Cardeal Scherer visita obras do restauro de capela centenária na ‘Cidade Matarazzo’

Capela Santa Luzia, inaugurada em 1922, está instalada na Bela Vista, em um complexo que será um novo centro cultural, com serviços na área de moda, design, arte e gastronomia

Cardeal Scherer na Capela Santa Luzia (crédito: comunicação Cidade Matarazzo)

O Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, visitou na sexta-feira, 18, as obras de restauro da Capela Santa Luzia, localizada na ‘Cidade Matarazzo’, no bairro da Bela Vista.

O restauro da capela, inaugurada em 1922, deve ser concluído ainda este ano, mantendo as características originais do templo.

A ‘Cidade Matarazzo’ é um complexo administrado pelo Grupo Allard, cujo proprietário é Alexandre Allard. O local é definido pelo grupo como “uma arborizada ilha de cultura” e “um centro cultural e destino de compras dedicado à moda, ao design, à arte e à gastronomia”

ACESSE E VEJA O REGISTRO DE FOTO E VÍDEO DA VISITA

Histórico da reforma

Em junho de 2017, a reportagem do O SÃO PAULO visitou as obras de reforma da Capela Santa Luzia, na “Cidade Matarazzo”, localizada entre a Rua Itapeva e a Alameda Rio Claro.

Na ocasião, Júlio Roberto Katinsky, arquiteto e pós-doutor pela FAU-USP, e Roberto Toffoli Simoens da Silva, também arquiteto, com atuação em projetos de restauro, conversaram com a reportagem.

“O restauro acontece num âmbito institucional, ou seja, com dimensões universais. Qualquer coisa pode ser restaurada desde que se reconheçam certos valores culturais. Esses valores vêm da história do bem em questão e a forma com que a religião se desenvolveu num determinado período é constituinte do valor que estamos discutindo ou das qualidades arquitetônicas que ele tem, o que chamamos de estética”, explicou Toffoli.

O mentor do projeto, Alexandre Allard, em entrevista à época, disse queria ressacralizar a Capela Santa Luzia, “para que continuem acontecendo nela as funções religiosas como missas, casamentos e batizados”.

Alexandre Allard (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO – jul.2017)

Templo centenário

Na atual “Cidade Matarazzo” se localizava o antigo “Hospital Umberto I” ou “Sociedade de Beneficência em São Paulo – Hospital Nossa Senhora Aparecida e Casas de Saúde Matarazzo”, construído em 1904 e que no início do século XX, tornou-se símbolo do crescimento da cidade e da imigração italiana no Brasil.

Francesco Antonio Maria Matarazzo, que chegou ao Brasil em 1881 junto à sua esposa, Filomena, começou ali um empreendimento que marcou definitivamente a história de São Paulo.

Katinsky salientou o fato de o Conde Matarazzo ter trazido para o País muitas inovações tecnológicas e científicas. “Ele investiu muito dinheiro para construir o Hospital; ele tinha uma visão industrial e sabia que a manutenção das suas indústrias dependia de uma massa de gente que precisava receber algum apoio. A construção da Capela, por sua vez, deve-se ao fato de que a família Matarazzo era católica, bem como 90% da população brasileira”.

Foto: Acervo Cidade Matarazzo

“No que se refere ao tombamento histórico dos edifícios, que aconteceu em 1986, a Capela tem nível de restrição mais alto do que as demais construções do complexo e, consequentemente, tem que ser restaurada a partir das suas características primeiras. Temos a maior empatia de que ela se torne Capela novamente, pois isso garantirá sua conservação”, afirmou Toffoli na entrevista de 2017.

“O altar de mármore, que provavelmente não foi feito no Brasil, está protegido, e os detalhes da pintura serão igualmente recuperados. Assinada pelo arquiteto Giovanni Batista Bianchi (1885–1942), que chegou a São Paulo em 1911, a Capela contém fachada neoclássica em amarelo Sienna, que imita o mármore, seguindo a técnica milenar Scagliola, muito usada na Itália”, consta em outro trecho do texto.

Serviço religioso

A história do serviço religioso realizado no então “Hospital Nossa Senhora Aparecida e Casas de Saúde Matarazzo” é contada por diferentes documentos que estão espalhados nas paróquias próximas e no Arquivo Metropolitano de São Paulo.

Além dos registros de Batismo e Matrimônio que estão no Arquivo e constam desde 1926, parte dos livros de tombo, com registros que datam de 1960 a 1972, estão nas igrejas São Luiz Gonzaga e Imaculada Conceição, paróquias que ficam territorialmente próximas à Capela Santa Luzia – pois quando houve a desativação do Hospital, em 1993, os livros foram transportados para as igrejas do entorno. Algumas cartas e registros estão também no Arquivo da Província dos Padres Camilianos no Brasil.

Quando chegaram ao Brasil, em 1922, os Padres Camilianos perceberam que o então Hospital Umberto I poderia ser um local oportuno para a atuação da Congregação. Assim, os Camilianos dirigiram-se aos Capuchinhos, que eram, até então, os responsáveis pela Capelania, pedindo para assumir as funções religiosas no local.

À época, trabalhava também no Hospital, o Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, congregação que chegou ao Brasil em 1900. As religiosas começaram a trabalhar no Hospital em 1907 e foi ali que encontraram os Padres Camilianos, aos quais cabia a organização e orientação dos serviços religiosos, desde 1922.

Naquele ano, segundo relatos dos Padres Camilianos, descritos no livro “Reminiscências Históricas da Fundação Camiliana no Brasil”, o Hospital contava com cem leitos e estava na iminência da construção de novos pavilhões, bem como de uma igreja. No Arquivo da Província Camiliana há várias correspondências entre os novos capelães que foram ao Hospital e os responsáveis legais, inclusive com as assinaturas de Mariangela Matarazzo e José Matarazzo, membros da famílias e presidentes do Hospital.

Há também registros da quantidade de batizados, casamentos, confissões e missas realizadas anualmente nas dependências do Hospital. Para se ter uma ideia, no ano de 1952 aconteceram 8.525 confissões, 37.370 comunhões, 343 administrações dos santos óleos (Unção dos Enfermos), 235 batismos, 51 casamentos e 460 missas.

“Eu acho que cada ser humano tem uma alma e cada lugar carrega em si uma história. Aqui tem uma história muito especial e positiva. As pessoas que estão na origem do Hospital Matarazzo estavam vendo o Brasil positivamente. Tivemos também a comunidade italiana, que viveu uma experiência religiosa católica a partir das referências culturais que tinha, que é diferente daquela de Portugal, por exemplo”, disse Alexandre Allard na entrevista de 2017.

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