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Famílias transformam a quarentena em oportunidade de conversão

Famílias transformam a quarentena em oportunidade de conversão
(Imagem: Waldryano/Pixabay)

“Fique em casa!” é uma das expressões mais ouvidas nos últimos cinco meses, desde quando começaram as medidas de isolamento social para conter o avanço da COVID-19.

Para algumas pessoas, a “quarentena” tem sido ocasião para o surgimento de conflitos e crises. Para outras, uma oportunidade de aprofundamento da experiência que, em muitos casos, vinha sendo colocada em segundo plano em meio à rotina agitada de trabalho e vida social.

Um levantamento realizado pelos cartórios brasileiros registra um crescimento de 18,7% no número de divórcios entre os meses de maio e junho deste ano. O aumento coincide com a autorização nacional para que divórcios, inventários, partilhas, compra e venda, doação e procurações possam ser feitos de forma remota.

Partindo-se do fato de que a quarentena começou no Brasil em meados de março, não há evidências concretas de que esse período de pouco mais de dois meses de confinamento tenha sido suficiente para causar tais rupturas familiares, mas indica que muitas situações de fragilidade podem ter sido agravadas nesse contexto.

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TOMADA DE CONSCIÊNCIA

Casados há 26 anos, Roberto Aguiar Faria, 55, e Cristina Negrão Faria, 50, atuam desde 2007 no acompanhamento de noivos e jovens casais católicos. Eles enfatizaram ao O SÃO PAULO que é muito difícil para um casal superar os conflitos de relacionamento sem a humildade para reconhecer seus limites, e que nem sempre é possível fazê-lo sozinhos.

“As pessoas têm a ilusão de que o relacionamento não precisa ser trabalhado. Há muitas questões que devem ser aprofundadas, como a comunicação entre si, a espiritualidade conjugal, a busca de amadurecimento humano”, enfatizou Cristina, reforçando que cada fase tem seus próprios desafios e é necessário estar aberto a esse constante aprendizado.

Outro passo indicado para enfrentar as dificuldades conjugais e familiares é a tomada de consciência da dimensão sobrenatural do casamento, compreendendo-o como um sacramento. “É preciso entender e crer que essa união é uma vocação por meio da qual, juntos, caminhamos para a santidade”, disse Roberto. Entretanto, ele reconheceu que esse caminho não pode ser visto com uma concepção romântica e abstrata, mas nas situações concretas da vida.

ACOMPANHAMENTO

Famílias transformam a quarentena em oportunidade de conversão
Casados há 26 anos, Roberto e Cristina se dedicam ao acompanhamento de noivos e jovens casais (Foto: Arquivo pessoal)

Roberto e Cristina reconheceram que, quando se casaram, não tinham consciência alguma da dimensão sacramental do Matrimônio. Com três anos de casados, eles participaram de um retiro para casais na Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, na zona Oeste de São Paulo, local onde, há 50 anos, nasceu o movimento do Encontro de Casais com Cristo (ECC).

A partir de então, eles começaram a buscar meios para aprofundar a dimensão espiritual da vida matrimonial, participaram de outros encontros e retiros, até que conheceram as Equipes de Nossa Senhora.

Ao longo da caminhada, Roberto e Cristina perceberam a necessidade de se dedicar ao acompanhamento de outros casais e iniciaram um trabalho de formação de noivos. Nesse formato de preparação para o Matrimônio, os jovens que desejam se casar começam a ser acompanhados pelo casal em sua casa, onde recebem formação sobre o sacramento, questões da vida conjugal e troca de experiências.

PROCESSO

Ao falar sobre as dificuldades comuns à vida conjugal e familiar, Roberto salientou que não é algo que se supera de repente, mas consiste em um processo gradual. Por isso, as crises devem ser encaradas como oportunidades para dar os primeiros passos em busca desse crescimento. “O primeiro passo é manifestar o desejo de fazer diferente, não se acostumar com a situação em que se encontra. Se isso não acontecer, não haverá progresso”, afirmou.

O casal também alertou que as famílias que passam por crises ou conflitos não podem ter receio de procurar ajuda, seja ela de um profissional, de amigos, seja de um sacerdote. “Algo que sempre foi muito importante e nos tempos atuais é ainda mais necessário é o aconselhamento familiar”, afirmou Cristina, reforçando que as famílias não precisam enfrentar essas dificuldades sozinhas. Pelo contrário, devem contar com o apoio da comunidade, isto é, da família de famílias e da Igreja, por meio dos vários grupos e movimentos voltados a esse fim.

DESCOBERTA DO ‘OUTRO’

Com mais de 60 anos de experiência no aconselhamento de famílias, o catalão Padre Francisco Faus, 88, é autor de diversos livros sobre espiritualidade. No início da pandemia, ele publicou uma série de meditações, no formato de podcasts, voltadas ao tema do relacionamento familiar na quarentena. Nessas pequenas reflexões, ele convidou os casais a enxergar, nesta situação excepcional, uma oportunidade para a manifestação do crescimento humano e espiritual por meio da “descoberta do outro”.

“É natural que o confinamento forçado, muitas vezes em espaços pequenos, provoque atritos, discórdias, irritações, impaciências, brigas. Os nervos estão tensos e qualquer coisa que toque neles pode fazer saltar uma nota discordante”, afirmou o Sacerdote, apontando como primeiro desafio a tendência humana de tornar os outros um “espelho de si mesmos” por meio do qual se busca contemplar seus gostos, desejos, sonhos e frustrações.

Cristina e Roberto revelaram que a quarentena tem sido uma oportunidade para conhecer melhor a filha, Júlia Negrão Faria, 24. “Nós nos demos conta de que a maneira como nos comunicávamos precisava melhorar e reconhecemos que, muitas vezes, erramos na maneira de lidar com nossa filha, nem sempre a deixando ser quem ela é”, disse a mãe.

Famílias transformam a quarentena em oportunidade de conversão
Autor de livros de espiritualidade, Padre Francisco Faus publicou uma série de podcasts sobre o relacionamento familiar na quarentena (Divulgação)

VIDA ESPIRITUAL

Roberto frisou que a graça sacramental recebida no dia do casamento só produz efeito se for alimentada constantemente. “Se não tivermos o hábito de rezar, ouvir o que Deus tem a nos dizer por meio de sua Palavra, buscar os sacramentos, a direção espiritual, não compreenderemos o Matrimônio como uma vocação, muito menos veremos na outra pessoa o meu próximo, a quem devo amar e dar a vida, como Cristo fez”, disse.

Ainda sobre o cultivo da vida espiritual, Cristina lembrou que, além da dimensão pessoal, é importante cuidar da espiritualidade conjugal, por meio de momentos de oração em comum, tanto o casal entre si quanto com os filhos, mas também de outras maneiras. “O diálogo, por exemplo, é uma expressão dessa espiritualidade. Sem contar os meus momentos de oração pessoal, que podem ter essa perspectiva conjugal, quando incluo o casal nesse diálogo com Deus, rezo pelo meu esposo e pelo nosso matrimônio”, reforçou.

COMPANHEIRO DE JORNADA

Por fim, o casal chamou a atenção para a necessidade de mudar a perspectiva sobre a vida a dois, valorizando o privilégio de poder contar com um companheiro de caminhada para a realização da vocação, para o crescimento humano e espiritual.

“Nossa casa precisa ser um lugar onde não temos medo de mostrar nossas fragilidades e saber que aquela pessoa com a qual decidimos caminhar junto não irá nos julgar, mas, pelo contrário, nos ajudará a melhorar o que precisa ser melhorado”, sublinhou Cristina.

Para o Padre Faus, é imprescindível que o casal compreenda que o amor conjugal é mais que um mero sentimento, é uma decisão, um ato concreto de vontade, que tem como fim a realização da vontade de Deus. Por fim, ele reforçou que “os amantes são aqueles que se amam”, enquanto “os esposos são aqueles que se empenham em se amar”.

Alguns grupos eclesiais voltados ao acompanhamento das famílias

Pastoral Familiar – Fundada na década de 1980, por inspiração
da Exortação Apostólica Familiaris consortio, de São João Paulo II, este serviço eclesial tem o propósito de promover a inclusão e o resgate dos valores e da dignidade das famílias, apoiando-as nas mais
variadas realidades em que se encontram.
Contato: http://site.cnpf.org.br/

Encontro de Casais com Cristo (ECC) – Serviço de evangelização das famílias, criado em 1970 pelo Padre Alfonso Pastore, em São
Paulo. Seu trabalho é voltado à valorização das famílias como Igrejas domésticas, formadoras de pessoas, educadoras na fé e promotoras do desenvolvimento.
Contato: https://cnbbs2.org.br/encontro-de-casais-com-cristo-ecc/

Comunidade Famílias Novas do Imaculado Coração de Maria – Fundada em 2006, tem a missão de “renovar todas as famílias em Cristo”. Atua por meio de grupos chamados domus (casa, em latim), que reúne famílias do entorno para encontros de oração,
evangelização e integração na vida eclesial.
Contato: https://www.familiasnovas.com.br/

Comunidade Sagrada Família – Fundada em 1994, em São Paulo, tem como carisma evangelizar e resgatar as famílias, pela inspiração do versículo bíblico “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família” (At 16,31). É formada por adultos e jovens, casados, solteiros, celibatários e vocacionados ao sacerdócio.
Contato: http://sagradafamilia.net.br/site/

Equipes de Nossa Senhora – Fundado em 1938, pelo Padre francês Henri Caffarel, o movimento tem a missão de propiciar uma
caminhada de espiritualidade conjugal católica a seus integrantes. É constituído por grupos de casais – as chamadas Equipes – que,
com o acompanhamento de um sacerdote, buscam no sacramento do Matrimônio um ideal de vivência cristã.
Contato: https://www.ens.org.br/novo/home

(Colaboraram: Flavio Rogerio Lopes e Jenniffer Silva)

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