
Promover a paz, construir pontes, viver em harmonia com homens e mulheres de fé. A viagem apostólica do Papa Leão XIV à Argélia, primeira etapa de uma jornada de dez dias no continente africano, foi marcada por um forte apelo do Pontífice: devemos renovar nossos corações, buscando o encontro com Deus, mas também viver a “cultura do encontro” na caridade e na simplicidade.
São ensinamentos que soam especialmente profundos vindos do primeiro Papa agostiniano da história. Ele que escolheu visitar a Argélia – a primeira viagem que fez por vontade própria – por ser a terra de origem do Santo Bispo de Hipona, atualmente Annaba.
Leão XIV ficou na Argélia na segunda-feira, 13, e na terça-feira, 14, partindo para Camarões na manhã da quarta-feira, 15.
Educado por sua mãe, Santa Mônica, Agostinho não seguiu a fé cristã desde o início. Como revela em suas Confissões, fez um percurso bastante atribulado até chegar ao encontro que mudou sua trajetória. Ao longo da vida, fez uma emblemática experiência de conversão; buscou Deus – a Verdade maior e absoluta – por meio da razão, do estudo e da espiritualidade, na oração, no silêncio. Tornou-se Bispo, Santo e Doutor da Igreja, um dos mais importantes padres do catolicismo.

No sítio arqueológico de Hipona, visivelmente emocionado, o Papa Leão XIV rezou em silêncio, recordando Agostinho. Foi a terceira vez que ele visitou o local, sendo esta a primeira como Sumo Pontífice. Inspirado por toda a vida pelos ensinamentos do Santo que considera seu pai espiritual, o Papa falou na Argélia da colaboração e da harmonia entre pessoas de fé, e defendeu, com grande convicção, a reconciliação entre os povos e a paz.
Diante do Monumento aos Mártires Maqam Echahid, ele disse ao povo argelino: “O futuro pertence aos homens e às mulheres que defendem a paz. No fim, a justiça sempre triunfará sobre a injustiça, assim como a violência, por mais que as aparências indiquem o contrário, nunca terá a última palavra.” Neste lugar, completou, “recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações; uma paz que não é apenas a ausência de conflito, mas a expressão da justiça e da dignidade. E essa paz, que permite encarar o futuro com o coração reconciliado, só é possível por meio do perdão.”
Leão XIV foi ao encontro dos cristãos da Argélia país em que começaram a ser expulsos no século VII. Hoje, possui uma minoria que não chega a 0,3% da população de 2,4 milhões de pessoas, feita em grande parte por protestantes e católicos estrangeiros. Ainda assim, há polos de solidariedade e colaboração entre cristãos e muçulmanos. Às autoridades civis, ele disse que “a verdadeira força de um país reside na cooperação de todos para a realização do bem comum”.

“Também a sociedade argelina conhece a tensão entre o sentido religioso e a vida moderna. Aqui, como em todo o mundo, tendem a manifestar-se dinâmicas opostas, de fundamentalismo ou de secularização, pelas quais muitos perdem o sentido autêntico de Deus e da dignidade de todas as suas criaturas”, afirmou. Portanto, “é preciso educar para o senso crítico e a liberdade, para a escuta e o diálogo, para a confiança que nos faz ver no diferente um companheiro de viagem, e não uma ameaça”.
Na Grande Mesquita de Argel, maior lugar de culto muçulmano na África, ele fez uma visita cordial e respeitosa à comunidade islâmica local, acompanhado do reitor, Mohamed Mamoun Al Qasimi. A imagem dos dois líderes religiosos lado a lado, ambos vestidos de branco, e a troca de presentes entre eles, representou o espírito do encontro.

A Igreja está presente neste país para promover a dignidade humana e a justiça, ensinou o Pontífice. “Nesta terra, queridos cristãos da Argélia, permaneçam como um sinal humilde e fiel do amor de Cristo. Testemunhem o Evangelho com gestos simples, relações autênticas e um diálogo vivido dia a dia: assim, vocês trazem sabor e luz ao lugar onde vivem”, disse na homilia, durante a missa na Basílica de Santo Agostinho, em Annaba.
“A sua presença no país faz lembrar o incenso: um grão incandescente, que exala perfume porque dá glória ao Senhor e alegria e consolo a tantos irmãos”, prosseguiu.
A grande busca de cada cristão, acrescentou o Santo Padre, é “renascer do alto”. Escutando a vontade de Deus, é possível encontrar as forças para segui-la. Nas palavras de Santo Agostinho, disse ele, devemos rezar: “Dá-me, Senhor, o que me pede e peça o que quiser” (Confissões, X, 29, 40). Nutridos pelos sacramentos, é preciso deixar-se “regenerar por Deus, como irmãos e irmãs de Jesus”.

“A fé no único Deus, Senhor do céu e da terra, une as pessoas segundo uma justiça perfeita, que convida a todos à caridade, ou seja, a amar cada criatura com o amor que Deus nos concede em Cristo”, refletiu Leão XIV. “Por isso, sobretudo diante da miséria e da opressão, os cristãos têm como código fundamental a caridade: façamos ao próximo o que gostaríamos que nos fosse feito (cf. Mt 7,12)”.
Nas próximas etapas de sua viagem, o Papa passará por Camarões, Guiné Equatorial e Angola. Como na Argélia, buscará renovar os cristãos na fé e estabelecer pontos de diálogo e de paz.
A cobertura diária da viagem apostólica pode ser lida em www.osaopaulo.org.br.




