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Cuidar dos idosos e fomentar novas vocações: desafios constantes da vida religiosa consagrada

Assuntos foram debatidos em um congresso promovido pela Conferência dos Religiosos do Brasil, que também abordou a profissionalização da gestão das instituições

Cuidar dos idosos e fomentar novas vocações: desafios constantes da vida religiosa consagrada - Jornal O São Paulo
Luciney Martins/O SÃO PAULO

Os impactos do envelhecimento na missão da Vida Religiosa Consagrada (VRC) e os desafios para a formação de novas lideranças diante das trans­formações da Igreja e da sociedade fo­ram destaques em um congresso reali­zado pela Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional), entre os dias 25 e 26 de junho, no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp), no bairro do Ipiranga, na zona Sul.

Irmã Maria do Disterro Rocha Santos, presidente da CRB Nacional, explicou ao O SÃO PAULO que o congresso nasceu da necessidade de responder às transformações vividas pelas congregações: “Nós, como vida consagrada masculina e feminina, so­mos chamados a fazer essas travessias. Existe a travessia do medo, do enve­lhecimento e da falta de vocações. Por isso, privilegiamos o tema do envelhe­cimento na Vida Religiosa Consagra­da e da formação de novas lideranças”.

PANORAMA DEMOGRÁFICO DAS CONGREGAÇÕES

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A presidente da CRB Nacional contextualizou que a realidade demo­gráfica das congregações exige novas respostas pastorais e organizacionais: “Constatamos que muitas comunida­des têm seus membros com mais de 60, 70, 80 e até 100 anos. O congresso vem justamente ajudar as novas lideranças a enfrentar esse desafio de cuidar dos idosos e, ao mesmo tempo, pensar no crescimento das novas vocações”.

Irmã Michele da Silva, 40, da Con­gregação do Imaculado Coração de Maria, foi uma das mais jovens partici­pantes do evento: “É uma alegria, mas também um desafio, essa dimensão do envelhecimento. Temos uma estrutura grande de obras e, ao mesmo tempo, poucas irmãs mais ativas. Isso acaba fragilizando especialmente as comu­nidades de inserção pastoral, em que a presença missionária é mais necessária”.

E um dos mais experientes parti­cipantes foi o Irmão Raimundo No­nato de Oliveira, marista, que, aos 91 anos, já não percorre mais os estados do Nordeste em missão. Atualmente, reside no Recanto Marista Nazaré, em Recife (PE), uma comunidade de re­ligiosos idosos: “Quando ingressei na congregação, a maioria de nós éramos jovens. Os anos foram passando e hoje a realidade é outra: a maior parte é de idosos. Eu cuido de outros confrades e sou cuidado. É um cuidado fraterno”.

Irmã Maria do Disterro ressaltou que os religiosos idosos permanecem protagonistas da missão da Igreja, mesmo quando deixam as atividades apostólicas mais intensas: “Muitos não compreendem que, ao deixar uma mis­são ativa, continuam em missão. Até um irmão no leito está cumprindo sua missão por meio da oração, da oferta da própria vida e do testemunho”.

Ela destacou, ainda, que o enve­lhecimento deve ser compreendido “como expressão de uma trajetória marcada pelo cuidado, pela fidelidade e pela doação à missão, além de defen­der uma cultura que valorize a expe­riência dos religiosos e religiosas mais idosos e fortaleça a esperança na reno­vação da Vida Religiosa Consagrada”.

TRANSFORMAÇÕES DA SOCIEDADE E AS VOCAÇÕES

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Outro desafio apontado durante o congresso foi a adaptação das lideran­ças religiosas às rápidas transforma­ções da sociedade.

“As mídias sociais entraram defi­nitivamente nas nossas comunidades. Elas são importantes e vieram para ficar, mas não podem substituir a pre­sença, o cuidado mútuo e a delicadeza das relações. Não podemos perder a humanidade. Precisamos voltar a sen­tar à mesa, olhar nos olhos e dizer: ‘Eu me importo com você’”, explicou a pre­sidente da CRB Nacional.

Sobre a busca de novas vocações, Irmã Maria do Disterro demonstrou esperança: “Deus não abandonou o seu povo. As vocações existem. Nós é que precisamos nos aproximar nova­mente da juventude. Os jovens só po­derão se apaixonar pelo nosso carisma se nos conhecerem”.

Francisco Orofino, leigo, doutor em Teologia Bíblica, abordou o tema “Como o envelhecimento da VRC pro­voca novas leituras de carismas e no­vas formas de presença missionária”, destacando que “essa realidade desa­fia as congregações a uma releitura de seus carismas fundacionais e a encon­trar novas formas de evangelização, mantendo viva a identidade da VRC”.

Também participou do evento o Padre Didi Mateus, mestre e doutor em Sociologia, que apresentou uma análise sobre os impactos sociológicos do envelhecimento da Vida Religiosa Consagrada, destacando as conse­quências desse fenômeno para a con­tinuidade da missão das congregações e para a reorganização das estruturas institucionais diante da nova configu­ração demográfica da vida religiosa.

MISSÃO PERENE E BEM ESTRUTURADA

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Kleberson Massaro Rodrigues, con­sultor da Unesco para a Educação, cha­mou atenção para as profundas trans­formações sociais que modificaram os desafios enfrentados pelas congrega­ções. Segundo ele, enquanto as institui­ções religiosas envelhecem e recebem menos vocações, cresce a responsabili­dade das atuais lideranças em garantir a continuidade das obras e do carisma.

‘‘A pergunta central é: quem ad­ministrará as obras das congregações religiosas no futuro? Preservar o ca­risma passa também pela profissiona­lização da gestão’’, disse. Ele ressaltou, porém, que isso “não significa substi­tuir a espiritualidade por uma lógica empresarial, mas fortalecer processos administrativos, planejamento e go­vernança para assegurar a missão das instituições. Não somos uma orga­nização que tem uma missão; somos uma missão que precisa se organizar. O desafio é conciliar espiritualidade e boa gestão, garantindo a perenidade da missão”.

Kleberson comentou, ainda, que investir em governança tornou-se uma necessidade diante da crescente com­plexidade da sociedade e da atuação de grandes grupos privados nas áreas de educação e saúde, tradicionalmente ocupadas pelas congregações religiosas.

SINODALIDADE E LIDERANÇA

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Suzana Regina Moreira, leiga, dou­toranda em Teologia Sistemático-Pas­toral, abordou a construção de novos estilos de liderança a partir da sino­dalidade: “A renovação das lideranças não depende da criação de algo total­mente novo, mas do retorno às fontes do Evangelho e ao paradigma de Jesus Cristo, traduzindo esses valores para os desafios contemporâneos”.

Ela enfatizou que a liderança cristã não é pautada por uma lógica de do­mínio, “mas de serviço, enxergando o outro como igual e promovendo a comunhão. A sinodalidade convida a Igreja a fortalecer as relações humanas, promover o diálogo entre gerações e construir uma missão compartilhada”.

PESQUISA EM ANDAMENTO

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No final de maio, foi apresentada uma pesquisa nacional que mapeará a realidade da Vida Religiosa Consagra­da no Brasil.

‘‘Mais do que saber quantos somos, queremos saber onde estamos, o que fazemos, quais são nossos desafios e nossas esperanças. Existe muita coisa boa acontecendo na Vida Religiosa que precisa ser conhecida e divulgada’’, explicou Irmã Maria do Disterro.

A pesquisa será realizada em duas etapas: inicialmente com os superiores e superioras maiores e, posteriormen­te, com todos os religiosos e religiosas. Para aqueles que não possuem acesso à internet, a CRB pretende organizar formas presenciais de participação. Mais detalhes estão disponíveis em https://crbnacional.org.br.

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