O que explica o atual conflito entre israelenses e palestinos?

Aumento da tensão na região, com ataques violentos e uso de mísseis, já levou à morte dezenas de pessoas e deixou centenas de feridos, instaurando clima de insegurança com os possíveis desdobramentos

Imagem panorâmica de Jerusalém

A delicada relação entre israelenses e palestinos sofreu mais um revés entre a noite de terça-feira, 11, e a manhã de quarta-feira, 12, depois que militares do Hamas – grupo islâmico considerado uma facção terrorista pela União Europeia e pelos Estados Unidos –, sediados na Faixa de Gaza, dispararam mísseis contra Israel, que por sua vez intensificou os contra-ataques aéreos à medida que a agitação se espalhava por cidades e regiões além de Jerusalém.

Os embates já deixaram um rastro de violência e destruição, com 136 civis mortos e mais de 500 feridos, além de muitos desabrigados em decorrência dos bombardeios. 

COMO TUDO COMEÇOU

As recentes mortes de adolescentes israelenses e palestinos em incidentes distintos na região da Cisjordânia já causavam preocupação às autoridades, em virtude do crescente clima de tensão envolvido. Considera-se, no entanto, que o provável desfecho da situação de algumas famílias tenha sido o estopim para a atual onda de hostilidade armada entre as partes.

Assim, o que começou na quinta-feira, 6, como uma série de tumultos contra os planos de despejo dessas seis famílias palestinas em Sheikh Jarrah, um bairro palestino de Jerusalém Oriental, escalou para o lançamento de foguetes da Faixa de Gaza contra Israel e a resposta das forças israelenses com ataques aéreos contra Gaza.

Isso porque é exatamente nesse bairro palestino que um grupo de colonos judeus está reivindicando algumas de suas terras e propriedades em tribunais israelenses — daí a ameaça de despejo de famílias palestinas.

EXPLICANDO A SITUAÇÃO

Para entender essa disputa, temos que voltar a 1948, quando, após a primeira guerra árabe-israelense, Jerusalém foi dividida em duas partes: Jerusalém Oriental, sob controle árabe; e Jerusalém Ocidental, nas mãos de Israel.

A parte oriental de Jerusalém ficou sob controle da Jordânia desde aquele ano até 1967, quando, durante a Guerra dos Seis Dias, Israel assumiu o controle efetivo de toda a cidade.

A cidade velha está localizada em Jerusalém Oriental, onde alguns dos lugares religiosos mais sagrados do mundo estão localizados: a Cúpula da Rocha e a própria mesquita Al Aqsa, dos muçulmanos; o Monte do Templo e o Muro das Lamentações, dos judeus, e a Basílica do Santo Sepulcro, dos cristãos.

“A importância de Sheikh Jarrah reside no fato de ele ser um dos principais bairros palestinos de Jerusalém Oriental. E os palestinos têm reclamado, nos últimos anos, sobre o número crescente de colonos judeus que chegam”, explica Mohamed Yehia, jornalista e editor local da rede britânica BBC.

Sheikh Jarrah é uma área bastante abastada, e vários países estrangeiros, como o Reino Unido, têm ali suas missões diplomáticas.

Foto: ACN

O QUE DIZ A LEI JUDAICA

Na prática, a divisão de Jerusalém em 1948 levou a um cenário em que os palestinos que viviam no oeste e os judeus que viviam no leste tiveram que deixar suas casas.

Por um lado, a chamada Lei de Propriedade Ausente permite que Israel confisque propriedade de palestinos que, segundo Israel, abandonaram ou fugiram de suas casas durante o conflito. Por outro lado, a Lei de Assuntos Jurídicos e Administrativos permite que os judeus que consigam comprovar um título de propriedade anterior a 1948 reivindiquem suas propriedades em Jerusalém.

“Na maioria dos casos, os representantes dos colonos judeus tentam expulsar os palestinos de suas casas, aplicando a lei israelense que permite aos judeus reivindicar a propriedade de casas que eles ou outros judeus possuíam antes de 1948”, explica Yehia.

“A lei israelense permite que judeus reivindiquem propriedade judaica antes da guerra de 1948, mas proíbe os palestinos de recuperarem propriedades que perderam na mesma guerra, ainda que residam em áreas controladas por Israel”, acrescenta.

Isso significa que os palestinos não podem retomar o que eram suas casas na parte oeste da cidade antes de 1948.

CONSEQUÊNCIAS

No caso das famílias palestinas em risco de despejo em Sheikh Jarrah, uma decisão de um tribunal inferior este ano apoiou a reclamação dos colonos, despertando a ira dos palestinos.

A Suprema Corte de Israel deveria realizar uma audiência sobre o caso na segunda-feira, 10, porém a sessão foi adiada devido às agitações.

“O status legal preciso da propriedade da terra está sujeito a uma decisão adiada da Suprema Corte”, acrescenta Yehia. “Era propriedade de judeus antes da guerra de 1948, que deixou Jerusalém dividida. Uma organização de colonos adquiriu o título da terra e iniciou um processo legal para obtê-la, com o plano de instalar colonos judeus.”

O QUE ESPERAR

Para Jeremy Bowen, jornalista galês, ex-correspondente no Oriente Médio e atual editor especialista em assuntos da região e apresentador da rede britânica BBC, o que está acontecendo em Jerusalém, e especificamente em Sheikh Jarrah, é mais do que uma disputa por algumas casas.

Esta, tampouco, é uma disputa nova, já que “é comum o despejo de palestinos para a expansão de assentamentos judeus ou estradas de acesso ou segurança israelense”, explica ele.

No entanto, o que acontece em Sheikh Jarrah simboliza a luta por um dos pontos centrais do conflito israelense-palestino: o destino de Jerusalém Oriental. Israel considera a cidade inteira como sua capital, embora não seja reconhecida como tal pela maioria da comunidade internacional.

Assim, nos últimos anos, o governo israelense e grupos de colonos trabalharam para estabelecer judeus em áreas palestinas próximas à cidade velha. Por sua vez, os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como a futura capital de um estado independente há muito aguardado.

Com informações de CNN Brasil, BBC Brasil, Vatican News e Diário do Nordeste

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