
A China está endurecendo as restrições aos assistentes virtuais com inteligência artificial (IA). O governo está proibindo serviços de tais assistentes para menores e limitando seu uso por adultos. O motivo: os usuários estão desenvolvendo dependência emocional de parceiros virtuais, ou seja, as pessoas estão se apaixonando por softwares. Adolescentes estão deixando de lado relacionamentos humanos para trocar mensagens com uma IA que nunca discute, nunca decepciona e nunca diz não. O governo chinês analisou e concluiu que isso representa uma ameaça ao desenvolvimento normal dos adolescentes.
A preocupação das autoridades deixou de ser hipotética: uma empresa chinesa está lançando um robô humanoide, projetado para intimidades sexuais, que conta com simulação de calor em todo o corpo, sensores de pele sensíveis ao toque e memória de preferências do usuário ao longo dos encontros.
Os Estados Unidos também apresentam números que impressionam. De acordo com a Common Sense Media, 72% dos adolescentes norte-americanos entre 13 e 17 anos já interagiram com um assistente virtual de inteligência artificial, e 52% são usuários regulares. Uma única empresa norte-americana de IA possui 20 milhões de usuários mensais, e mais da metade deles tem menos de 24 anos.
Segundo o Centro para a Democracia e a Tecnologia, um em cada cinco estudantes (20%) relata ter tido, ou ter amigos que tiveram, relacionamentos românticos com uma inteligência artificial. Um terço dos adolescentes já usou companheiros virtuais de IA para interação social e relacionamentos, incluindo jogos de interpretação de papéis e interações românticas. Em uma pesquisa com 758 adolescentes, 13% passaram o mesmo tempo com companheiros virtuais de IA que com amigos reais, e 6% passaram mais tempo com IA do que com seres humanos.
E isso não se limita apenas a adolescentes. De acordo com uma pesquisa da Children and Screens, 20% dos pré-adolescentes e 9% das crianças de 8 a 9 anos já utilizam chatbots de IA como companhia. Segundo a mesma pesquisa, 90% das ferramentas de IA para companhia ajudaram uma adolescente deprimida a permanecer em seu quarto por um mês sem contato humano. A IA não a mandou sair. Não a mandou ligar para um amigo. Disse apenas que a entendia.
A dimensão da pornografia gerada por IA é ainda mais sombria. Uma pesquisa de 2025 da Thorn, uma organização norte-americana sem fins lucrativos que desenvolve tecnologia para proteger crianças contra o abuso sexual, revelou que um em cada sete adolescentes conhece pessoalmente alguém que foi alvo de nudes criados por deepfake. A Internet Watch Foundation (IWF), do Reino Unido, identificou 3.443 vídeos de abuso sexual infantil gerados por IA em 2025, um aumento de 26,38% em relação a 2024. Até o final de 2025, dados preliminares indicavam 1,5 milhão de denúncias envolvendo abuso sexual infantil gerado por IA. Um estudo realizado em seis países europeus constatou que 54% dos adolescentes estão expostos à pornografia on-line, sendo que 24% a consomem semanalmente. Nos Estados Unidos, 68,4% dos adolescentes relataram exposição à pornografia on-line; e 75% dos pais acreditam que seus filhos nunca foram expostos a ela.
Pesquisadores norte-americanos da Universidade do Arizona, em artigo na revista The Lancet Child and Adolescent Health, identificaram a questão central: a adolescência é o campo de treinamento para a regulação emocional, a resolução de conflitos, a capacidade de se colocar no lugar do outro e o estabelecimento de limites. Essas habilidades não são aprendidas em livros, mas por meio de interações emocionalmente intensas com colegas, parceiros românticos e familiares, parte de um processo complexo, doloroso e incompleto do ser humano em contato com outros humanos, algo que os companheiros de IA jamais poderão oferecer.
Fontes: Peter H. Diamandis (médico), Common Sense Media, Thorn, IWF e Universidade do Arizona




