São Paulo: a cidade que nasce do empenho de missionários

Fundada em 25 de janeiro de 1554, na Festa da Conversão do Apóstolo São Paulo, a capital paulista é fruto da ação de missionários que dedicaram sua vida, alguns deles até à morte, para que o Evangelho fosse anunciado onde hoje está a maior metrópole do Brasil.

Pintura de Antônio Parreiras, de 1913, retrata a celebração da missa de fundação da cidade, presidida pelo Padre Manuel de Paiva, em 25 de janeiro de 1554, na Festa da Conversão do Apóstolo São Paulo

Embora os jesuítas Padre Manuel da Nóbrega e São José de Anchieta sejam os mais conhecidos, ao todo foram 13 os missionários que são considerados fundadores da cidade. Além desses, há leigos, inclusive indígenas, que tiveram papéis determinantes nessa história.

Na Biblioteca do Pateo do Collegio, local de fundação da cidade, há um vasto acervo sobre as histórias dessas pessoas que marcam a origem da metrópole. Conheça algumas dessas personagens.

Manuel da Nóbrega

Nascido em Sanfins, Portugal, em 1517, Manuel da Nóbrega cursou Humanidades na Universidade de Salamanca, na Espanha, e doutorou-se em Direito Canônico e em Filosofia pela Universidade de Coimbra, em Portugal.

Já ordenado sacerdote, ingressou na Companhia de Jesus em 1544. Veio com a comitiva de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral, para fundar a missão jesuíta na colônia.

Após permanecer algum tempo na Bahia e em Pernambuco, Nóbrega partiu para São Vicente, onde fundou, em 1553, o Colégio de Meninos de Jesus. Em seguida, foi para o planalto, com a ideia de unir três aldeias existentes em uma para aprenderem a doutrina cristã. Entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, ficava a singela habitação que serviu para que os jesuítas fundassem o Colégio São Paulo de Piratininga.

Nóbrega também participou da fundação de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1565. Foi o Jesuíta quem solicitou ao rei de Portugal, Dom João III, a criação da primeira diocese no Brasil, Salvador, o que foi concretizado em 1551. Em 1558, convenceu o governador Mem de Sá a baixar “leis de proteção aos índios”, impedindo a sua escravização. Morreu em 1570, no Rio de Janeiro, no dia em que completou 53 anos.

José de Anchieta

Nascido em Tenerife, no Arquipélago das Ilhas Canárias, Espanha, em 19 de março de 1534, José de Anchieta ingressou na Companhia de Jesus em 1551 e veio como missionário para o Brasil em 1553, ainda como estudante.

Em 1554, chegou à capitania de São Vicente, seguindo para o Planalto de Piratininga, para a fundação do novo colégio. Anchieta não apenas ensinava a doutrina cristã aos índios: foi o primeiro a escrever uma “gramática tupi-guarani” e, ao mesmo tempo, ensinava-lhes noções de higiene, medicina, música e literatura. Por outro lado, fazia questão de aprender com eles, desenvolvendo diversos estudos da fauna, da flora e do idioma.

Foi ordenado sacerdote em 1566, em Salvador. Com a morte do Padre Manuel da Nóbrega, o cargo de provincial dos Jesuítas do Brasil passou a ser ocupado por Anchieta. Nesse posto, viajou por todo o País, orientando os trabalhos missionários.

José de Anchieta morreu em 9 de junho de 1597, aos 63 anos, na pequena vila de Reritiba, atual Anchieta (ES). Foi beatificado por São João Paulo II em 22 de junho de 1980, no Campo de Marte, em São Paulo, e proclamado Santo em 3 de abril de 2014, por meio de um decreto do Papa Francisco.

Manuel de Paiva

Ao contrário do que se imagina, Padre Manuel da Nóbrega não celebrou a missa que marcou a fundação de São Paulo, mas sim o Padre Manuel de Paiva. Português de Coimbra, nasceu em 1508 e foi ordenado sacerdote diocesano entre os anos de 1530 e 1540. Tornou-se jesuíta em 1548 e, dois anos depois, veio para o Brasil. Trabalhou na Bahia, antes de partir em missão para o Sudeste.

Padre Manuel de Paiva também foi o fundador da cidade de Guarulhos (SP), em 8 de dezembro de 1560, com o nome de Nossa Senhora da Conceição. Em 1564, foi para o Espírito Santo, onde permaneceu até 1584, quando morreu, vítima de varíola.

Antônio Rodrigues

Nasceu em Lisboa, Portugal, aproximadamente em 1516. De espírito aventureiro, quando tinha 19 anos embarcou na expedição militar responsável pela fundação de Buenos Aires, na Argentina, em 1536; na fundação de Assunção, no Paraguai, 1537, e percorreu regiões de Mato Grosso e do Amazonas até chegar a São Vicente, onde decidiu ingressar na Companhia de Jesus, em 1553 e, logo em seguida, acompanhou o Padre Manuel da Nóbrega na fundação da missão em Piratininga.

Em São Paulo, tornou-se o primeiro responsável pela educação das crianças indígenas do lugar, ensinando-os a ler, escreve e cantar.

Em uma carta escrita em 1554, São José de Anchieta, que era mestre de latim, refere-se ao seu companheiro de casa: “Quinze batizados, e muitos mais catecúmenos andam na Escola muitíssimo bem ensinados por seu mestre, que é Antônio Rodrigues. Depois da lição da manhã, rezam na igreja as ladainhas; depois da lição da tarde, cantam a Salve-Rainha e vão para as suas casas”.

Rodrigues morreu em 1568, aos 52 anos, no Rio de Janeiro, onde ajudou Nóbrega a fundar o colégio daquela cidade.

Pero Correia

Português, não se sabe o ano de seu nascimento. Chegou ao Brasil por volta de 1534. Teve uma vida de aventuras como conquistador, aprisionando indígenas para vendê-los como escravos.

Em 1554, converteu-se e ingressou na Companhia de Jesus, em São Vicente, doou todos os seus bens e as terras que possuía ao Colégio de São Vicente, do qual também foi um dos fundadores.

Falava fluentemente o tupi e evangelizou inúmeros indígenas na região de Piratininga. No fim de 1554, foi morto a flechadas pelos índios carijós durante uma missão com outro jesuíta fundador de São Paulo, o Irmão João de Sousa. Ambos são considerados os protomártires jesuítas no Brasil.   

João de Sousa

Nascido em Portugal, é reconhecido como um dos primeiros povoadores de São Vicente, fundada em 1532. Antes de ingressar na vida religiosa, já era conhecido como uma pessoa santa. Segundo testemunho do próprio Anchieta, João jejuava todas as semanas e “não consentia diante de si que se fizesse ofensa a Deus, Nosso Senhor”.

Ingressou na Companhia de Jesus em 1550, sendo exemplo de penitência, humildade, simplicidade e caridade. Morreu com o Irmão Pero Correia, meses depois de ter participado da fundação de São Paulo. 

OS PRIMEIROS FIÉIS LEIGOS

Além dos missionários jesuítas, a comunidade que deu origem à cidade de São Paulo contou com a atuação de muitos fiéis leigos, entre portugueses, seus descendentes e indígenas, que, ao aderirem à fé cristã, edificaram esse povoado. Veja os principais

Cacique Tibiriçá

Cacique dos indígenas guaianazes que habitavam na região, Tibiriçá foi um dos primeiros catecúmenos do Padre Manuel da Nóbrega. Ao ser batizado, recebeu o nome de Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem a Martim Afonso de Sousa, fundador da Vila de São Vicente e donatário da capitania hereditária de mesmo nome. Casou-se com uma índia que, segundo alguns historiadores, chamava-se Potira, com quem teve sete filhos.

Tibiriçá era considerado por Nóbrega o “benfeitor, fundador e conservador da Casa de Piratininga”, que ele havia ajudado a construir com as próprias mãos, como escreveu São José de Anchieta, em uma carta em 16 de abril de 1563. Nela, o Santo jesuíta afirmou ter sido Tibiriçá o responsável por reunir todo o seu povo que estava dividido em três aldeias, concentrando-o no local onde hoje está o Largo São Bento.

Em outra carta, escrita em 1º de setembro de 1554 a Santo Inácio de Loyola, fundador dos Jesuítas, Anchieta relatou que, em um ataque de indígenas ocorrido contra a povoação de Piratininga, o cacique e sua esposa salvaram a todos com sua coragem. Era considerado de grandes qualidades morais, inteligência e caráter reto. Morreu em 25 de dezembro de 1562, com cerca de 80 anos. Seus restos mortais estão na cripta da Catedral da Sé.

João Ramalho

Nascido na cidade de Vouzela, Portugal, em 1493, João Ramalho chegou ao Brasil em 1515. Teve grande amizade com Tibiriçá, que se tornou seu sogro, após ter se casado com uma de suas filhas, Bartira.

Ramalho se tornou um homem muito influente, graças à relação amistosa que possuía com os indígenas. Vivia em uma vila chamada de Santo André da Borda do Campo, região que ficava onde hoje está São Bernardo do Campo (SP). Em 1553, o primeiro governador-geral do País, Tomé de Sousa, transformou a vila em povoado e Ramalho foi vereador e prefeito, e também guarda de toda a região.

Além de ajudar na implantação da missão jesuítica no planalto de Piratininga, Ramalho, assim como Tibiriçá, garantia a segurança do local contra a investida de eventuais ataques. Em 1562, foi nomeado pela Câmara Municipal e pelo povo de São Paulo para o cargo de Capitão da Gente, a fim de combater os índios carijós, no vale do Paraíba, que tinham feito cerco e atacado a vila naquele ano. Morreu em 1580, também com idade avançada. Um conhecido logradouro, travessa da Avenida Sumaré, no bairro de Perdizes, em São Paulo, leva este nome em sua homenagem.

Bartira

A filha do cacique Tibiriçá se chamava M´bicy (Flor de Árvore), também conhecida por Bartira. Após ser batizada, recebeu o nome de Isabel Dias. Viveu cerca de 40 anos com João Ramalho, com quem teve nove filhos, dos quais descendem inúmeras das mais tradicionais famílias paulistas.

Bartira representa as muitas mulheres indígenas que viviam no povoado na época da fundação, cujos nomes não eram conhecidos. Ela também nomeia uma rua no bairro de Perdizes, assim como Caiubi, que era irmão do cacique Tibiriçá e tio de Bartira.

 ‘RAIZ APOSTÓLICA’

O diretor do Pateo do Collegio, Padre Carlos Alberto Contieri, ressaltou que a “raiz histórica apostólica” da capital paulista não pode ser negada, nem esquecida. “A cidade de São Paulo nasce de uma missão Católica Apostólica Romana. O que deu origem à nossa cidade foi o zelo apostólico”, afirmou.

O Jesuíta acrescentou que as pessoas podem negar muitas coisas sobre a cidade, mas jamais esse dado sobre sua origem. “Não temos outra história para contar. Tampouco, poderíamos deixar que se faça uma leitura ideológica do nascimento de São Paulo”, reforçou o diretor, enfatizando que “os indígenas confiavam tanto nos padres que eles se aproximaram aos poucos deste lugar e, como o Apóstolo São Paulo, foram alcançados por Jesus Cristo”.

Por fim, Padre Contieri destacou que a história da metrópole é marcada, desde o início, por testemunhos de conversão de muitos cristãos, e completou que não é por acaso que a cidade tenha nascido na data em que se celebra a conversão do “Apóstolo das Gentes”.

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