Sinal de alerta: em 1 mês, número de óbitos por COVID-19 em UTIs de SP supera o de altas

Indicativo é do período de 14 de fevereiro a 13 de março. Escassez dos medicamentos do ‘kit intubação’ preocupa médicos e entidades hospitalares

Reprodução de vídeo do Governo do Estado de São Paulo veiculado em 11 de março de 2021

Após mais de um mês com medidas intensas de restrição, o estado de São Paulo iniciou no domingo, 18, uma fase de transição, na qual, gradualmente, até o dia 30, haverá maior permissão para atividades presenciais. 

Diante do aumento da circulação de pessoas, os cuidados preventivos já conhecidos contra o coronavírus – uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento social – devem ser redobrados, a fim de que não se volte ao cenário de ocupação de leitos de UTI COVID-19 próximo a 90%.

Nas semanas entre 14 de fevereiro e 13 de março, quando a taxa de ocupação desses leitos saltou de 66,5% para 88,4%, mais da metade dos pacientes em UTI com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) – entre estes os com a COVID-19 – morreram no estado, algo até então não visto nesta pandemia. Os dados são do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe, do Ministério da Saúde, e foram mostrados pela TV Globo na última semana.

Incógnita sobre a letalidade nas UTIs

Na coletiva de imprensa do governo paulista no dia 9, Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, afirmou que, naquela semana, a letalidade em UTIs COVID-19 no estado era inferior a 30%. Quatro dias depois, porém, o secretário de estado da Saúde, Jean Gorinchteyn, falou em percentuais diferentes: “À medida que os jovens [com os sintomas da doença] retardam também a sua procura às unidades de saúde, até porque se sentem mais tranquilos por serem jovens, vêm numa condição muito mais grave. Aí, sim, a letalidade atinge a cifra de 50%, 52%”.

O SÃO PAULO questionou a Secretaria de Estado da Saúde (SES) sobre a aparente contradição dos dados. Em resposta, a pasta, por meio de sua assessoria de imprensa, limitou-se a informar que “os dados sobre mortalidade podem ser encontrados em: https://www.saopaulo.sp.gov.br/planosp/simi”. Entretanto, no link não há o detalhamento sobre a letalidade dos pacientes internados com a COVID-19 em UTIs.

Múltiplas razões

Reprodução de vídeo do governo do Estado de São Paulo

Na avaliação de José Erivalder Guimarães, diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), ainda não é possível afirmar com segurança sobre as causas que tenham levado a esse aumento de mortalidade em UTIs. “Uma das hipóteses é de que a nova variante do vírus tenha uma virulência maior que a anterior. Além disso, hoje há um número muito grande de pessoas que estão indo para a UTI já em uma fase mais grave da doença”, disse ao O SÃO PAULO. “Também está faltando profissionais capacitados, de modo que aqueles que têm experiência ficam sobrecarregados. Assim, eventualmente, pode acontecer um equívoco de alguém que trabalhe por 12 horas, 24 horas ininterruptamente”, complementou.

Em recente entrevista ao portal DW Brasil, Ederlon Rezende, do Conselho Consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), assegurou que o êxito no salvamento de vidas nas UTIs está relacionado “à qualidade do trabalho de equipe, ao quanto essa equipe consegue realizar seus processos com precisão e segurança. Na hora em que se começa a sobrecarregar essa equipe, ou improvisar com profissionais que não são adequadamente treinados e qualificados, os resultados são ruins”.

Guimarães assegurou que o Simesp até agora não recebeu denúncias de que em São Paulo os leitos de UTI que foram abertos tenham estruturas precárias ou que haja improviso na composição das equipes médicas: “Se eventualmente um hospital colocasse na UTI uma pessoa sem experiência, ele cometeria um crime. Não tivemos até agora denúncia qualquer neste sentido”.

De fevereiro a abril deste ano, o governo paulista aumentou de 8.836 para 14.054 o número de UTIs no estado. Até o fim deste mês, o estado terá mais de 9,2 mil leitos de UTI, informou a SES à reportagem. Além disso, “desde o ano passado, foram contratados mais de 6,3 mil profissionais para reforçar equipes dos hospitais da Secretaria de Estado da Saúde, que também contam com capacitação para atuação na linha de frente do combate à pandemia”.

A falta dos medicamentos do ‘kit intubação’

Entre gestores de hospitais filantrópicos e particulares, bem como entre prefeitos e governadores, a maior preocupação do momento é a escassez de anestésicos, sedativos e bloqueadores neuromusculares que compõem o chamado “kit intubação”.

Foto: Fehosp

Com a piora da pandemia no País, em março, o Ministério da Saúde centralizou a compra desses medicamentos nos fabricantes nacionais, de modo que há restrições para que sejam adquiridos por estados, municípios e pela rede particular. A pasta se comprometeu a repassar estes insumos, mas tem havido atrasos.

“Trabalhávamos com estoques nas santas casas e hospitais filantrópicos em torno de 30 a 40 dias; agora, há relatos de hospitais com três, cinco ou no máximo dez dias de estoques”, relatou à reportagem Edson Rogatti, diretor-presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo (Fehosp).

“A Santa Casa de Limeira, por exemplo, tinha comprado medicamentos para o ano todo, mas não os recebeu ainda porque houve uma requisição do Governo Federal e o laboratório diz que agora é o próprio governo que vai distribuir aos estados e municípios. Se faltar este medicamento, vai morrer gente na UTI”, enfatizou Rogatti.

Na semana passada, o Conselho de Secretários Municipais da Saúde do Estado de São Paulo (Cosems/SP) indicou que mais de 60% dos serviços municipais de Saúde estão com os estoques zerados de medicamentos do “kit intubação”.

Em nota no dia 15, a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) informou que um levantamento feito em 71 hospitais indicou que em 22 deles os estoques do “kit intubação” estão em “situação crítica – com estoque inferior ou igual a cinco dias”.

Tentativas de resolução

A Anahp informou que os hospitais têm buscado importar insumos da Índia, “porém, por questões regulatórias, que estão sendo tratadas em reuniões com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o processo ainda não pôde ser concretizado”.

Também a Confederação das Santas Casas e Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB) anunciou na sexta-feira, 16, a importação de 320 mil itens do “kit intubação”, que devem chegar ao Brasil em até 20 dias.

Na quinta-feira, 15, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que a obrigação de adquirir os kits é dos estados e municípios, mas que a pasta tem colaborado com as cidades com menores condições de compra: “Há estados que são maiores que países e que têm condições de captação no mercado internacional. A própria iniciativa privada pode buscar insumos no exterior e trazer”.

Naquele mesmo dia, uma remessa de 2,3 milhões de medicamentos usados no “kit intubação” chegou ao Brasil vinda da China. A aquisição foi feita por um grupo de empresas e doada ao Ministério da Saúde. No domingo, 407 mil deste medicamentos foram repassados ao estado de São Paulo, quantidade suficiente para três dias de uso.

A SES informou à reportagem na sexta-feira, 16, que 640 hospitais estavam com “estoques críticos, na imanência do colapso”. Argumentou, ainda, que a requisição dos estoques das fabricantes por parte do Ministério da Saúde tem “prejudicado o reabastecimento da rede e tentativas de compras realizadas diretamente pelos serviços” e que, paralelamente às cobranças, a Secretaria “disponibilizou aos hospitais estaduais e municipais a possibilidade de adesão para uma compra internacional conjunta e as tratativas estão curso, como alternativa extra para garantir tais remédios”.

(Com informações de G1, DW Brasil, Fehosp e Anahp)

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