Lista Mundial da Perseguição 2025 revela cenário alarmante para cristãos

Relatório divulgado pela Missão Portas Abertas expõe os desafios enfrentados por milhões de cristãos ao redor do mundo

Um pódio nada desejável em forma de lista. Assim é possível definir o documento publicado pela Missão Portas Abertas, no dia 15, a Lista Mundial da Perseguição 2025 (LMP). Os primeiros lugares são ocupados pela Coreia do Norte, Somália e Iêmen, e ao contrário de medalhas, os três países ganham o título de lugares mais difíceis do mundo para viver a fé cristã. 

A Lista é elaborada pelo departamento de pesquisa da Missão Portas Abertas, uma organização cristã internacional fundada em 1955, que tem como missão apoiar cristãos perseguidos em todo o mundo. Publicada anualmente desde 1993, a LMP monitora e mede os níveis de perseguição enfrentados por cristãos em diversos países. O levantamento que embasa o relatório é auditado pelo Instituto Internacional pela Liberdade Religiosa (International Institute for Religious Freedom – IIRF), conferindo maior credibilidade aos dados apresentados. 

PRINCIPAIS CONCLUSÕES 

Além de enumerar os 50 países com maiores índices de perseguição, o documento também traz dados alarmantes sobre a situação global. Segundo o levantamento, mais de 380 milhões de cristãos enfrentam altos níveis de perseguição e discriminação devido à fé em Jesus. Em termos comparativos, isso significa que um a cada sete cristãos é perseguido no mundo. 

A Nigéria lidera em número de mortes de cristãos, com 3.100 casos registrados, o que representa 69% do total global. Além disso, mais de 200 mil cristãos foram forçados a fugir de suas casas ou países. Muitos não conseguiram escapar da opressão, e o relatório denuncia que 3.775 pessoas estão desaparecidas ou foram sequestradas. 

O relatório destaca que os números reais podem ser ainda mais elevados, pois a falta de registros e o medo de denunciar torna impossível dimensionar plenamente a situação. 

UM AUMENTO SIGNIFICATIVO DE 2024 PARA 2025 

Ao comparar o relatório publicado em janeiro de 2024 com a edição mais recente, observa-se um cenário preocupante. Embora o número de cristãos mortos por questões relacionadas à fé tenha diminuído de 4.998 para 4.476, outros indicadores mostram piora. 

O número de pessoas que sofrem violência física e psicológica, incluindo ameaças de morte, aumentou significativamente. São 54.780 casos registrados em 2025, comparados a 42.849 no ano anterior. Da mesma forma, casos de violência sexual ou casamento forçado com não cristãos cresceram 28%, com 3.944 relatos em 2025 contra 3.231 em 2024. 

Além disso, houve um aumento de 15% no número de cristãos presos, condenados ou detidos sem julgamento. O total de detenções sem julgamento passou de 3.329 para 3.604, enquanto as condenações subiram de 796 para 1.140. 

‘UM PREÇO ÁRDUO POR SER CRISTÃ’ 

O primeiro lugar é ocupado pela Coreia do Norte. Segundo o relatório, ser descoberto como cristão neste país é efetivamente uma sentença de morte. Caso não sejam mortos, os cristãos são enviados para campos de trabalho forçado como prisioneiros políticos, nos quais enfrentam uma vida de trabalho duro a que poucos sobrevivem. Os membros da família, mesmo que não sejam cristãos, recebem o mesmo destino. 

“Eu conheço os riscos envolvidos. Se eu for pega, posso acabar em um campo de trabalho forçado, pagando um preço árduo por ser cristã”, compartilha Joo Min (pseudônimo), cristã norte-coreana. 

Na Somália, segundo país do ranking, o grupo extremista islâmico Al-Shabaab está em guerra com o governo e controla grandes áreas do país. Esse grupo aplica uma forma estrita da sharia (conjunto de leis islâmicas) e está comprometido em erradicar o Cristianismo da nação. Os perigos aumentaram ao longo dos anos, à medida que os militantes se concentram cada vez mais em encontrar e eliminar líderes cristãos. 

Neste país, a conversão a outras religiões é proibida, e até mesmo uma suspeita de que uma pessoa tenha deixado o Islã para seguir a Jesus pode resultar em prisão domiciliar, casamento forçado, rituais islâmicos forçados ou até mesmo morte. Esses fatores fazem da Somália um dos lugares mais perigosos do mundo para ser cristão. 

No terceiro lugar na LMP está o Iêmen. Dividido pela guerra civil, o país tem territórios governados por três poderes diferentes, enquanto algumas áreas são controladas por grupos extremistas como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Nenhum dos poderes envolvidos tolera os cristãos, e a Constituição oficial mantém a sharia como lei, sem liberdade religiosa alguma. 

COMO É DEFINIDA A LISTA 

A Missão Portas Abertas usa uma metodologia própria para monitorar a perseguição a cristãos em 150 países. Essa análise é feita por um sistema de pontuação que avalia a violência e a pressão enfrentadas pelos cristãos. O sistema mede incidentes violentos e o grau de pressão em cinco áreas da vida: vida pessoal, família, comunidade, nação e igreja. 

Cada área pode somar até 16,7 pontos, e a soma define a pontuação do país em uma escala de 0 a 100. Com base na pontuação, o nível de perseguição é classificado como extrema (81-100 pontos), severa (61-80 pontos) ou alta (41-60 pontos). Os 50 países com as pontuações mais altas entram na Lista Mundial da Perseguição (LMP). 

Embora o ranking seja limitado a 50 países, muitos outros com pontuação acima de 41 também enfrentam perseguição significativa. Esses países são incluídos na Lista de Países em Observação, reforçando a necessidade de atenção e apoio. 

ESPERANÇA NA ORAÇÃO 

Burkina Faso, localizado no norte da África, ocupa a 20ª posição no ranking da Lista Mundial da Perseguição, destacando-se pelo rápido aumento dos ataques extremistas. Nos últimos anos, o país subiu várias posições na lista devido à intensificação da violência promovida por grupos islâmicos radicais, que já forçou milhares de cristãos a fugirem de suas casas. Até mesmo cidades antes consideradas seguras estão agora sob constante ameaça. 

Em entrevista ao jornal O SÃO PAULO, Padre Jean Baptista, responsável pela Rede Immaculée, a única rádio e TV católica do país, compartilhou a realidade de ser cristão em Burkina Faso. “Sabemos que o perigo está próximo e que um ataque pode acontecer a qualquer momento, mas nossa missão é transmitir esperança. É isso que faço como padre e por meio da rádio e da TV. Se o povo não tiver esperança, não consegue sobreviver ao que está acontecendo.” 

Eliane Maggio da Silva, fiel da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Vila Bonilha, região Brasilândia, refletiu sobre a situação de perseguição enfrentada pelos cristãos e o papel dos fiéis diante desse cenário: “Às vezes, ficamos fechados em nossa paróquia e, como isso não acontece aqui, acabamos não nos preocupando de verdade. Precisamos ampliar nossa visão, porque eles são cristãos como nós. Devemos rezar por eles para que não percam a esperança e mantenham a fé.” 

“ELES NÃO SE DEIXAM EXECUTAR POR FRAQUEZA” 

Por ocasião da festa de Santo Estêvão, no dia 26 de dezembro de 2024, o Papa Francisco ressaltou a importância daqueles que entregam suas vidas pela fé. “Infelizmente, ainda hoje, em várias partes do mundo, muitos homens e mulheres são perseguidos, às vezes até a morte, por causa do Evangelho. Também para eles vale o que dissemos sobre Estêvão. Eles não se deixam executar por fraqueza, nem para defender uma ideologia, mas para tornar todos participantes do dom da salvação. E fazem isso, em primeiro lugar, precisamente para o bem dos seus algozes, dos seus assassinos, e rezam por eles”. 

A Lista Mundial da Perseguição 2025 e a descrição de cada um dos 50 países, assim como o relatório com algumas conclusões relevantes, estão dispníveis no site: portasabertas.org.br

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