, Aleteia e Vatican News)

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