Na Via-Sacra no Coliseu de Roma, 20 mil pessoas fazem ecoar os pedidos pela paz no mundo

As meditações deste ano foram testemunhos de homens e mulheres de várias regiões do mundo que sofrem violência, pobreza e injustiça, que o Papa ouviu durante as viagens apostólicas e outras ocasiões

Fotos: Vatican Media

As últimas horas de Jesus foram encenadas no Coliseu de Roma diante de 20 mil fiéis na noite da Sexta-feira Santa, 7.

O Papa Francisco acompanhou o evento de sua residência, a Casa de Santa Marta, para se preservar do frio romano, poucos dias depois de receber alta do Hospital devido a uma infecção respiratória. Assim, a  Via-Sacra foi conduzida pelo Vigário para a Diocese de Roma, o Cardeal Angelo De Donatis.

As meditações deste ano de 2023 foram fruto das peregrinações do Pontífice pelo mundo – histórias e testemunhos que ouviu nestes 10 anos de pontificado, que Dicastérios da Cúria Romana condensaram em 14 textos, um para cada estação.

Uma Cruz foi carregada por vítimas da violência das guerras, representando as pessoas que o Papa encontrou em suas viagens apostólicas.

São ecos de paz que afloram nesta “terceira guerra mundial aos pedaços”, gritos que vêm de países e áreas hoje dilacerados por violências, injustiças e pobreza. Todos os lugares onde se sofre por conflitos, ódios e perseguições estiveram presentes na oração desta Sexta-feira Santa.

UMA ‘DECISÃO’ PELA PAZ NA TERRA SANTA

O caminho da Cruz começou a partir da Terra Santa, onde “a violência parece ser a nossa única linguagem”. Nesse contexto “carregado de ódio e rancor”, o chamado é para tomar uma “decisão” de paz. Depois, a oração: “Quando condenamos sem apelo nossos irmãos” e “quando fechamos os olhos perante a injustiça: Ilumina-nos, Senhor Jesus”.

A VIA-SACRA DE UM MIGRANTE DA ÁFRICA OCIDENTAL

O testemunho de um migrante da África Ocidental é pungente quando ele conta sobre a sua “via-sacra” marcada pela prisão e tortura na Líbia e pelas travessias marítimas, como aquela dentro de um bote com 100 pessoas: “Todas as noites, perguntava a Deus porquê: por que homens como nós devem considerar-nos inimigos?”. “Livra-nos, Senhor Jesus”, é a oração por “julgamentos precipitados”, de “murmurações destrutivas”.

AS ‘QUEDAS’ DOS JOVENS DA AMÉRICA CENTRAL

A meditação da terceira estação, aquela em que Jesus cai pela primeira vez, é feita por jovens da América Central. Estes jovens também falam de quedas: “preguiça”, “medo”, “desalento” e “promessas vazias duma vida fácil mas desonesta, feita de ganância e corrupção”. “Muitas famílias”, escrevem eles, “continuam a chorar a perda dos filhos”. E, rezam, pela nossa “preguiça”, “tristeza”, “queda” e também por “pensar que ajudar os outros não toca a nós”: “Levanta-nos, Senhor Jesus!

DA AMÉRICA DO SUL, A MÃE QUE AJUDA A PREVENIR ACIDENTES COM MINAS

Ainda da América, desta vez do Sul, a voz de uma mãe, vítima da explosão de uma bomba de guerrilha em 2012. O que a aterrorizou foi ver a sua filha de 7 meses de idade com pedaços de vidro cravados no rostinho. “Como deve ter sido para Maria ver o rosto de Jesus pisado e ensanguentado!”. “No rosto desfigurado de quem sofre: Concede-nos reconhecer-Te, Senhor Jesus!” é a invocação.

VÍTIMAS DO ‘ÓDIO’ NA ÁFRICA, NO SUL DA ÁSIA E NO ORIENTE MÉDIO

Três migrantes da África, do Sul da Ásia e do Oriente Médio entrelaçam suas histórias: são diferentes, mas unidas por serem vítimas do ódio. O que “uma vez experimentado, não se esquece…”. Portanto, um pedido de perdão de Deus porque “desprezamos-Te nos desventurados” e “ignoramos-Te nos necessitados de ajuda”.

O SACERDOTE TORTURADO DURANTE A GUERRA NOS BÁLCÃS

Um sacerdote dá voz à Península Balcânica: um pároco em plena guerra, foi deportado para um acampamento sem comida e água: “ameaçaram de arrancar as unhas, esfolar-me vivo. Uma vez implorei a um guarda que me matasse”, mas uma mulher muçulmana lhe trouxe comida e ajuda: “foi para mim como a Verônica para Jesus”. “Dá-nos o teu olhar, Senhor Jesus”, é a súplica, ‘para cuidar de quem sofre violência’ e ‘acolhe quem se arrepende do mal’.

AS ESPERANÇAS DE DOIS ADOLESCENTES DO NORTE DA ÁFRICA

Dois adolescentes do norte da África, Joseph, 16, e Johnson, 14, que vivem em campos de deslocados, dizem que querem estudar e brincar, mas não têm espaço nem oportunidade: “A paz é boa, a guerra é má. Gostaria de o dizer aos líderes do mundo”. “Na fadiga de construir pontes de fraternidade”, é a oração deles, “Fortalece-nos, Senhor Jesus”.

O POVO DO SUDESTE ASIÁTICO QUE “AMA A PAZ”

Os fiéis do sudeste asiático também falam ao mundo: “Somos um povo que ama a paz, mas estamos esmagados pela cruz do conflito…”. As mulheres dão força, como a freira que “se ajoelhou diante do poder com as armas em riste”. De traficar armas sem escrúpulos de consciência: “Converte-nos, Senhor Jesus!”, rezam elas.

Foto: Filipe Domingues

A FREIRA QUE ENSINA VALORES ÀS CRIANÇAS DA ÁFRICA CENTRAL

É também de uma religiosa a voz da África Central que relata a terrível manhã de 5 de dezembro de 2013, quando os rebeldes invadiram a sua aldeia: “a minha irmã desapareceu e nunca mais voltou”. Ela gritava: “Por quê?”. Mas de Deus ela tirou a força para amar: “Tudo passa, exceto Deus”. “Sara-nos”, pede a Deus, do medo de não ser “compreendida” e de ser “esquecida”.

O TESTEMUNHO DE UM JOVEM UCRANIANO E DE UM JOVEM RUSSO

Na décima estação, as meditações são feitas por um jovem ucraniano e um jovem russo. O primeiro conta sua fuga de Mariupol para a Itália, com seu pai preso na fronteira, e seu retorno à Ucrânia. “Há guerra de todos os lados, a cidade está destruída”. O segundo recorda seu irmão mais velho que morreu e seu pai e avô que desapareceram: “Todos nos diziam que tínhamos que nos orgulhar, mas em casa só havia muito sofrimento e tristeza”. Eles pedem ao Senhor a purificação do “ressentimento”, “rancor”, “palavras e reações violentas”.

O ‘CALVÁRIO’ DE UM JOVEM DO ORIENTE MÉDIO

O sofrimento também é compartilhado por um jovem do Oriente Médio que tem vivido uma guerra que é “horrenda a cada dia mais”, desde 2012. Ele fugiu com seus pais: “um outro calvário…”. “Cura-nos, Senhor Jesus” da “incapacidade de dialogar”, do “isolamento”, “deficiência e suspeita”.

Foto: Filipe Domingues

A MÃE DA ÁSIA OCIDENTAL QUE PERDEU SEU FILHO, MAS NÃO ABRE MÃO DA ESPERANÇA

Palavras de esperança de uma mulher da Ásia Ocidental que viu seu filho menor morrer sob uma casca de morteiro junto com seu primo e a vizinha: “a fé me ajuda a ter esperança, porque me lembra que os mortos estão nos braços de Jesus”. Ela pede a Cristo: “Ensina-nos” a “perdoar, como Tu nos perdoaste”.

A MEMÓRIA DA IRMÃ MORTA NA ÁFRICA ORIENTAL

Uma religiosa da África Oriental revive a morte da sua irmã nas mãos dos terroristas no dia em que seu país celebra o Acordo para a Independência. “O dia da vitória se transformou em derrota”. É Cristo, no entanto, assegura, “a nossa verdadeira vitória”. “Tu que, morrendo, destruíste a morte: tem piedade de nós, Senhor Jesus!”.

AS JOVENS DA ÁFRICA AUSTRAL QUE PERDOAM OS REBELDES

Finalmente as histórias das jovens da África Austral, sequestradas e abusadas pelos rebeldes: “Despidas de roupas e dignidade, vivíamos nuas para que não escapássemos”. Tendo escapado, agora escrevem: ‘em nome de Jesus, os perdoamos por tudo o que nos fizeram’. “Guarda-nos, Senhor Jesus”, no “perdão que renova o coração”.

14 ‘OBRIGADOS’

Foto: Filipe Domingues

A Via-Sacra foi concluída com uma oração de “14 obrigados” ao Senhor:

Obrigado, Senhor Jesus, pela mansidão que confunde a arrogância.

Obrigado pela coragem com que abraçaste a cruz.

Obrigado pela paz que jorra das tuas feridas.

Obrigado por nos teres dado a tua santa Mãe como nossa Mãe.

Obrigado pelo amor demonstrado diante da traição.

Obrigado por teres mudado as lágrimas em sorriso.

Obrigado por teres amado a todos sem excluir ninguém.

Obrigado pela esperança que infundes na hora da provação.

Obrigado pela misericórdia que sara as misérias.

Obrigado por Te teres despojado de tudo para nos enriquecer.

Obrigado por teres mudado a cruz em árvore da vida.

Obrigado pelo perdão que ofereceste aos teus assassinos.

Obrigado por teres derrotado a morte.

Obrigado, Senhor Jesus, pela luz que acendeste nas nossas noites e, reconciliando todas as divisões, tornaste-nos a todos irmãos, filhos do mesmo Pai que está nos céus.

Fonte: Vatican News

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