
Fiéis reunidos na Praça da Sé, diante do Marco Zero da capital paulista, celebraram, na manhã de 29 de março, o início da Semana Santa, com a missa do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, presidida pelo Cardeal Odilo Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo.
A liturgia recorda dois momentos centrais da vida de Jesus: Sua entrada em Jerusalém, aclamado pelo povo, e a proclamação de Sua Paixão, neste ano por meio do Evangelho segundo São Mateus.
Após a bênção dos ramos, foi proclamado o Evangelho que recorda a aclamação a Cristo: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”. Em seguida, os fiéis refizeram simbolicamente o caminho de Jesus ao seguirem em procissão até a Catedral da Sé, onde houve a continuidade da celebração eucarística com a leitura da Paixão do Senhor.
DIANTE DA CRUZ
Na homilia, Dom Odilo destacou o significado da Semana Santa como o centro da vida litúrgica da Igreja e convidou os fiéis a vivê-la intensamente: “Somos chamados a viver esta semana não como espectadores, mas como participantes, pela fé, da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus”.
O Arcebispo também incentivou a participação nas celebrações do Tríduo Pascal, ressaltando que não se trata apenas de recordar acontecimentos, mas de tomar parte neles com fé. “Aquilo que se passou com Jesus não é apenas uma memória distante, mas diz respeito a nós, foi por nós e continua a produzir frutos em nossa vida”, destacou.
Ao aprofundar o sentido do relato da Paixão, Dom Odilo chamou a atenção para a presença de diversos personagens na narrativa evangélica e propôs aos fiéis um exercício concreto de identificação espiritual. “Somos levados a nos perguntar como nos situamos nesse drama”, disse, explicando que cada pessoa é chamada a reconhecer, à luz da fé, qual lugar ocupa diante de Cristo.
ATÉ O FIM

Nesse sentido, é possível, por exemplo, reconhecer-se em figuras como Simão Cireneu, que ajuda Jesus a carregar a cruz, assumindo também hoje os sofrimentos e responsabilidades da vida com fé; ou como o bom ladrão, que, mesmo no limite da própria condição, reconhece a verdade e se abre à misericórdia de Deus.
Do mesmo modo, os fiéis podem se identificar com aqueles que permanecem junto de Jesus até o fim, como as santas mulheres, que expressam fidelidade, compaixão e perseverança, ou ainda com José de Arimateia, que toma uma atitude concreta diante da morte de Cristo.
Por outro lado, Dom Odilo alertou que também estão presentes atitudes que devem ser evitadas, como a indiferença dos que observam de longe, a rejeição daqueles que condenam Jesus ou a postura de Pilatos, que, mesmo reconhecendo a verdade, cede à pressão e à conveniência. “Quantas vezes, pela lei da vantagem, deixamos de assumir a verdade e a justiça”, afirmou.
FIEL À VERDADE

O Cardeal sublinhou que Jesus foi condenado por testemunhar a verdade sobre si mesmo como Filho de Deus, permanecendo fiel até o fim. “Ele confirmou sua missão até a entrega total da vida, sem renunciar à verdade”, disse, ressaltando que esse testemunho se torna modelo para a vida cristã.
Ao relacionar essa realidade com o tempo presente, enfatizou: “A verdade não se decide pela maioria, mas por ela mesma”. Ele convidou os fiéis a um compromisso pessoal com a verdade, mesmo quando isso exige esforço, coerência e fidelidade.
RAMOS

Ao comentar o significado dos ramos, Dom Odilo explicou que eles simbolizam a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, mas recordou que essa vitória passa pela cruz. “A vitória não vem sem a cruz. Por isso, não devemos ter medo de abraçá-la e seguir Jesus”, exortou.
Nessa perspectiva, o Arcebispo destacou que a vivência da fé cristã implica assumir, no cotidiano, as exigências do seguimento de Cristo, inclusive nos momentos de dificuldade. A cruz, afirmou, não é sinal de derrota, mas caminho de fidelidade e de vida nova. Por fim, Dom Odilo desejou que a Semana Santa seja vivida como um tempo de renovação espiritual, no qual cada fiel, identificando-se com Cristo e com aqueles que lhe foram fiéis, possa também renovar seu compromisso de fé. “Seguindo Jesus no caminho da Paixão, somos chamados a participar também da Sua Ressurreição”, concluiu.
A ORIGEM DA CELEBRAÇÃO
Há uma razão histórica para a proclamação dos dois relatos dos evangelhos no Domingo de Ramos. Nos primeiros séculos do Cristianismo, ainda não havia a celebração estruturada do Tríduo Pascal e, por isso, não era costume celebrar liturgicamente a Paixão do Senhor na sexta-feira anterior à Páscoa. Assim, no domingo precedente, fazia-se memória da morte de Cristo, enquanto a semana seguinte era dedicada à celebração da Ressurreição.
Mesmo após a consolidação do Tríduo Pascal, essa tradição foi mantida, sobretudo como forma de garantir que todos os fiéis pudessem entrar em contato com o mistério da Paixão, especialmente aqueles que, por diferentes motivos, não podem participar das celebrações dos dias centrais.
Além disso, a liturgia do Domingo de Ramos propõe a contemplação de um contraste significativo: a mesma multidão que aclama Jesus como o “Filho de Davi” em sua entrada em Jerusalém é aquela que, poucos dias depois, pede sua crucificação. Esse contraste convida os fiéis a refletirem sobre a constância da própria fé e a fidelidade no seguimento de Cristo.



