
Em todo o Quênia, uma epidemia silenciosa, porém devastadora, de violência de gênero continua a assolar muitos lares. De acordo com dados do Escritório Nacional de Estatísticas do Quênia, estima-se que 40% das mulheres quenianas entre 15 e 49 anos já sofreram violência física. Apesar desses números, a infraestrutura para proteger essas mulheres é precária.
Diante da escassez de casas de acolhimento formais e financiadas pelo Estado, muitas mulheres vulneráveis que fogem da violência doméstica enfrentam uma dura realidade. Aquelas que tentam denunciar seus agressores frequentemente sofrem estigma por parte dos vizinhos e pressão da família para perseverarem em nome da tradição cultural. Elas também permanecem em silêncio para evitar represálias por parte de seus parceiros.

Diante de tal realidade, pelo menos 10 conventos católicos em todo o Quênia se mobilizaram, transformando suas residências pacíficas em refúgios informais, abrindo suas portas para as sobreviventes. Entre as que lideram essa intervenção estão as Irmãs da Assunção de Nairóbi e as Irmãzinhas de São Francisco.
As Religiosas atuam fora do sistema formal de abrigos do Quênia para evitar a burocracia e proteger o anonimato daquelas sob seus cuidados, redefinindo os limites de seus ministérios religiosos.
“Não podemos pregar o Evangelho da paz e fechar os olhos para mulheres que são oprimidas em seus próprios lares. Quando uma pessoa chega à nossa porta, de madrugada, sangrando, nosso primeiro juramento não é seguir regras ou protocolos, é defender a dignidade humana”, afirmou a Irmã Margaret Wahungu, Superiora-geral das Irmãs da Assunção de Nairóbi.
Dentro dos muros do convento, as Irmãs oferecem refúgio incondicional, abrigo temporário, roupas limpas e refeições quentes. Seu cuidado, porém, vai além da alimentação básica: há também aconselhamento emocional e psicológico intensivo, apoio em alfabetização jurídica e orientação para lidar com o difícil processo de reconstruir uma vida do zero. Além da proteção imediata, as Irmãs se concentram fortemente na reabilitação a longo prazo das sobreviventes. Elas também auxiliam ativamente as mulheres a se reconectarem com segurança com familiares que as apoiam e estão dispostos a protegê-las de parceiros abusivos.
Seu trabalho, no entanto, é repleto de riscos. Operar esses abrigos informais exige total discrição.
Os conventos devem gerir cuidadosamente a sua visibilidade para evitar que maridos enfurecidos localizem as suas esposas e provoquem reações negativas da comunidade ou confrontos violentos.

As Irmãs optam por não divulgar a existência de seus refúgios. A informação sobre a disponibilidade deles se espalha por meio de redes comunitárias de confiança, capelães de igrejas e defensores locais dos direitos humanos.
“É uma cruz pesada, mas é uma cruz que carregamos com alegria”, disse outra religiosa, que preferiu não se identificar e está envolvida na coordenação de uma casa de acolhimento em Nairóbi.
“O desafio é que a demanda é enorme. Para cada mulher que acolhemos, sabemos que existem muitas outras que não conseguem chegar até nós ou que nem sabem que existimos”, afirmou ela.
Fontes: Global Sisters Report e UCA News



