
Para alguns, ele era tão aguardado quanto o começo do Mundial de Futebol: o álbum de figurinhas da Copa, que no Brasil foi lançado em maio e, desde então, virou uma “febre”, com pontos de venda e de trocas de figurinhas em diferentes locais.
A empolgação de Mariana A.C. Romual, do esposo, William, e dos filhos Gustavo, 9, e Guilherme, 11, é a mesma que vivenciaram na Copa passada: “Em 2022, ‘corremos atrás’ das figurinhas, fomos a diferentes locais para trocá-las, trocamos com os amigos, enfim, foi uma coisa muito legal. Não víamos a hora de que saísse o novo álbum, ainda mais porque nesta Copa são mais seleções do que na anterior. E, novamente, está sendo uma experiência muito divertida”.
Os dois meninos compartilham o mesmo álbum e para cada um deles a mãe percebe efeitos positivos diferentes. No caso de Guilherme, a maior socialização com os colegas da nova escola. “Ter o álbum e trocar figurinhas o tem ajudado a fazer amizades na escola. Até um coleguinha dele já veio aqui em casa para trocar figurinhas”, relata Mariana ao O SÃO PAULO.
No caso do filho mais novo, o álbum tem colaborado para reduzir o tempo em frente às telas. “O Gustavo fica por um bom tempo colando as figurinhas e vendo quais são as repetidas. Às vezes, a gente pega o álbum antigo e compara algumas seleções e jogadores. Quando ele consegue a figurinha de um jogador de que gosta mais, a gente também conversa bastante e, assim, ele deixa um pouco de lado os jogos e vídeos do celular e fica conversando comigo, com o pai e o irmão”, detalha Mariana, que é professora em uma escola pública na capital paulista.
EXPERIÊNCIA SOCIAL COMPARTILHADA
Colecionar figurinhas, de fato, pode trazer muitos benefícios ao desenvolvimento das crianças, conforme explica a psicóloga infantil Carolina Rocha (@carolina.rochapsi): “Depois que a criança abre o pacotinho, ela vai precisar organizar as figurinhas e procurar o lugar específico para cada uma, e, assim, já estará exercitando a atenção, o planejamento e a memória”.
Carolina ressalta, ainda, que o processo de trocar figurinhas favorece habilidades sociais como a comunicação, a negociação, a persistência, a resolução de conflitos, o respeito às regras e o saber conviver com a frustração, “porque acontece de comprar o pacotinho e não vir a figurinha que se quer ou virem repetidas”.
APOIO NO PROCESSO, NÃO SUBSTITUIÇÃO
Não menos importante é o fortalecimento dos vínculos familiares. “Abrir o pacotinho e colar as figurinhas acaba se tornando um momento de toda a família”, recorda a psicóloga. “Colecionar o álbum da Copa deve ser algo prazeroso, de conversa, de troca e não de briga. Dependendo da idade, a criança vai colar torta a figurinha e isso não deve ser visto como um problema”, enfatiza. neste processo”.
Carolina Rocha lembra, ainda, que os pais precisam assumir sempre uma atitude de apoio e não de substituição, deixando que os filhos abram os pacotes, organizem as figurinhas e as colem no álbum, bem como incentivando-os a trocar os cromos repetidos com os amigos, colegas de escola ou em outros locais.
“Esse processo de troca de figurinhas vai desenvolver tanto a autonomia quanto a habilidade social da criança. Os pais devem encorajá-la a conversar, a fazer a troca e orientá-la sobre como resolver eventuais conflitos que surjam neste processo”.
COMPLETAR O ÁLBUM NÃO É ESSENCIAL

Apesar de todos estes potenciais ganhos, completar o álbum de figurinhas da Copa do Mundo Fifa 2026, comercializado pela editora Panini, não é algo barato: são necessários, ao menos, cerca de R$ 1.000 para comprar as 980 figurinhas e o modelo mais simples do álbum, isso considerando a improvável possibilidade de obter todos os cromos, seja pela compra direta, seja trocando figurinhas repetidas. Já quem optar em só comprar os pacotinhos e não trocar figurinhas pode ter um custo sete vezes maior do que este, segundo cálculos de probabilidade.
“Talvez a criança não consiga completar o álbum; por isso, este não deve ser o objetivo principal, mas sim vivenciar toda essa dinâmica de um momento em família, de troca, de brincadeira, de relações sociais e de lidar com a frustração. E é importante que os adultos, desde o início, estabeleçam limites, os combinados sobre qual frequência vão comprar figurinhas e quanto vão gastar”, orienta Carolina.
“Com as crianças um pouco mais velhas, adolescentes e jovens, pode-se trabalhar também a educação financeira, explicando que não dá para comprar tudo que se quer, e detalhando quanto dinheiro é preciso juntar para comprar as figurinhas ou quais outras coisas não serão adquiridas para se gastar com figurinhas. Se o pai ou a mãe comprar todas para a criança completar o álbum, como já se tem notícia, ensinará que com dinheiro você pode tudo, que não precisa esperar, que só basta pagar e se consegue ter algo, mas a vida não é assim”, alerta a psicóloga.
‘Pintando o hexa’ nas ruas


Ornamentar as ruas com as cores do Brasil também é um hábito comum durante a Copa do Mundo e que pode ajudar na socialização das crianças, como ocorreu na Vila Gumercindo, na zona Sul, no dia 6, em uma atividade organizada pelo coletivo Casa Ó.
“Foram as crianças que escolheram o desenho que iam fazer e pintaram a rua. Durante a atividade, surgiram brincadeiras como pega-pega, esconde-esconde e até troca de figurinhas, coisas que só ocorrem no mundo real. Tudo isso faz as crianças entenderem que o território também é delas e que este brincar na rua po-de se tornar parte da rotina”, diz Douglas Dias, bacharel em Lazer e Turismo pela USP e mestre em Educação Profissional.
Douglas foi um dos articuladores da iniciativa, para a qual também levou seus três filhos: Thomas, 9; Romeo, 7; e Stella, 4. “A minha filha mais nova foi quem ficou mais tempo atenta na atividade. Aos pais, de acordo com Douglas, compete auxiliar as crianças nessas atividades, mas sem retirar delas o protagonismo: “Fomos nós, pais, coletivamente, que pensamos a atividade, o horário, solicitamos o fechamento da rua, divulgamos, e cada um trouxe um pouco de tinta e combinamos o churrasco no final. Sempre cabe aos adultos dar segurança e orientação às crianças, mas não substitui-las nas atividades”.
“Se a criança não brincar agora, chegará à fase adulta sem saber o que é socializar, o que é diversão. Elas precisam já entender que não somos máquina, somos gente”, conclui.




