Semana de oração confirma empenho das Igrejas na busca da unidade dos cristãos

Papa reza com líderes cristãos diante do túmulo do Apóstolo São Paulo, em 2019 (Foto: Vatican Media)

Entre as solenidades da Ascensão do Senhor, dia 16, e de Pentecostes, 23, celebra-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC). A iniciativa tem o objetivo de aprofundar o diálogo entre as Igrejas cristãs em vista de um caminho de unidade  e fraternidade entre aqueles que professam a fé em Jesus Cristo.

Embora a SOUC seja celebrada pelos países do hemisfério sul neste período, no hemisfério norte, a semana de oração acontece em janeiro, entre os 18, festa  da Cátedra de São Pedro em Roma, e 25, festa da Conversão de São Paulo.

No Brasil, a inciativa é organizada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), em parceria com as igrejas membro, entre as quais a Igreja Católica. O tema proposto para esse ano é com o tema: “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (cf. João 15,5-9).

A atuação da Igreja pela unidade de cristãos não é recente. Ao longo dos séculos, foram muitas a iniciativas pontuais de diálogo e aproximação entre católicos e comunidades específicas. Mas foi a partir da década de 1960 que se iniciou um caminho ecumênico mais intenso, marcado profundamente pelo Concílio Vaticano II (1962-1965).

Um passo recente nesse âmbito foi a publicação do documento “O Bispo e a unidade dos Cristãos: vademecum ecumênico”, do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, lançado em dezembro de 2020.

O manual aprovado pelo Papa Francisco apresenta diretrizes baseadas em diferentes documentos e textos eclesiásticos sobre o tema e reitera que  os bispos,  enquanto pastores do rebanho, têm a responsabilidade específica de mantê-lo em unidade é “o princípio e fundamento vivível da unidade na sua igreja particular”.

Ecumenismo

O termo “ecumênico” tem sua origem na palavra latina oecumenicus, que significa “geral, universal”, e, por sua vez,  vem do grego oikumenikos, que significa “mundo habitado”. Por essa razão os concílios da Igreja são chamados de ecumênicos, pois reúnem todos os bispos católicos do mundo.

Celebração ecumênica na Catedral Ortodoxa de São Paulo, em 2016 (Foto: Casa da Reconciliação)

Já a palavra “ecumenismo” é empregada para o movimento em favor da unidade dos cristãos, membros do Corpo de Cristo, dispersos pelo mundo e marcados historicamente por divisões que romperam a comunhão plena entre si. Embora essa palavra, às vezes, seja aplicada para designar o diálogo entre diferentes religiões, o ecumenismo não pode ser confundido com o diálogo inter-religioso.

O ecumenismo também não consiste na uniformização das diferentes igrejas, mas no conjunto de esforços de diálogo em vista da unidade.

O caminho de diálogo ecumênico da Igreja Católica tem basicamente duas frentes: com as Igrejas ortodoxas do Oriente, separadas desde o grande cisma de 1054, e com as Igrejas oriundas da reforma protestante do século XVI. Além da das iniciativas de oração em ocasiões especiais, o ecumenismo e expressa concretamente por meio de estudos bíblico-teológicos e na realização de atividades conjuntas de promoção da caridade e socorro humanitário.

Vaticano II

É fruto do Concílio o Decreto Unitates Redintegratio, considerado por muitos teólogos como “a Carta Magna católica do ecumenismo”, pois estabelece as bases doutrinais e as orientações pastorais para o diálogo ecumênico na Igreja Católica.

O documento começa apresentando a restauração da unidade dos cristãos como um dos “principais objetivos” do Concílio frente ao “escândalo”, à “contradição” e ao “prejuízo” que é a divisão da una e única Igreja de Cristo, fala do movimento ecumênico como “obra do Espírito Santo” e explicita a finalidade do documento: “propor a todos os católicos os meios, os caminhos e os modos” para a prática do ecumenismo na Igreja Católica.

Corpo de Cristo

Sobre a relação dos irmãos separados com a Igreja Católica o decreto conciliar sublinha que “aqueles que creem em Cristo e foram devidamente batizados estão constituídos em uma certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja Católica”; não obstante, as “discrepâncias vigentes”, estão “incorporados a Cristo” e, por isso, devem ser “honrados com o nome de cristãos” e reconhecidos como “irmãos no Senhor”. 

Na conclusão, o documento exorta os fiéis “a se absterem de qualquer zelo superficial ou imprudente que possa prejudicar o verdadeiro progresso da unidade”. Por fim, reconhece que “esse santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e os dotes humanos. Por isso, põe inteiramente sua esperança na oração de Cristo pela Igreja, no amor do Pai para conosco e na virtude do Espírito Santo”. 

Na encíclica Ut unum sint, publicada em 1995, na preparação do Grande Jubileu do ano 2000, São João Paulo II, salientou que “o apelo à unidade dos cristãos, que o Concílio Ecumênico Vaticano II repropôs com tão ardoroso empenho, ressoa com vigor cada vez maior no coração dos crentes”. “Cristo chama todos os seus discípulos à unidade”, afirmou o Papa polonês. 

Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu (Foto: Vatican Media)

Irmãos

Desde o início de seu pontificado, a busca da unidade dos cristãos era uma prioridade de Francisco. Em uma série de gestos, encontros, discursos e declarações, o Pontífice continua o caminho traçado por seus predecessores no diálogo ecumênico. 

Uma semana após a sua eleição, o Santo Padre abraçou o Patriarca Ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I, que foi saudá-lo em Roma, e chamou o líder ortodoxo de “André”, reconhecendo-o como legítimo sucessor do apóstolo irmão de Pedro. o Papa Bergloglio repetiu o gesto de São Paulo VI com o Patriarca Atenágoras em Jerusalém, que, em 5 de janeiro de 1964, chamou o Pontífice Romano de “Pedro”. 

Francisco encontrou Bartolomeu em outras ocasiões em Roma, Jerusalém e Istambul, sempre demonstrando uma proximidade e respeito que vão além da formalidade de seus cargos, mas com demonstrações de amizade e fraternidade. Tanto que o Papa reconhece a valorosa inspiração do Patriarca para sua encíclica Laudato si’. Patriarca de Constantinopla desde 1991, Bartolomeu já havia se encontrado com os papas João Paulo II e Bento XVI.

Compromisso comum

O Santo Padre também manifestou proximidade com o Arcebispo Anglicano da Cantuária, Justin Welby, e convidou anglicanos e católicos a trabalharem juntos “para dar voz ao grito dos pobres”.

Outro marco histórico foi o primeiro encontro da história entre um Pontífice Romano e um Patriarca Ortodoxo Russo, em 12 de fevereiro de 2016, em Cuba. Na ocasião, Francisco e Kirill assinaram uma declaração conjunta na qual abordam questões sensíveis às duas Igrejas, lançam um apelo conjunto pela paz e definem os “cristãos vítimas de perseguição” como “mártires do nosso tempo, pertencentes a várias Igrejas, mas unidos por um sofrimento comum”.

Ainda sobre os cristãos perseguidos, o Papa Francisco deu destaque para o que ele chamou de “ecumenismo de sangue”, recordando que “em alguns países, os cristãos são mortos porque carregam uma cruz ou têm uma Bíblia, e antes de matá-los não perguntam se são anglicanos, luteranos, católicos ou ortodoxos”.

Outro passo significativo para a comunhão entre as igrejas foi a participação do Pontífice na recordação dos 500 anos da reforma, em 2016, na Suécia e sua visita à Genebra, em 2018, no 70º aniversário do Conselho Mundial de Igrejas, quando o Bispo de Roma ressaltou que “as divisões entre cristãos se deram porque na raiz, na vida das comunidades, infiltrou-se uma mentalidade mundana”.

Líderes cristãos do Oriente Médio, durante encontro com o Papa Francisco, em Bari, na Itália, em 2018 (Foto: Vatican Media)

Caminho a percorrer 

Na carta sobre os 25 anos da Ut unum sint, Francisco ainda destacou serem visíveis os progressos no maior conhecimento e estima recíprocos, no avanço, no diálogo teológico e caritativo, e em várias formas de colaboração no diálogo da vida, no âmbito pastoral e cultural.

Fazendo memória desse caminho percorrido, o Papa recordou a importância de perscrutar o horizonte, fazendo a pergunta feita por São João Paulo II na encíclica: “Quanta est nobis via?” (Quanta estrada nos resta por percorrer?). O Papa Wojtyla indagou quanta estrada os separa ainda “daquele dia abençoado, em que será alcançada a plena unidade na fé e poderemos então na concórdia concelebrar a santa Eucaristia do Senhor” e reiterou que “a finalidade última do movimento ecumênico é o restabelecimento da plena unidade visível de todos os batizados”.

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