
Em uma iniciativa que reflete tanto a urgência tecnológica quanto a ambição pastoral, a Arquidiocese de Seul, na Coreia do Sul, revelou um plano de longo prazo para reestruturar todo o seu ecossistema de informação, posicionando a Inteligência Artificial (IA) no centro de sua missão futura. Anunciada neste mês, a iniciativa sinaliza uma mudança estratégica: da gestão de ferramentas digitais dispersas para a construção de uma infraestrutura pastoral integrada e orientada por dados.
Denominado Projeto Carlo, a escolha do nome é deliberada: São Carlo Acutis (1991–2006) tornou-se um símbolo global da evangelização digital, uma vez que sua figura personifica uma síntese que a Igreja busca ativamente hoje: fidelidade à tradição aliada ao domínio das tecnologias emergentes.
Em termos operacionais, o desafio que Seul enfrenta não se resume à inovação, mas sim à consolidação. Ao longo dos anos, a Arquidiocese desenvolveu diversos sistemas digitais — serviços de notícias, ferramentas de gestão paroquial, plataformas administrativas diocesanas e uma ampla gama de sites departamentais. Esses sistemas, contudo, evoluíram em paralelo, e não de forma coordenada, resultando em conjuntos de dados fragmentados que limitam tanto a eficiência quanto a capacidade de resposta pastoral.
As informações sobre programas de catequese, atividades de voluntariado e participação na vida paroquial permanecem em grande parte isoladas. De acordo com o Padre Kim Kwang-doo, Chefe do Departamento de Tecnologia da Arquidiocese, essa fragmentação impede a Igreja de oferecer serviços coerentes e personalizados aos fiéis. No cenário emergente da Inteligência Artificial, essas limitações não são meramente técnicas, mas estruturais. Os sistemas de Inteligência Artificial dependem de dados bem organizados e interoperáveis para funcionar eficazmente. Sem essa base, seu potencial permanece teórico.

O Projeto Carlo busca preencher exatamente essa lacuna. Com início previsto para maio de 2026, a iniciativa desenvolver-se-á em duas fases principais. A primeira se concentra na escuta e na arquitetura. Consultores indicados pela Arquidiocese interagirão diretamente com os paroquianos para avaliar suas necessidades e expectativas, uma medida que reflete uma crescente conscientização no âmbito das instituições da Igreja de que a transformação digital deve ser fundamentada pastoralmente, e não apenas tecnologicamente.
Com base nessas descobertas, a Arquidiocese começará a construir uma plataforma de dados integrada, juntamente com uma reformulação completa de sua presença digital. Fundamental para esse esforço é a renovação do site “Boas Novas”, um portal on-line de longa data fundado em 1998, que se aproxima do seu 30º aniversário. A reformulação, planejada para o período de 2027–2028, visa a transformar o site de um repositório de conteúdo em um centro interativo capaz de oferecer serviços baseados em Inteligência Artificial.
Mais do que transmitir informações, o objetivo a longo prazo é criar sistemas capazes de fornecer respostas e orientações de forma autônoma, adaptando-se às necessidades do usuário em tempo real. Embora os detalhes ainda sejam limitados, a direção é clara: uma transição da comunicação estática para o engajamento dinâmico, no qual as plataformas digitais se tornam extensões do acompanhamento pastoral.

O cronograma do projeto está intimamente ligado a um importante evento eclesial. A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2027, agendada para Seul, deverá atrair um grande número de peregrinos internacionais e contará com a participação do Papa Leão XIV. O Projeto Carlo foi concebido, em parte, para apoiar este evento, não só por meio da melhoria dos sistemas de comunicação, mas também viabilizando iniciativas globais como a campanha “Um Bilhão de Rosários” e a expansão dos programas espirituais on-line. Nesse sentido, o projeto opera na intersecção entre logística e evangelização.
A segunda fase do Projeto Carlo, prevista para o período de 2029 a 2031, estenderá a transformação aos sistemas administrativos da Arquidiocese. Esta etapa visa a modernizar os processos internos, garantindo que as estruturas de governança estejam alinhadas ao novo ambiente digital. Isso reforça a ideia de que a mudança tecnológica em contextos eclesiais muitas vezes exige tanto adaptação institucional quanto implementação técnica.
Fontes: UCA News e Zenit News




