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A adoração a Jesus Eucarístico é expressão da fé e da tradição da Igreja desde os seus primórdios

A adoração a Jesus Eucarístico é expressão da fé e da tradição da Igreja desde os seus primórdios - Jornal O São Paulo
Luciney Martins/ O SÃO PAULO

No centro da fé católica está a cer­teza de que Jesus Cristo se faz real­mente presente na Eucaristia, mistério celebrado com especial solenidade na Quinta-feira Santa. Sob as espécies do pão e do vinho, a Igreja reconhece o próprio Senhor – Corpo, Sangue, Alma e Divindade – que se oferece como ali­mento e permanece vivo no meio do seu povo.

As palavras de Cristo na Última Ceia – “Isto é o meu corpo” (Mt 26,26) – fundamentam essa convicção. A par­tir delas, nasce não apenas a comunhão sacramental, mas também a atitude de adoração, própria de quem reconhece a presença de Deus.

Já nos primeiros séculos, essa consciência se manifesta com clareza. Santo Agostinho afirma: “Ninguém come desta carne sem antes adorá-la” (Comentário aos Salmos, 98,9). A ado­ração, portanto, não é um acréscimo posterior, mas consequência direta da fé na presença real.

AO LONGO DA HISTÓRIA

A Igreja foi desenvolvendo formas concretas de expressar essa fé ao longo da história. A partir da Idade Média, difundiu-se a prática da adoração e da exposição do Santíssimo Sacramento, favorecendo a oração silenciosa diante de Cristo.

Nesse contexto, nasce a solenidade de Corpus Christi, instituída pelo Papa Urbano IV em 1264, por meio da bula Transiturus de hoc mundo, também inspirada pelas experiências místicas de Santa Juliana de Liège. A procissão eucarística, que percorre as ruas, torna visível essa fé: o Senhor permanece com o seu povo.

Para essa festa, São Tomás de Aqui­no compôs hinos que permanecem como referência na espiritualidade da Igreja. No Adoro Te Devote, reza-se: “Adoro-Te devotamente, Deus escondi­do, que sob estas aparências verdadei­ramente Te ocultas”. E ainda: “A vista, o tato, o gosto falham; mas basta o ouvido para crer com firmeza”. Nesses versos, a fé reconhece aquilo que os sentidos não alcançam e se inclina em adoração.

NO MAGISTÉRIO

O magistério reafirmou continua­mente essa prática. São Paulo VI ensi­nou: “A Igreja prestou e ainda presta o culto de latria que é devido ao sacramen­to da Eucaristia, não só durante a mis­sa, mas também fora da sua celebração” (Mysterium Fidei, 56).

O Catecismo da Igreja Católica con­firma: “A Igreja presta culto de adoração à Eucaristia não somente durante a mis­sa, mas também fora dela” (CIC 1378).

O Papa Bento XVI destacou essa con­tinuidade ao afirmar: “O ato de adoração fora da missa prolonga e intensifica tudo o que se realiza na própria celebração litúrgica” (Sacramentum Caritatis, 66).

Também o Papa Francisco, no discurso ao Comitê Organizador do Congresso Eucarístico Nacional dos Estados Uni­dos, em 19 de junho de 2023, recordou: “Precisamos redescobrir o sentido da adoração. A Eucaristia o exige de nós”.

TESTEMUNHO DOS SANTOS

A vida dos santos oferece um teste­munho concreto e luminoso dessa ver­dade. São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, ao observar um camponês que passava longas horas diante do sacrário, perguntou-lhe certa vez sobre o que fa­lava com Jesus, e admirou-se com a res­posta: “Eu olho para Ele e Ele olha para mim”. Da intimidade silenciosa que cul­tivou ao longo de sua vida com o Santís­simo Sacramento advinha a força de seu ministério sacerdotal.

São Pedro Julião Eymard, grande apóstolo da Eucaristia, ensinava que “a Eucaristia é Jesus passado, presente e futuro; é o centro de tudo”. Ele dedicou sua vida a promover a adoração como resposta de amor à presença de Cristo.

Santa Teresa de Calcutá também colocava a adoração no coração de sua missão. Ela afirmava que “o tempo que passamos diante de Jesus no Santíssi­mo Sacramento é o melhor tempo que passamos na terra”. Para suas irmãs, determinou que a adoração diária fos­se fonte da caridade vivida entre os mais pobres.

São João Paulo II testemunhou pes­soalmente essa prática e escreveu: “É bom demorar-se com Ele e, como o discípulo amado, reclinar a cabeça so­bre o seu peito (cf. Jo 13,25)” (Ecclesia de Eucharistia, 25).

PRÁTICA DA IGREJA

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Essa experiência permanece viva na Igreja de hoje, tanto nas capelas de adoração perpétua quanto na vida ordi­nária das paróquias. Em muitos lugares, a exposição do Santíssimo às quintas­-feiras tornou-se um convite semanal à oração silenciosa. Do mesmo modo, as primeiras sextas-feiras do mês, liga­das à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, reforçam a dimensão reparadora da adoração.

Grandes encontros eclesiais tam­bém tornaram visível essa fé. Na Jor­nada Mundial da Juventude de Madri, na Espanha, em 2011, após uma forte tempestade, mais de 2 milhões de jo­vens permaneceram em silêncio dian­te do Santíssimo Sacramento, em ado­ração conduzida pelo Papa Bento XVI. Em 2013, no Rio de Janeiro, milhões de jovens ajoelharam-se nas areias de Copacabana, unidos ao Papa Francis­co, em um impressionante momento de silêncio e oração diante de Jesus Eucarístico.

COMO ADORAR?

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A adoração eucarística não substitui a Santa Missa, mas nasce dela e a pro­longa. Não é uma prática isolada, mas expressão coerente da fé na presença real de Cristo.

Diante do Santíssimo, os fiéis são convidados a uma atitude simples e profunda: permanecer na presença de Deus, com fé, silêncio e abertura do co­ração. Mesmo quando nada se sente, a adoração permanece fecunda, pois se trata de estar com Cristo.

Para aqueles que desejam iniciar ou aprofundar essa prática, alguns passos podem ajudar a viver melhor esse mo­mento, baseados na tradição espiritu­al da Igreja, conforme o Catecismo da Igreja Católica (1378; 2705-2719), e nos ensinamentos recentes do magistério, especialmente a encíclica Ecclesia de Eu­charistia e a exortação apostólica Sacra­mentum Caritatis:

  • Colocar-se na presença de Deus: ao entrar, fazer um gesto de reverência e tomar consciência de que se está diante de Cristo realmente presente;
  • Fazer um ato de fé: com palavras simples, reconhecer interiormente: “Se­nhor, eu creio que estais aqui presente”;
  • Deixar-se conduzir pela Palavra de Deus: ler um breve trecho do Evan­gelho e permanecer com ele, deixando que ilumine a oração;
  • Cultivar o silêncio: mais do que falar, aprender a escutar e a permanecer, permitindo que o coração se aquiete;
  • Falar com simplicidade: apresen­tar ao Senhor a própria vida – alegrias, dificuldades, intenções – como quem conversa com um amigo;
  • Interceder pelos outros: rezar pela Igreja, pelas necessidades do mundo e por aqueles que mais precisam, unindo­-se ao amor de Cristo;
  • Perseverar mesmo na aridez: quando faltarem sentimentos ou conso­lações, permanecer com fidelidade, sa­bendo que esse tempo é precioso diante de Deus;
  • Concluir com gratidão: antes de sair, agradecer pela presença do Senhor e pelo tempo vivido com Ele.

Nesse caminho, a tradição da Igreja conserva orações que ajudam a viver a adoração. Entre elas, destaca-se a ora­ção ensinada pelo Anjo de Fátima aos pastorinhos:

“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão pelos que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam.”

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