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Colecionar figurinhas na Copa: ‘um golaço’ para a interação e o desenvolvimento das crianças

Colecionar figurinhas na Copa: ‘um golaço’ para a interação e o desenvolvimento das crianças - Jornal O São Paulo
Michele Seom/SECOM

Para alguns, ele era tão aguardado quanto o começo do Mundial de Fu­tebol: o álbum de figurinhas da Copa, que no Brasil foi lançado em maio e, desde então, virou uma “febre”, com pontos de venda e de trocas de figuri­nhas em diferentes locais.

A empolgação de Mariana A.C. Ro­mual, do esposo, William, e dos filhos Gustavo, 9, e Guilherme, 11, é a mesma que vivenciaram na Copa passada: “Em 2022, ‘corremos atrás’ das figurinhas, fomos a diferentes locais para trocá-las, trocamos com os amigos, enfim, foi uma coisa muito legal. Não víamos a hora de que saísse o novo álbum, ainda mais porque nesta Copa são mais seleções do que na anterior. E, novamente, está sendo uma experiência muito divertida”.

Os dois meninos compartilham o mesmo álbum e para cada um deles a mãe percebe efeitos positivos diferen­tes. No caso de Guilherme, a maior socialização com os colegas da nova es­cola. “Ter o álbum e trocar figurinhas o tem ajudado a fazer amizades na escola. Até um coleguinha dele já veio aqui em casa para trocar figurinhas”, relata Ma­riana ao O SÃO PAULO.

No caso do filho mais novo, o álbum tem colaborado para reduzir o tempo em frente às telas. “O Gustavo fica por um bom tempo colando as figurinhas e vendo quais são as repetidas. Às vezes, a gente pega o álbum antigo e compara al­gumas seleções e jogadores. Quando ele consegue a figurinha de um jogador de que gosta mais, a gente também conver­sa bastante e, assim, ele deixa um pou­co de lado os jogos e vídeos do celular e fica conversando comigo, com o pai e o irmão”, detalha Mariana, que é profes­sora em uma escola pública na capital paulista.

EXPERIÊNCIA SOCIAL COMPARTILHADA

Colecionar figurinhas, de fato, pode trazer muitos benefícios ao desenvol­vimento das crianças, conforme explica a psicóloga infantil Carolina Rocha (@carolina.rochapsi): “Depois que a criança abre o pacotinho, ela vai precisar  organizar as figurinhas e procurar o lugar específico para cada uma, e, assim, já es­tará exercitando a atenção, o planejamen­to e a memória”.

Carolina ressalta, ainda, que o pro­cesso de trocar figurinhas favorece ha­bilidades sociais como a comunicação, a negociação, a persistência, a resolu­ção de conflitos, o respeito às regras e o saber conviver com a frustração, “por­que acontece de comprar o pacotinho e não vir a figurinha que se quer ou virem repetidas”.

APOIO NO PROCESSO, NÃO SUBSTITUIÇÃO

Não menos importante é o fortaleci­mento dos vínculos familiares. “Abrir o pacotinho e colar as figurinhas acaba se tornando um momento de toda a famí­lia”, recorda a psicóloga. “Colecionar o ál­bum da Copa deve ser algo prazeroso, de conversa, de troca e não de briga. Depen­dendo da idade, a criança vai colar torta a figurinha e isso não deve ser visto como um problema”, enfatiza. neste processo”.

Carolina Rocha lembra, ainda, que os pais precisam assumir sempre uma atitu­de de apoio e não de substituição, deixan­do que os filhos abram os pacotes, orga­nizem as figurinhas e as colem no álbum, bem como incentivando-os a trocar os cromos repetidos com os amigos, colegas de escola ou em outros locais.

“Esse processo de troca de figuri­nhas vai desenvolver tanto a autonomia quanto a habilidade social da criança. Os pais devem encorajá-la a conversar, a fazer a troca e orientá-la sobre como resolver eventuais conflitos que surjam neste processo”.

COMPLETAR O ÁLBUM NÃO É ESSENCIAL

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Prefeitura de São Vicente

Apesar de todos estes potenciais ganhos, completar o álbum de figurinhas da Copa do Mundo Fifa 2026, comercia­lizado pela editora Panini, não é algo ba­rato: são necessários, ao menos, cerca de R$ 1.000 para comprar as 980 figurinhas e o modelo mais simples do álbum, isso considerando a improvável possibilidade de obter todos os cromos, seja pela com­pra direta, seja trocando figurinhas repe­tidas. Já quem optar em só comprar os pacotinhos e não trocar figurinhas pode ter um custo sete vezes maior do que este, segundo cálculos de probabilidade.

“Talvez a criança não consiga com­pletar o álbum; por isso, este não deve ser o objetivo principal, mas sim vivenciar toda essa dinâmica de um momento em família, de troca, de brincadeira, de rela­ções sociais e de lidar com a frustração. E é importante que os adultos, desde o início, estabeleçam limites, os combinados sobre qual frequência vão comprar figurinhas e quanto vão gastar”, orienta Carolina.

“Com as crianças um pouco mais velhas, adolescentes e jovens, pode-se trabalhar também a educação financei­ra, explicando que não dá para comprar tudo que se quer, e detalhando quanto dinheiro é preciso juntar para comprar as figurinhas ou quais outras coisas não serão adquiridas para se gastar com fi­gurinhas. Se o pai ou a mãe comprar todas para a criança completar o álbum, como já se tem notícia, ensinará que com dinheiro você pode tudo, que não precisa esperar, que só basta pagar e se consegue ter algo, mas a vida não é as­sim”, alerta a psicóloga.

‘Pintando o hexa’ nas ruas

Ornamentar as ruas com as cores do Brasil também é um hábito comum du­rante a Copa do Mundo e que pode aju­dar na socialização das crianças, como ocorreu na Vila Gumercindo, na zona Sul, no dia 6, em uma atividade organizada pelo coletivo Casa Ó.

“Foram as crianças que escolheram o desenho que iam fazer e pintaram a rua. Durante a atividade, surgiram brincadei­ras como pega-pega, esconde-esconde e até troca de figurinhas, coisas que só ocorrem no mundo real. Tudo isso faz as crianças entenderem que o território tam­bém é delas e que este brincar na rua po-de se tornar parte da rotina”, diz Douglas Dias, bacharel em Lazer e Turismo pela USP e mestre em Educação Profissional.

Douglas foi um dos articuladores da iniciativa, para a qual também levou seus três filhos: Thomas, 9; Romeo, 7; e Stella, 4. “A minha filha mais nova foi quem fi­cou mais tempo atenta na atividade. Aos pais, de acordo com Douglas, compete auxiliar as crianças nessas ativi­dades, mas sem retirar delas o protago­nismo: “Fomos nós, pais, coletivamente, que pensamos a atividade, o horário, solicitamos o fechamento da rua, divul­gamos, e cada um trouxe um pouco de tinta e combinamos o churrasco no final. Sempre cabe aos adultos dar segurança e orientação às crianças, mas não substitui­-las nas atividades”.

“Se a criança não brincar agora, che­gará à fase adulta sem saber o que é so­cializar, o que é diversão. Elas precisam já entender que não somos máquina, so­mos gente”, conclui.

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